Aqui na terra

Jorge Cordeiro
Notícias vindas a público dão conta de que Bento XVI verá instalada no ministério de Teixeira do Santos a sacristia de apoio à celebração da missa que terá lugar no Terreiro do Paço aquando da sua deslocação em Maio próximo. Desconhecendo-se à partida as razões da escolha, sempre se poderá dizer que, para lá de argumentos mais terrenos como os de ordem logística ditados pela localização ou proximidade, a opção pode ter em vista que da passagem papal pelo local sempre possa resultar uma qualquer contribuição capaz de iluminar o discernimento e orientação do solícito senhorio. Pelo que legitimo será admitir que Teixeira dos Santos aspire não ao verdadeiro milagre que representaria iludir o défice superior a oito pontos agora revelado ou sequer a uma eventual e generosa absolvição dos desmandos que a política do seu governo vem provocando, com o cortejo de dificuldades, desigualdades e injustiças que a acompanha, mas, pelo menos, a um qualquer lampejo que alumie a penosa penumbra de que o seu ministério parece tomado. Erradas que foram quatro vezes a previsão do défice e outras tantas o valor do PIB; mal previstas que foram as receitas fiscais e cada uma das componentes das previsões macroeconómicas; desacertadas que foram as previsões para o desemprego (provavelmente tido como coisa menor na fria e burocrática lógica dos cenários e desígnios orçamentais do liberalismo dominante) e para o endividamento liquido global – melhor entendida pode ser uma qualquer expectativa que da passagem pelo local da santa entidade sempre possa resultar algo mais que as erradas opções de uma política de que o ministro em questão é apenas o rosto mais visível. Sem sucesso, porventura. Porque a solução para os problemas que invadem o país, consomem os seus recursos e martirizam a vida de dezenas de milhares de famílias está, não numa qualquer acção milagrosa, mas sim numa mudança e numa ruptura com a política de direita que este governo, a exemplo de outros que o antecederam, insiste em prosseguir e agravar. Não em qualquer lugar do céu mas nesta terra em que vivemos.


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