Salários por emprego na Alemanha

A falsa harmonia

O poderoso sindicato dos metalúrgicos alemães (IG Metall) concluiu, dia 18, um acordo que determina o congelamento salarial que, a julgar pelas declarações, consegue a quadratura do círculo satisfazendo ambas as partes.

Acordo do IG Metall agrava de vida de milhões

O acordo assinado para as indústrias da Renânia do Norte-Vestefália foi qualificado pele líder do IG Metall, Berthold Huber, como «um bom resultado», do qual decorre «uma partilha de sacrifícios justos». Também o representante da patronal Gesamtmetall exultou com o desfecho da negociação, apresentando-o como «um sinal notável da gestão comum da crise» (Le Figaro, 18.02).
Partindo para a negociação já derrotado, pela primeira vez na sua história o IG Metall optou por não quantificar reivindicações salariais. Todo o seu discurso se centrou na garantia dos postos de trabalho, a qualquer preço. O patronado agradeceu.
Para além da redução dos salários reais, as medidas negociadas, que servirão de modelo para todo o sector metalúrgico da Alemanha que emprega 3,4 milhões de pessoas, prevêem ainda o prolongamento do desemprego parcial de acordo com as necessidades.
Concretamente, o patronato poderá reduzir o tempo de trabalho até ao mínimo de 28 horas semanais, com a correspondente diminuição remuneratória. Como «compensação», o trabalho parcial será revalorizado em 2,7 por cento e todos os trabalhadores terão direito a um prémio de 320 euros pago de uma só vez.
Até Abril de 2011 não haverá lugar a qualquer actualização percentual dos salários, o que conjugado com o recurso livre ao trabalho parcial assegura o objectivo principal do patronado de reduzir os custos do trabalho.
Para Huber, o presidente do IG Metall, nada existe de «mais inovador que assegurar o emprego durante a maior crise dos últimos 24 anos». Porém, também neste domínio o compromisso assumido pelo patronato é sol de pouca dura: termina em Junho de 2012.

Efeito oposto

É certo que o recurso ao trabalho parcial, financiado pelo governo federal, tem permitido mitigar o flagelo do desemprego e manter semi-empregados milhões de trabalhadores na Alemanha. Pode parecer igualmente justificável que, na esperança de que a crise se esvaneça, os sindicatos se mostrem prontos a sacrificar salários em troca de garantias ilusórias de emprego.
Porém, o resultado inevitável destas medidas temporárias e graves cedências sindicais é a contínua diminuição do poder de compra das massas e consequentemente do consumo.
Como a redução da capacidade solvente constitui a causa primeira da recessão económica, a contínua degradação dos salários reais, que se observa por toda a Europa capitalista, muitas vezes com o beneplácito dos sindicatos como é o caso presente, conduzirá a uma ainda maior contracção da procura e, consequentemente, a novos encerramentos de unidades de produção e serviços.
Mesmo que algumas direcções sindicais não se apercebam disso, as «inovadoras» tentativas de «conciliar» interesses antagónicos, através das quais se procura manter os lucros do capital à custa do aumento da exploração, alegadamente para salvaguardar o emprego, têm objectivamente o efeito oposto de agravar a crise e contribuir para a antecipação do naufrágio do sistema, que deste modo arrastará consigo para o fundo as massas empobrecidas e fragilizadas de trabalhadores.


Mais artigos de: Europa

Sector em colapso

Nove das 12 refinarias em França estão paralisadas por um amplo movimento de protesto contra o encerramento de unidades, que está a secar as reservas de combustíveis do país.

Pobreza alastra na Alemanha

O número de pobres na Alemanha aumentou nos últimos dez anos de oito milhões para 11,5 milhões, uma evolução qualificada de «alarmante» pelos autores do estudo promovido pelo instituto de investigação económica alemão, DIW.As conclusões deste trabalho, divulgadas no site da instituição no dia 18, revelam que uma em cada...

Coligação desfaz-se na Holanda

O governo de coligação da Holanda caiu na madrugada de sábado, 21, na sequência de insanáveis divergências sobre a permanência do contingente militar do país no Afeganistão.Após 16 horas de discussão, os trabalhistas, que tinham a seu cargo 12 pastas, bateram com a porta, acusando o governo de Jan Peter Balkenende de não...

Pilotos suspendem greve na <i>Lufthansa</i>

Os pilotos da principal companhia aérea alemã Lufthansa suspenderam, na segunda-feira, 22, uma greve que devia prolongar-se por mais três ou quatro dias. O sindicato Cockpit aceitou voltar às negociações em busca de um acordo.No primeiro dia do protesto, a companhia foi obrigada a reduzir o número de voos para 960 contra...

Valorizar para transformar!

Trinta e cinco anos de Reforma Agrária. Muitos jovens com a minha idade são filhos dessa grande realização da Revolução de Abril; filhos desse tempo de heróis sem nome que se lançaram no desafio colectivo de serem sujeitos da história, desafiando a estrutura agrária existente e a própria natureza. Este lançar da enxada à...