Os dois direitos

Correia da Fonseca
A informação chegou-me nas páginas do jornal privado do engenheiro Belmiro. Sabendo por longa experiência como os telenoticiários nacionais gostam de se abastecer nos jornais «de referência» em geral e naquele em especial, arranquei para uma atenta escuta de todos eles em diversas horas e recorrendo mesmo à gravação de um ou outro. Foi uma tarefa trabalhosa e infelizmente vã: não dei por que algum deles nos falasse da tensão existente entre o governo Kirchner, da Argentina, e o grupo económico-financeiro que naquele país é dominante na área dos media. É certo que já um dia destes, mas num canal estrangeiro que recebo graças ao cabo, ouvira qualquer coisa acerca desse conflito entre um poder político eleito pelo voto e um poder mediático conquistado pelo dinheiro. Mas, para bem ou para o mal, sou telespectador português em Portugal, e o que sonho é que seja a televisão do meu País a informar-me. É capaz de ser um desejo excessivo e ingénuo, mas bem se sabe que cada qual tem as suas ingenuidades. Por exemplo: há por aí muita gente que crê, talvez ingenuamente, que nunca lhe faltará a eficácia nessa especialíssima indústria que é a de, graças ao domínio de órgãos de informação influentes, manipular as gentes quer pela sementeira de imposturas quer pela supressão de verdades. É uma espécie de guerra onde não escorre sangue que se veja, o que aliás não significa em rigor que ele, o sangue, não esteja lá. E que tem trincheiras ou, tratando-se de construções mais elaboradas, linhas fortificadas. Neste caso, como bem se sabe, os donos da informação eventualmente adulterada entrincheiram-se no que designam por liberdade de informação. Confiados em que as gentes não se apercebam de que a sua reivindicação não é a do direito de informar em liberdade mas sim a de mentir sem embaraços. De facto, tentam que os cidadãos confundam o direito à liberdade de expressão com o direito à liberdade de falsificação. Que, obviamente, não é bem a mesma coisa.

Morte por morte

Tanto quanto se sabe, e é preciso registar que de um modo geral se sabe pouco, em torno dessa confusão sabiamente cultivada está em curso na Argentina um conflito de desenlace ainda incerto. Mas conflitos do mesmo tipo existem um pouco por todo o lado e, falando-se especialmente da América Latina, é o já referido jornal que nos assinala a existência de tensões mais ou menos graves na Bolívia, no Equador, na Nicarágua e na Venezuela. Como é sabido, todos estes países têm governos que são vistos com desagrado pelos Estados Unidos, e isto é o mínimo que se pode dizer acerca do manifesto desgosto de Washington perante a «deriva chavista» que percorre a América do Sul e Central com inquietante tendência para alastrar. Por outro lado, sabe-se também, e por vezes até se diria que se sabe bem de mais, que os mais poderosos meios de comunicação social, no continente americano como talvez também na Australásia, têm uma curiosa tendência para serem apoiantes dos interesses norte-americanos e admiradores do capitalismo como supremo objectivo da civilização. Adaptando uma antiga frase do recentemente falecido McNamara, dir-se-ia que no espírito desses órgãos brutamente devotos da liberdade de informação «o que é bom para os Estados Unidos capitalistas é bom para o mundo inteiro», e que textos que ponham sequer em dúvida esta verdade fundamental devem ser prontamente eliminados. A bem, se possível, a mal se não houver outro remédio. É o apego à democracia num dos seus mais intensos momentos. E se a liberdade de expressão inclui por vezes a liberdade de mentir, de caluniar ou simplesmente de distorcer, se eventualmente a utilização destas ou similares formas constituem testas-de-ponte por onde possam passar métodos mais expeditivos para garantia das liberdades que Washington tanto gosta de exportar, há que ter paciência: também a democracia made in USA tem razões que a Razão desconhece. Na verdade, num tempo em que a generalidade dos media aceita a proclamação da «morte das ideologias», há entre eles quem aceite que, morte por morte, já agora pode-se matar também a honestidade intelectual e o escrúpulo que dela decorre. Para que, assim, fique tudo mais seguro.


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