A cortina

Correia da Fonseca
Está a vida muito difícil para quem tem por obrigação ser uma espécie de olheiro da televisão, perdoe-se a apropriação privada de uma palavra surgida no âmbito do futebolês. Entre pelintras cançonetismos ou bailaricos e não menos pelintras enxurradas de violações do já inteiramento desacreditado segredo de justiça, fica o telespectador atolado num continuado enjoo com poucas ou nenhumas pausas para repouso. No caso da investigação chamada Face Oculta, que por sinal cada vez mais será tudo menos oculta, estamos, creio, estacionados muito longe do que seria o essencial ou, pelo menos, o que mais apeteceria conhecer.
A saber: se o senhor primeiro-ministro, apanhado por uma escuta que em princípio nascera sem que fosse ele o seu alvo, foi escutado a proferir qualificações pejorativas acerca da doutora Manuela, se disparou pragas contra uma outra Manuela e seus arredores (é curioso e a pedir estudo este azar que o senhor engenheiro tem com as Manuelas), se não se limitou a comentar os maus resultados do seu clube do coração e do Paulo Bento atrevendo-se a invadir áreas mais delicadas, designadamente a da liberdade de expressão que, como se sabe, tem agora difusa fronteira com outras liberdades, designadamente a da invenção. E, quanto a este último aspecto, bem o sabem os comunistas e equiparados, nacionais ou estrangeiros, acerca de quem as invencionices mediáticas se multiplicam sem que ninguém se importe com isso, excepto naturalmente os próprios, que ainda não se resignaram à condição de alvos de imposturas e calúnias, mesmo quando para as desmentir e desfazer não lhes sobra o tempo e a paciência decerto porque, como diria o outro senhor, há mais vida para além delas.

A técnica do pára-raios

Com tudo isto, cantigas e danças, notícias e aldrabices, revelações ou calúnias, tudo temperado com molho de concursos e novelas, estas últimas ancoradas na fidelização de uma específica teleplateia onde predominará o elemento feminino, é de presumir que à generalidade dos cidadãos/telespectadores não sobrará o tempo nem a curiosidade para indagar ao certo, concretamente, como vai este País (como já há décadas o Senhor Contente perguntava ao Senhor Feliz). Não abstractamente, mediante estatísticas e números globais, mas sim na carne e nos nervos dos que, habitando-o, andam a pagar por altíssimo preço as várias crises que o vêm assolando e para as quais nada contribuíram. É certo que, de quando em quando, uma breve reportagem encravada entre um telenoticiário construído com as tónicas do costume e um programa ligeiro ou uma novela vem relancear um olhar sobre um aspecto parcelar da actual verdade portuguesa. Fosse Óscar Wilde telespectador desta nossa televisão e talvez dissesse que tais reportagens são o tributo que o vício presta à virtude, mas então não se deveria ligar muita importância a tamanha impertinência, bem se sabe que aquele senhor tinha um feitio esquisito. E, de resto, também não há indícios de que alguém responsável se incomode com as vozes que acusam a TV de exercer uma função desmobilizante da indignação ou da angústia. Porém, convirá talvez, já agora, esgravatar um pouco mais para se entender como é que essa função é conseguida. Há, como já se disse, os programas adequadamente ditos «de distracção», a programação de repiupiu. Mas há também, talvez complementarmente mas porventura até como itinerário principal, o noticiário «de choque» capaz de encaminhar angústias e desesperos para lugares onde possam descarregar-se sem que se voltem contra os nós dos problemas. Digamos que neste caso é adoptada uma técnica semelhante à que ainda está sendo adoptada para construção dos pára-raios. Perante isto, será naturalmente adequado que reconheçamos a nuvem, o trovão, o raio. Mas também, e talvez sobretudo, que num entendimento global não esqueçamos que a tempestade existe e que identifiquemos de onde sopra o vento. Pois bem nos basta que estejamos cá em baixo, a suportar tudo. E é de fundamentalíssima importância não deixarmos que a nossa visão seja impedida pela cortina de pistas enganosas que a TV, e é claro que não apenas ela, levanta entre a nossa percepção e a fundamental verdade das coisas.


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