Se faz favor...
Bom, vistas bem as coisas, não há volta a dar-lhe, que isto de dois mil anos de civilização judaico-cristã tem muito peso, mais a mais quando conta com a ajuda da poderosa – embora muito menos provecta em idade – da sempre omnipresente coca-cola, que como toda a gente sabe é a mãe daquele senhor de barbas brancas e pijama vermelho que vive algures lá para o Polo Norte com umas renas e um trenó carregado de prendas que a gente só vê ao vivo e a cores (as prendas) se tiver dinheiro para as comprar nas catedrais do consumo que são os centros comerciais, que isso do comércio local já foi chão que deu uvas e está quase tão extinto como o lince da Malcata. Por isso cá vai: É Natal! É Natal! É Natal! É Natal! É Natal! É Natal! É Natal! É Natal!....
Afinal nem custou muito. Com mais um bocadinho de treino, subindo o tom e multiplicando a frase ao infinito – o que no caso vertente pode ser aí umas dez linhas de É Natal! É Natal! É Natal! É Natal! – ainda se consegue alguma convicção. Não tanta, é verdade, como a de Cavaco Silva na mensagem dirigida ao Presidente da Assembleia da República, aos vice-presidentes da Assembleia da República, aos membros da mesa da Assembleia e aos líderes parlamentares que esta semana lhe foram apresentar os tradicionais cumprimentos de Natal numa curta sessão no Palácio de Belém que durou menos de 10 minutos. Mas caramba, por alguma razão Cavaco é Presidente da República! De resto, a mim nunca me passaria pela cabeça esperar, quanto mais dizer, que o «Natal é tempo de esperança», pelo que «não devemos perder a esperança de que o ano 2010 fique marcado na Assembleia da República por frutuosos entendimentos interpartidários». Também não me ocorreria dizer, quanto mais pensar, que lá por estarmos à beira de novo ano haja qualquer motivo para acreditar que a Assembleia da República se possa vir a afirmar «como o espaço privilegiado do diálogo, da concertação e do compromisso, mesmo nas matérias mais difíceis e delicadas».
Mas isso sou eu, pobre incrédula, que nunca recuperei do trauma de ver o homem do pijama encarnado passar a perna ao meu «menino Jesus», esse sim, que durante anos a fio desceu pela chaminé para nos dar as prendas ao bater da meia-noite, devidamente supervisionado pela mãe e pela avó, duas pessoas de toda a confiança que ano após ano geriam a contabilidade caseira e o livro de assentos das nossas malvadezes do ano, cujas se reflectiam proporcionalmente (a contabilidade e as malvadezes) na quantidade de presentes distribuídos a cada um.
Com o passar dos tempos e muitos milhões de litros de coca-cola depois, confesso que o Natal perdeu a graça, não só porque agora me cabe a mim fazer a contabilidade, mas sobretudo porque nem com aquela charopada com borbulhas consigo engolir e digerir a hipocrisia dos votos com que nos brindam os que, como o Presidente da Assembleia da República, vão ao Palácio de Belém dizer que «aquilo que os portugueses neste momento de dificuldades mais desejariam da nossa parte é uma conduta simples, centrada na resposta aos graves problemas do país pois só assim a esperança do Natal tem um sentido». Grrrrrrrrrrrr. Passem aí sais de fruta, se faz favor.
Afinal nem custou muito. Com mais um bocadinho de treino, subindo o tom e multiplicando a frase ao infinito – o que no caso vertente pode ser aí umas dez linhas de É Natal! É Natal! É Natal! É Natal! – ainda se consegue alguma convicção. Não tanta, é verdade, como a de Cavaco Silva na mensagem dirigida ao Presidente da Assembleia da República, aos vice-presidentes da Assembleia da República, aos membros da mesa da Assembleia e aos líderes parlamentares que esta semana lhe foram apresentar os tradicionais cumprimentos de Natal numa curta sessão no Palácio de Belém que durou menos de 10 minutos. Mas caramba, por alguma razão Cavaco é Presidente da República! De resto, a mim nunca me passaria pela cabeça esperar, quanto mais dizer, que o «Natal é tempo de esperança», pelo que «não devemos perder a esperança de que o ano 2010 fique marcado na Assembleia da República por frutuosos entendimentos interpartidários». Também não me ocorreria dizer, quanto mais pensar, que lá por estarmos à beira de novo ano haja qualquer motivo para acreditar que a Assembleia da República se possa vir a afirmar «como o espaço privilegiado do diálogo, da concertação e do compromisso, mesmo nas matérias mais difíceis e delicadas».
Mas isso sou eu, pobre incrédula, que nunca recuperei do trauma de ver o homem do pijama encarnado passar a perna ao meu «menino Jesus», esse sim, que durante anos a fio desceu pela chaminé para nos dar as prendas ao bater da meia-noite, devidamente supervisionado pela mãe e pela avó, duas pessoas de toda a confiança que ano após ano geriam a contabilidade caseira e o livro de assentos das nossas malvadezes do ano, cujas se reflectiam proporcionalmente (a contabilidade e as malvadezes) na quantidade de presentes distribuídos a cada um.
Com o passar dos tempos e muitos milhões de litros de coca-cola depois, confesso que o Natal perdeu a graça, não só porque agora me cabe a mim fazer a contabilidade, mas sobretudo porque nem com aquela charopada com borbulhas consigo engolir e digerir a hipocrisia dos votos com que nos brindam os que, como o Presidente da Assembleia da República, vão ao Palácio de Belém dizer que «aquilo que os portugueses neste momento de dificuldades mais desejariam da nossa parte é uma conduta simples, centrada na resposta aos graves problemas do país pois só assim a esperança do Natal tem um sentido». Grrrrrrrrrrrr. Passem aí sais de fruta, se faz favor.