Hoje
Hoje que estou só, o céu cinzento, um silêncio gritando muito alto, vejo árvores e verde, mas não vejo o mar, Hoje que sinto dores no corpo e a cabeça apertada, por coisas que não sei explicar, Hoje que sei que a vida é dura, o caminho mais e mais difícil, e que não se vê saída para o que chamam crise, Hoje em que a vontade é fechar os olhos, dormir, tentar esquecer e esperar que amanhã seja melhor, mesmo sabendo que é mentira, Hoje, pus-me a pensar, a recordar, onde já estive bem, onde fiquei contente, onde a vida prometia coisas boas e que pareciam eternas. Já comi belos peixes grelhados, como se fossem o mar no prato, já comi pezinhos de coentrada no Alentejo verdadeiro, onde a gelatina só é comparável com alguns pratos chineses, já comi as comidas do Vilas no Algarve que já tinham desaparecido, já comi um cabrito grelhado numa lareira num tasco-talho do Sabugal só temperado com sal, já comi maranhos em Vila de Rei, feitos por gente que já se foi, já comi as cascas de Vinhais, cozidas com enchidos curados pelo frio e o fumo, já comi os bacalhaus da Narcisa de Braga, há mais de 40 anos, com as postas demolhadas num ribeiro subterrâneo que passa no meio do pátio da casa, já comi os milhos com o fumeiro grelhado, no grande Aprígio de Chaves, já comi as postas de novilho mirandês, na Gabriela de Sendim e no Estrela de Mogadouro, já comi as enguias fritas ou em caldeirada, mais o arroz de línguas de bacalhau, nos bons sítios de Aveiro, já comi os pequenos leitões com a pele estaladiça em várias terras da Bairrada, já comi as tripas de bacalhau com feijão ou outras companhias, na Gala, em frente da Figueira da Foz, já comi o cabrito assado com o arroz de carqueja do grande Júlio de Gouveia, já comi as pataniscas em muitas versões diferentes, assim como as saladas de polvo, de búzios e também os caracóis e as caracoletas, os espargos, as tengarrinhas, os cogumelos, os cardinhos, tudo bravo, tudo bom, já comi as sopas de peixe do Tejo com ovas, mais as postas finas e fritas, em Arneiro, uma terra perdida a dois passos do rio, ali na zona de Nisa. Já comi isto e mais, e sempre que saía destes sítios sentia um profundo conforto, via-me mais culto e vivia uma nostalgia grande, por ter que sair dali. Hoje que recordo que também comi o mel do amor e o prazer de ver que as filhas não são fúteis e pensam, Hoje sei que a minha companheira tem uma paciência enorme para entender as minhas raivas e fúrias, a maioria expressas em silêncio. Mas sei que ela sabe ler esses silêncios, Hoje em que à minha cabeça chegam as imagens daquele Abril, já tão longe mas tão presente, penso que para muita gente a felicidade era aquilo. A esperança, a fé, a força, o trabalho e a certeza, cansavam o corpo mas faziam caminhar a alma. E a fraternidade? Que lindo, Hoje quando vejo os pinas, os linos, os freitas, os mendes, os netos, os alves e mais toda a colecção de traidores, oportunistas, gente sem vergonha nem verdade, que se vendem a quem seja para melhorar a conta do banco, comprar a casa no Algarve, ir de férias à Austrália ou ao Botswana, esquiar em St. Moritz ou nos Andes, sinto que o Homem tem muito lixo misturado, que a honestidade tem preço, para alguns bastante baixo, que a «democracia» é comandada por esta gentalha. ‑Hoje vejo a catadupa de escândalos, corrupções, negociatas, e tenho a certeza de que ninguém será condenado e que se saem estes outros iguais estão preparados para encher os bolsos com a crise dos que trabalham. Hoje, cansado, com dores nas costas, uma pontada no peito e alguma cãimbra solta, vejo que o que escrevia Brecht tem cada dia mais razão «os que lutam toda a vida, esses são os indispensáveis». Tem razão porque é assim e porque é necessário mandar para casa, julgar, tirar o poder à pandilha de inúteis, para ser suave, que nos desgovernam. E assim, com as forças que já são poucas, vos digo com raiva mas com a cabeça clara: amigos, camaradas, contem comigo. E talvez dentro de uns anos vos possa dizer onde voltei a comer. Bem. E todos os que têm honra, coragem e vontade de arrimar o ombro nesta batalha desigual, cada um à sua maneira, comeremos um dia juntos, não muito longe, felizes de novo e sobretudo riremos do que resta dos canalhas.