Reforma da Política Comum de Pescas

A privatização do mar

As propostas da Comissão Europeia para a nova política comum de pescas colocam em causa a soberania de Portugal sobre parte dos seus recursos naturais.

Co­missão quer impor «di­reitos de pesca»

Os deputados do PCP no Parlamento Europeu alertam, em comunicado, para os perigos que «algumas propostas avançadas pela Comissão Europeia e não contestadas pela relatora do PE, a deputada do PSD Maria do Céu Patrão Neves, no seu projecto de relatório», representam para as pescas nacionais.
Com a entrada em vigor do Tratado de Lisboa, que incluiu as pescas nas competências exclusivas da UE, o quadro institucional «é ainda mais desfavorável para Portugal», sublinham os deputados, lembrando que «os denominados "seis grandes" ficarão com 70% dos votos» ao nível da UE, enquanto no Parlamento Europeu «têm mais de 50% dos mandatos».
Neste contexto, os interesses nacionais de Portugal estão seriamente ameaçados pelos projectos privatizadores dos recursos marinhos apresentados pela Comissão Europeia. A pretexto da «defesa dos recursos biológicos», o executivo comunitário quer introduzir de forma faseada «um sistema comunitário baseado em direitos de pesca, isto é, a inaceitável criação de direitos de propriedade privados para o acesso à exploração deste bem público».
Como recordam os deputados do PCP, uma tentativa semelhante «já havia sido equacionada pela Comissão Europeia aquando da anterior reforma da Política Comum de Pescas em 2002» mas, «dada a resistência dos sectores das pescas de diversos países da UE, não chegou a ser concretizada».
Num primeiro momento, o objectivo seria generalizar a gestão baseada em direitos de pesca nos diferentes estados-membros, mesmo que inicialmente apenas se aplicasse a uma parte das frotas. Posteriormente, o sistema seria centralizado num mercado único de direitos de pesca ao nível da União Europeia, admitindo-se até a transacção em bolsa destes direitos.

A con­cen­tração do sector

Os previsíveis efeitos deste projecto são descritos na própria proposta da Comissão, citada no comunicado do PCP, onde se afirma que tal sistema irá «ori­ginar a compra de di­reitos em grande es­cala, o que re­sul­tará numa con­cen­tração em termos de pro­pri­e­dade das quotas, re­par­tição ge­o­grá­fica das ac­ti­vi­dades da pesca e com­po­sição da frota».
A isto a Comissão acrescenta: «Qual­quer me­ca­nismo criado para li­mitar os efeitos ne­ga­tivos [desta concentração de direitos de pesca] (...), de­verá ser com­pa­tível com o mer­cado único e com as re­gras co­mu­ni­tá­rias em ma­téria de con­cor­rência».
Por outras palavras, não haverá nada a fazer senão conformarmo-nos com o domínio das grandes companhias estrangeiras sobre recursos nacionais, de cuja exploração dependem várias comunidades locais.
Acresce que, como sublinha o PCP, «esta solução não constitui qualquer garantia de defesa da sustentabilidade dos stocks pesqueiros, já que é evidente (e a experiência demonstra-o mesmo noutras áreas) que a redução e concentração de direitos num punhado de operadores não significa necessariamente uma redução do esforço de pesca, mas somente a concentração da exploração dos recursos.»
Por último, para facilitar a concentração no sector, as propostas da Comissão Europeia preconizam «o desmantelamento dos mecanismos de intervenção nos preços ao produtor» e insistem «numa ainda maior redução (cega) da frota e na tentativa de renacionalizar os custos da política comum de pescas».
Para o PCP trata-se de «um conjunto inaceitável de propostas que não respondem às necessidades com que a esmagadora maioria do sector das pescas se confronta, evidenciando que o único e real objectivo é a concentração e a destruição de grande parte deste estratégico sector económico».

De­fender o in­te­resse na­ci­onal

O PCP insiste na necessidade de defender os direitos de soberania sobre as águas territoriais, as zonas económicas exclusivas e fundos marinhos contíguos consagrados na Constituição da República Portuguesa.
Neste sentido, as propostas que apresentou no Parlamento Europeu implicam a rejeição de qualquer tentativa de privatização dos recursos marinhos, a efectiva introdução de mecanismos que melhorem o preço de primeira venda, e tenham em conta os custos de produção, o aumento do financiamento comunitário e a rejeição de qualquer tentativa de renacionalização dos custos da política comum de pescas.
Os comunistas defendem ainda a introdução de mecanismos de subvenção ou compensação dos pescadores pelos planos de reconstituição, de gestão plurianuais e de medidas de protecção dos ecossistemas; a manutenção das 12 milhas como zona de acesso exclusivo para as frotas nacionais de cada Estado-membro, bem como a possibilidade da sua extensão às áreas adjacentes, conforme as plataformas continentais.
Tendo presente a realidade nacional do sector, os deputados do PCP insistem na necessidade do apoio comunitário para a renovação e modernização das frotas de pesca, sobretudo para a pequena pesca costeira e artesanal.


Mais artigos de: Europa

UE já abriu 54 embaixadas

Desde que o Tratado de Lisboa entrou em vigor, e sem qualquer anúncio público, 54 das 136 delegações da Comissão Europeia espalhadas pelo mundo foram transformadas em embaixadas com plenos direitos.

A estranha morte de David Kelly

Num momento em que 52 por cento dos britânicos consideram que Tony Blair mentiu ao evocar em 2003 a presença de armas de destruição maciça no Iraque para justificar a invasão, o caso de David Kelly voltou à ribalta puxado por seis médicos que requereram a reabertura do inquérito sobre a sua estranha morte.David Kelly era...

Espanha sobe idade da reforma

O governo espanhol aprovou, dia 29, uma proposta de reforma da Segurança Social que prevê ao aumento da idade da reforma dos 65 para os 67 anos.Como pretexto, o executivo «socialista» baseia-se num estudo alarmante do Instituto Nacional de Estatísticas, convenientemente publicado na mesma semana, segundo o qual em 2049 o...

Operários invadem sede da <i>Total</i>

Cerca de mil operários da petrolífera francesa, Total, invadiram, na segunda-feira, 1, a sede o grupo em Paris, em protesto contra o encerramento da refinaria em Dunquerque, no Norte do país.Após a intervenção do presidente francês, a administração do grupo decidiu adiar por seis meses o anúncio sobre o futuro daquela...

As mulheres e a paz

Há uma semana realizou-se em Bruxelas uma conferência subordinada ao tema «Mulheres, paz e segurança», organizada pela Comissão Europeia e pela Agenda de Segurança e Defesa (ASD), a propósito do 10.º aniversário da resolução 1325 das Nações Unidas sobre esta matéria. Participaram, entre outras oradoras, María Teresa...