Desalmadamente

Anabela Fino
«A minha alma está parva» é uma daquelas frases que me ocorrem perante circunstâncias difíceis de classificar, seja porque suscitam um tal tropel de pensamentos que se torna quase impossível verbalizá-los antes de lhes pôr alguma ordem, seja porque me colocam na incómoda situação de descobrir que afinal as coisas ainda podem ser piores do que os meus piores prognósticos. De tal forma se me impõe, tipo minimal repetitivo, que estou em crer que a devo ter ouvido e adoptado inconscientemente há muito tempo, quando essa coisa das almas fazia parte do quotidiano familiar, fosse porque nos contavam histórias de assombrar com almas penadas, fosse porque em criança nos mandavam a servir de pau-de-cabeleira aos namoros dos crescidos que exploravam os medos infantis para se perderem alegremente no escuro do senhor das almas – denso mistério só deslindado depois de muito pão com manteiga –, fosse ainda porque nesse tempo as alminhas estavam por todo o lado, desde os fogos fátuos nos cemitérios às capelas dos caminhos. Que elas continuam por aí, as alminhas, posso dar testemunho directo. Ainda recentemente uma me cativou, lá do muito pagão altar de pedra roída pelo tempo onde a deixaram esquecida, na curva do que já foi um caminho de bois e de gente para uma aldeia do interior, tão linda e frágil, qual negra gaivota à procura do rumo, que não resisti a digitá-la na câmara para a poder admirar a meu belo prazer no écran do computador.
Pergunto-me por vezes se lhe terei roubado a alma ao fixá-la assim neste nicho tecnológico, tal o impacto que provoca a sua inútil tentativa de ascensão, mas logo me dou conta do absurdo da ideia. A mais das vezes, entre uma leitura e outra dos jornais, e antes que a fatídica frase me assalte, levanto os olhos para a minha alminha de estimação como quem procura respostas, mas a sabida, que não tem mãos nem pés e paira de braços erguidos como se fosse voar, pudicamente envolvida no seu negro traje de casulo, é muda como um túmulo, embora o esboço de boca pareça estar quase quase a dizer alguma coisa. Truques de almas, que se bem me lembro só precisavam de PNAM (Pai Nosso e Avé Maria), espécie de santo e senha para conseguirem escapar do purgatório, embora os terrenos interesses das paróquias não desdenhassem de lhes pôr ao lado uma caixa de esmolas para cobrar os medos dos vivos, que nestas coisas das relações com o outro mundo sempre houve muito da terrena tentação para quem muito tem tirar a quem precisa.
Entre um jornal e outro – que é regra geral desfiar o rosário de escândalos, corrupções, compadrios e muitas papas e bolos para enganar tolos – dei por mim a pensar se a história que me deixou a dizer «a minha alma está parva» não trará mais água no bico do que pode parecer. É que é assim que me indigno, desalmadamente, e confirmo que esse não é o caminho a trilhar.
A propósito, a minha alminha não tinha caixa de esmolas na sua casa de pedra. Foi certamente por isso me cativou.


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