Calar a desgraça

Correia da Fonseca
Pergunto ao televisor notícias do meu País. Percorrendo os diversos canais portugueses, naturalmente, os quatro da ementa mais básica e os fornecidos por cabo. E ele, o televisor, vai desfiando informações ao longo do dia, nuns canais de meia em meia hora, noutros a espaços mais largos. Nem tudo o que me conta diz respeito a Portugal, naturalmente: fala-me de inundações no Oriente, de ciclones no Sul dos Estados Unidos, da vaga de frio em diversos países da Europa, de um terrível choque de comboios perto de Bruxelas. E fala-me muito do Afeganistão e de uma ofensiva das forças da NATO (entenda-se: das tropas norte-americanas salpicadas de uns soldados europeus) que, quando concluída, ficará mesmo à beirinha de entregar ao governo de Cabul um Afeganistão novinho em folha. De longe em longe também se refere ao «Médio Oriente», isto é, à construção de sempre novos colonatos israelenses em terrenos palestinianos após a expulsão dos anteriores residentes, e de Hugo Chavez que, pelo que me conta o televisor, também tem um conflito com a liberdade de expressão na comunicação social. Este último assunto dá-me ensejo a que passe a referir as notícias que o meu televisor me dá do meu País e que em grande parte têm sido acerca de grandes arrelias com a liberdade de expressão ou a falta dela. Ao que sei graças ao meu televisor, parece que houve grandes manobras contra essa liberdade, e até vi imagens de Paulo Rangel a queixar-se disso aos seus colegas do Parlamento Europeu. Colegas de quem ele deve gostar pouco, pois está a desenvolver grandes esforços para lhes voltar costas e vir para cá, julgo que salvar o País. Acho lindamente o projecto e espero que, uma vez regressado e colocado no lugar que ambiciona, ele não se esqueça de cuidar da tal liberdade de cujo mau estado por lá se queixou. É que não é de hoje nem de ontem: já há décadas, suspeito de que ainda o doutor era pequenino (na idade, é claro), que eu e amigos meus estamos impedidos de aceder a importantes órgãos de comunicação social para aí exercermos o nosso direito à liberdade de expressão. E ninguém dá sinais de se importar com isso. O meu caso aceita-se porque não tenho estatura (intelectual e cultural, entenda-se), mas só o meu caso. De resto, a questão parece não ser de estaturas mas sim do que se pensa e do que se escreve. É sabido que salvo excepcionalíssimos casos mantidos para que órgãos de comunicação social simulem uma imparcialidade inexistente, anda a gente de esquerda a escrever em refúgios de escasso impacto. Oxalá, pois, que o doutor Rangel venha depressa e tome conta do assunto para que seja restabelecida, enfim, a liberdade de expressão por que tantos se bateram e que em dada altura foi, também ela, metida na gaveta.

Outra guerra

Voltemos, porém ao meu televisor. Dia após dia, pergunto-lhe notícias do meu País. Agora, pelo Carnaval, perguntei-lhe por exemplo com que espírito se divertiram os milhares de desempregados que nos últimos tempos se acrescentaram aos já muitos que procuravam em vão um posto de trabalho que lhes permita ganhar a vida honradamente. E, já que este foi um Carnaval gelado, perguntei também como dele se defenderam os que não tendo dinheiro sequer para ir à farmácia, menos o têm para o luxo de se aquecerem convenientemente e menos ainda de viverem em lugar à prova da infiltração de ventos e humidades. Já há uns dois meses lhe perguntara pelas alegrias do Natal em casa dos perto de dois milhões de portugueses que vivem abaixo do limiar técnico da pobreza. Note-se que estes são apenas dois exemplos de muitas perguntas que faço. E o televisor nada me diz. É certo que no passado fim-de-semana me mostrou umas meninas mascaradas de alegria brasileira, à chuva e ao frio, mas suponho que são jovens com dinheiro bastante para irem à farmácia a partir da Quarta Feira de Cinzas. Do meu País, do que nele é mais grave, mais urgente, dos dramas que o percorrem, pergunto ao televisor e ele cala a desgraça, e ele nada me diz. Mesmo os antigos versos de que estas últimas palavras parecerão eco são coisa do passado sem efectiva probabilidade de serem mais que isso. Do que o televisor me fala muito é de denúncias dos que querem mandar contra os que já mandam (uns e outros sem parecerem estar vocacionados para mandar bem), mas essa é uma guerrazinha que me interessa pouco ou nada porque a guerra que quero ter é outra, a do projecto de um País diferente. Melhor. E, como bem se compreenderá, também de uma diferente televisão.


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