Notícias da Igreja

Jorge Messias
Já aqui foi dito e repetido acerca dos deveres morais e cívicos da Igreja católica: a Igreja eclesiástica não pode tentar alimentar a lenda que teceu a respeito de si própria de ser «perita em humanidades» e «defensora dos pobres». As realidades que se vão revelando destróem essas teses.
A revista de negócios Forbes publicou uma estatística acerca das personalidades mais ricas e poderosas do mundo. Nela figura, logo a seguir a Bill Gates (um multimilionário de coração sensível) o actual Papa Bento XVI que a Forbes descreve como o gestor da «mais antiga multinacional do Mundo». Em todos os países capitalistas continuam as falências das pequenas e médias empresas, o desemprego e a desprotecção dos trabalhadores. Simultaneamente, as superestruturas financeiras injectam na banca e nas mais gigantescas super-holdings biliões de dólares, sem os quais estas já teriam falido e, com elas, todo o sistema capitalista mundial. Políticas desumanas e anti-sociais que, no futuro próximo, os povos pagarão cruelmente. A crise continua e aprofunda-se a níveis e ritmos nunca vistos, tal como o fosso entre ricos e pobres que o Vaticano condena com uma mão e apoia com a outra.
Há cada vez mais «guerras e rumores de guerras». Conflitos brutais como os do Médio Oriente e do Afeganistão, continuam a consumir centenas de milhares de vidas. E onde param as promessas de encerramento de Guantánamo e outros centros de tortura, os planos de desarmamento mundial, a defesa da Natureza, a protecção das minorias, o respeito pelos direitos do homem? A Igreja, ou se alheia destas questões, usando uma táctica pré-concebida, ou opta por dois rostos e duas medidas, escolhendo fazer a defesa dos interesses dos ricos contra os direitos básicos dos pobres.

Portugal e os políticos eclesiásticos capitalistas

No Portugal da «era de Sócrates», da dinastia de Cavaco Silva e de Guterres, a Igreja portuguesa, nomeadamente através da sua Conferência Episcopal, cala-se ou mal balbucia. Há desemprego endémico e constante? A Igreja não o denúncia.
As mentiras e os escândalos sucedem-se, sempre a partir de núcleos da esfera governamental e das fortunas? A Conferência Episcopal silencia e encobre todos eles, «em nome de Deus» e da «reconciliação de classes». Alastra galopantemente a pobreza e a miséria enquanto que, apenas nos nove primeiros meses de 2009, os cinco maiores bancos portugueses tiveram lucros declarados de 1403 milhões de euros e foram beneficiados pelo Estado em mais de cinco mil milhões para «refinanciamento da banca». A Conferência Episcopal talvez que desta infâmia se não aperceba, recolhida como está na Transcendência. No entanto, seria bom que em nome da justiça «denunciasse e anunciasse», como diz a doutrina e revelasse publicamente o montante da carteira de acções que a Igreja gere na banca portuguesa e nas grandes transnacionais.
Há mais (há sempre mais) mas isto chega para que os católicos honestos interpelem os seu bispos, em nome da ética cristã e dos princípios da teologia moral.
Que papel é necessariamente o de uma igreja numa sociedade corrupta e «tangível», como diria Teillard de Chardin? «Ai daqueles por quem o escândalo vier»! Muito bem. Mas não será que os bispos fazem parte do escândalo? Como, por exemplo, no caso recente da compra da TVI, um escândalo entre tantos outros que marcam os «caminhos da Igreja»?
Não está em causa ser-se católico, protestante, muçulmano ou budista. Nem está em causa, em dimensões de fé, que um cidadão português pertença a uma congregação qualquer. Mas é indesculpável que para se ser crente se despreze a razão, os deveres de cidadania e, sobretudo, a defesa dos direitos dos povos e dos trabalhadores.
Ainda este mês, os movimentos da Acção Católica tiveram um encontro nacional mas evitaram os «temas fracturantes». Também a Conferência Episcopal se reuniu e comunicado final da reunião foi oco e decepcionante. Interpelado pela imprensa, o seu porta-voz, o padre Morujão, revelou que «a Igreja não quer ter problemas com o actual Governo».
Não é preciso pôr mais na carta...


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