Igual a si próprio

José Casanova
Mário Soares foi entrevistado a pretexto da passagem do seu 85.º aniversário.
A entrevistadora começou por nos dar uma sensacional notícia em primeira-mão, ao revelar-nos que Soares «foi o máximo denominador comum entre a esquerda e a direita no Portugal do pós-25 de Abril, como o tinha sido já no combate à ditadura fascista». (As coisas que a gente aprende com esta gente!)
Mas, e pior do que isso, a entrevistadora atinge-nos, logo a seguir, com uma ameaça terrível: Soares prepara o seu «ensaio autobiográfico político e ideológico» (chiça!), do qual já escreveu cinco capítulos (cinco vezes chiça!)
Quanto à entrevista propriamente dita, trata-se, da parte de Soares, do curricular discurso auto-laudatório – um discurso no qual, à medida que o tempo passa e a idade aumenta, Soares se nos mostra cada vez mais igual a si próprio na visão que ele próprio tem de si: segundo ele, ele é o maior, o mais-que-todos, sempre e em todas as circunstâncias, hoje como no 25 de Abril ou no tempo da ditadura fascista: único na coragem, singular nas capacidades, sem igual no talento revelado e por revelar, numa palavra: genial. A bem da sua estabilidade autobiogáfica, aceitemo-lo como ele nos diz que é, e sobretudo não o contrariemos.
Na entrevista, Soares prossegue igualmente o seu habitual exercício de contador de estórias mal contadas, ora roçando a mentira ora entrando por ela como quem entra em casa própria. E há que reconhecer que também nessa matéria Soares vai refinando com o correr dos anos.
Naturalmente, esses auto-consoladores elogios e essas auto-consoladoras mentirolas, têm sempre como alimento básico essencial o profundo anticomunismo de Soares – que é, afinal, a sua imagem de marca.
Como a sua acção política tem mostrado (e o seu «ensaio autobiográfico» confirmará) de entre as várias posturas anti assumidas por Mário Soares ao longo de toda a sua vida - aí incluído o seu antifascismo - ele é, acima de tudo, anticomunista.
É essa a sua guerra – uma guerra na qual nunca hesitou em aliar-se ou aceitar como aliados, todos os que para isso se disponibilizem, desde fascistas confessos a confessos serviços secretos de várias latitudes e longitudes.


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