Arquitecturas da Catrineta - 2

A Casa da Música

Manuel Augusto Araújo
O Desconcerto do Porto

A longa crónica da Casa da Música tinha-se iniciado mal, muito mal, como já vimos, mas iria continuar sem travões. A única coisa credível era a continuação das derrapagens financeiras e o adiamento da data de entrada em funcionamento.
Mas talvez o mais extraordinária revelação de 2002 foi a de que a Casa da Música que, em conformidade com as proclamações dos seus mais directos e indirectos responsáveis, todos pensavam ser a casa de todas as músicas não o era! Não estava preparada para a exibição de espectáculos de ópera e de muito do repertório de bailado. A Casa da Música não tinha fosso de orquestra nem o palco dispunha de teia. Era o assombro nacional!
Os argumentos eram ainda mais espantosos que o espanto provocado pela revelação. Essa tinha sido uma opção mui ponderada, o consenso tinha sido difícil de alcançar mas a racionalidade tinha-se sobreposto ao desejo. Uma fúria aforradora varrera as mentes brilhantes que programaram o projecto pelo que decidiram não duplicar equipamentos com os já existentes na cidade. O fosso do Coliseu tinha sido ampliado para o dobro e tinha' sido dotado de equipamento para receber as grandes produções de ópera, espectáculos de bailado e orquestras sinfónicas. O Rivoli e o S. João tinham capacidade para orquestras de câmara. Por isso...
Lido isto cabe questionar: o que fica para a Casa da Música? Segundo as explicações dos responsáveis, a sua principal vocação seria a de programar grandes concertos sinfónicos e corais sinfónicos em condições acústicas óptimas,. Mesmo acreditando que a acústica será excepcional, o que ainda está para se provar depois de tantos tropeções projectuais, se essa é a única diferença para o Coliseu onde, como é óbvio, também podem ter lugar grandes concertos sinfónicos e corais sinfónicos além de grandes produções de ópera ou de bailado, cabe perguntar se só a qualidade acústica justifica tamanho investimento!
Entrámos no reino da argumentação espertalhona que toma os outros por patetas. Qual será a diferença substancial entre um grande concerto sinfónico no Coliseu e o mesmo concerto na Casa da Música? Provavelmente é a de se realizar numa moradia que se tornou gigante, num passe de ilusionismo arquitectónico trágico-cómico "desenhado" por uma estrela da constelação dos arquitectos que, como disse Nuno Portas, se passeiam pelas páginas das revistas de arquitectura impressas no melhor papel couché exibindo-se aos seus pares de segunda e terceira escolha. Ter para mostrar uma obra destas, ainda que com custos completamente disparatados, num país que é provincianamente pós-moderno dá sempre estatuto e embasbaca os que não têm estatuto.
Mas o espírito tio patinhas que de rajada invadiu as mentes dos implicados no projecto, o que pressupunha um rigor financeiro quase emblemático, esta febre de racionalidade que atacava cancerígenamente as cabeças pensadoras da Casa da Música, foi desmentido pela realidade dos números que continuaram a derrapar vertiginosamente até que, em Abril de 2003, se atinge um número das arábias: 85 milhões de euros/17 milhões de contos. Um valor estimado, que é cinco vezes o valor com que o projecto foi a concurso. Um administrador, na altura em exercício considerou o cálculo exagerado, pelos seus cálculos deveria custar uns 12 ou 15 milhões de contos. E diz isto com cândido despudor porque já nem repara que a diferença entre o que ele julga ser e os que os outros julgam ser o custo final é praticamente o valor com que a obra foi posta a concurso.
Devemos questionar quais têm sido os honorários de toda essa gente desde a que lançou com tanta ligeireza o concurso até aos que continuaram a obra conhecendo as teias em que ela se tece. Provavelmente os brilhantes cérebros que evitaram a duplicação de equipamentos (consegue-se ouvir ou ler isto sem uma sonora e saudável gargalhada que desbanque tanta hipocrisia ou inconsciência?!) também deveriam receber um bónus de mais 25% à semelhança do projectista. Todos tem os mesmos direitos.
O brilho luxuriante e as fragâncias entontecedoras que irão certamente rodear a inauguração da Casa da Música, três ou quatro anos depois data consignada em sede de concurso, não deverá fazer esquecer toda esta tramitação, toda esta história exemplar em que toda a gente fica impune porque os torcicolos intelectuais, dos promotores aos projectistas, são alegremente permitidos e nunca são sancionados.
Não se desconhece a importância de uma programação musical consistente onde quer que ela seja realizada, nem sequer a excelente e, por vezes, inovadora programação que tem sido realizada pela equipa da Casa da Música, mas neste caso concreto, e como as várias declarações dos vários participantes, directos e indirectos, desta história portuense abundantemente o demonstram, bem como as realizações musicais que tem sido efectuadas largamente o evidenciam, não é a Casa da Música, enquanto entidade física, que irá dar um maior impulso ao que se faz ao que se pode fazer na área da música no Porto. Pelo contrário, todo o dinheiro gasto neste equipamento, que se vai revelando de algum modo supérfluo, todos os recursos administrativos e de manutenção que, quando começar a funcionar, irá consumir, deveriam ser aplicados na Música, em músicos, estruturas e actividades musicais, e em melhorias nos equipamentos existentes.
(A primeira parte deste artigo foi publicada na edição de 9 de Outubro)


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