A pilhagem também é católica

Jorge Messias
Após uma fase caracterizada por bloqueios económicos e por esmagadores bombardeamentos, a luta no Iraque passou a uma segunda fase de execução. O facto em si envolve uma verificação importante. Nalgumas versões tolerantes, a invasão era apresentada como simples acto de paranóia política. O Vaticano subscreveu esta vaga tese que desencadeou, inversamente, a ira da direita e do mundo das finanças. A ocupação e a luta contra o terrorismo justificavam a guerra que era justa e necessária. Afinal, tratou-se de um simples desencontro sem consequências. Os dois campos identificam-se. A direita não é laica e afirma-se democrata-cristã e liberal. Sempre que necessário, os grupos transnacionais apoiam-se na ética católica. E a doutrina social (em que, aliás, a igreja não insiste muito) propõe à comunidade internacional uma Nova Ordem utópica baseada na reconciliação de classes e nos mandamentos cristãos. Ora, sempre foi dito que esta invasão tinha fins humanitários e de defesa da democracia e da liberdade. A vitória militar foi celebrada pelos USA e tudo indicava que o passageiro desacordo estava sanado. Mas os choques de interesses obedecem a uma lógica diferente.
Ainda «quente» dos seus êxitos, a força militar vencedora estremeceu e revelou-se de uma escandalosa fragilidade. Dizem agora os seus responsáveis não terem homens, nem alianças, nem dinheiro, que lhes permitam suportar a vitória imaginada. Já se devia ter passado à fase da reconstrução lucrativa do país. Há milhares de milhões investidos em programações que arriscam perder-se. Importa queimar etapas.
O capital eclesiástico parece ter decidido não continuar à espera. Vai avançar ao lado dos americanos. A traços largos, eis os quadros do negócio. Uma das grandes dificuldades que se colocam à guerra do petróleo é o da substituição por tropas frescas dos desmotivados soldados que se encontram no Iraque. O Vaticano acaba de contribuir para afastar essa preocupação. Forças polacas da pátria de João Paulo II prestaram-se a assumir o comando militar da região central do país. Contribuirão, assim, para assegurar - em conjunto com os «marines» norte-americanos- a ocupação do Iraque. Constituirão o núcleo central dum mosaico de outras forças militares estrangeiras, chegadas de Espanha, das Honduras, Nicarágua, República Dominicana e São Salvador - países considerados «solidamente» católicos.
Esta preciosa contribuição da Igreja no plano político e militar teve, naturalmente, uma contrapartida material. A administração norte-americana no Iraque constituiu um instituto financeiro que será integrado por 13 diferentes entidades financeiras, iraquianas e mundiais. O National Bank of Irak coordenará, controlará e financiará todas as importações e exportações do país. Apenas os bancos que participam no consórcio terão acesso ao sistema petrolífero iraquiano cujas jazidas representam «a segunda maior reserva de petróleo do mundo, num país onde não operam entidades bancárias estrangeiras desde os anos 50». A notícia que sobre o facto a imprensa portuguesa publicou não é particularmente informativa (DN, 2.9.003, pág. 30). Mas permite compreender que se está em presença de uma vasta operação financeira. E se não é extensa a relação dos grupos económicos que envolve, a nota tem a curiosa particularidade de só mencionar instituições financeiras com conhecidas ligações ao Vaticano e ao Opus Dei. Desde o JP Morgan (o segundo maior banco norte-americano, conhecido como o Banco do Vaticano nos EUA) ao banco polaco Millenium cujas acções são detidas em 50% pelo BCP, «unha com carne» com o Popular Espanhol e com a rede financeira do Opus Dei. A informação refere, ainda, outros grupos financeiros católicos como o Crédit Lyonnais (privatizado), a fabulosa Caja Española de Ahorro e o famigerado Banco Sanpaolo di Torino. Famigerado devido à frequência com que são citadas as suas ligações com os «paraísos fiscais», nomeadamente os da Madeira e das Bahamas. A nova instituição terá à sua disposição uma linha de crédito de 86,4 milhões de euros, «de um fundo de receitas de petróleo iraquiano controlado pela ONU». Tratar-se-á dos dinheiros depositados na conta da piedosa iniciativa «alimentos por petróleo»? Servirão eles para aplacar os remorsos dos cardeais/banqueiros?


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