As coisas são para usar ou trocar?

Francisco Silva
Ultimamente têm-me assediado – assediado é, de certa maneira, o termo – com o objectivo de que eu me faça cliente de acesso em fibra óptica até à minha casa, largando o cobre – para o caso aqui tanto pode ser o cobre do par telefónico, como o do par coaxial, operadores de ambas as situações andam à cata de clientes para fibra óptica. E esta situação a fazer lembrar não apenas que já na primeira metade dos anos 80 se andava pensar neste tipo de solução com fibras ópticas para o acesso à instalação de utilizador, mas também que já um pouco antes tinha sido iniciada a instalação de cabos de fibras ópticas nas interligações das redes de telecomunicações – em Portugal, em 1982, nas ligações regionais entre Leiria e a Marinha Grande e entre São João da Madeira e Oliveira de Azeméis. Pois agora é que, de vez, as fibras ópticas nos acessos locais às residências estão mesmo a ser realizadas!
Entretanto, ainda próximos estão os ecos do que pode ser considerado como uma cavalgada das telecomunicações nestas cerca de três décadas – e que tanto mais cavalgada e tanto mais poderosa se afigura quanto a pudemos testemunhar e a viver; e, de facto, ainda nela andamos.
É pois uma ocasião apropriada – esta da concretização das fibras ópticas até nossa casa e, por consequência, da caça aos clientes com tal «oferta» – para relembrar etapas principais desta cavalgada, quando agora se vai chegando àquilo que então se procurava imaginar para as redes e serviços de telecomunicações, o cenário para há mais de dez anos: (i) digitalização dos meios de transmissão; (ii) conclusão da automatização do serviço telefónico (fixo, é claro); (iii) digitalização da comutação telefónica, permitindo uma importante «integração» destes meios com os de transmissão, no que foi designado, em termos de infraestruturas de um serviço telefónico largamente dominante, pelo acrónimo RDI (rede digital integrada) (serviço telefónico fixo, é claro que ainda era o que havia); (iv) lançamento do serviço telefónico móvel – o qual rapidamente passou de apoiar-se numa tecnologia analógica, e de existir apenas nalguns automóveis sobretudo de ricaços e «chefes de empresa», para uma tecnologia digital (no nosso País, na sua versão estandardizada GSM, que também acabou por ser a dominante no mundo) e, para o telemóvel de mão utilizado por quase todos e cada um; (v) evolução da tecnologia móvel, em particular para a 3G; e, quase em paralelo, foi também a vez do (vi) acesso à Internet, via rede telefónica, (algum) via RDIS (rede digital com integração de serviços), e o always on (isto é, sem necessidade de estabelecer uma ligação telefónica comutada) e a banda larga (agora para capacidades até 100 Mbit/s através de fibra óptica, um débito adequado nomeadamente para as descargas directas de vídeo).

Valores

Esta etapa mais recente – fibras ópticas para o acesso às residências – é já parte da transição para as chamadas redes da próxima geração, neste caso para os acessos da próxima geração, é já a próxima a ir sendo a actual geração… Conceito de redes de próxima geração – RPG – que pode ser dividido em duas partes: (a) acessos, na qual se incluem as fibras ópticas referidas, mas também a evolução dos acessos rádio actuais – e a 3G já vai por aí fora; (b) mudança do «coração» da(s) rede(s) para uma situação de generalização da tecnologia tipo Internet (Internet Protocol – IP), abandonando o que existe, nomeadamente sistemas baseados sobre métodos digitais de comutação e agregação /desagregação de canais (multiplexagem) herdados das redes fixas e móveis. Um conceito, o da RPG, que pretende, pois, dar conta do processo de transição das infraestruturas de telecomunicações já parcialmente em curso, aqui e acolá, por esse mundo fora.
– A falares assim – podem dizer-me – vê-se mesmo que tens os tiques de antes da privatização das operadoras de telecomunicações! Para ti só há valores de uso – meios infraestruturais, bens, serviços prestados –, claro mediados por valores de troca (preços/custos). Mas hoje em dia, então depois das privatizações, as operadoras optimizam a afectação de recursos com o objectivo de maximização de lucros, para o qual os valores de uso dos bens e dos serviços disponibilizados são um instrumento, não um fim em si do negócio. Os valores de uso que antes eram variáveis independentes, trocaram de posição passando a variáveis dependentes; e os valores de troca a independentes – precisam de mercadorias com valor de uso para as transacções!...
– Pois é, um dinossauro incorrigível é o que sou!


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