A História não se repete, mas…

Ângelo Alves (Membro da Comissão Política)
A História não se repete, mas tem por vezes coincidências interessantes. Sendo a História obra dos homens que, no desenvolvimento da luta de classes, que não cessa e se aprofunda, determinam e continuarão a determinar a marcha da Humanidade, há que olhar atentos para ela e dela retirar ensinamentos que nos permitam ver para além da espuma da actualidade.
O pensamento surge a propósito da simbólica coincidência de efemérides históricas na América Latina com o momento actual que o subcontinente e os seus povos vivem. No dia 16 de Julho, na Bolívia, assinalou-se os 200 anos do levantamento popular de La Paz contra a coroa espanhola, liderado por intelectuais, mestiços e crioulos, que daria início a um período de intensas lutas que viriam a culminar na independência da República de Bolívar em 6 de Agosto de 1825. No dia 19 de Julho, na Nicarágua, os 30 anos da entrada vitoriosa das forças sandinistas em Manágua e a vitória da Revolução Sandinista foram comemorados com particular alegria e mobilização, com os sandinistas e Daniel Ortega de novo à frente dos destinos da Nicarágua. No passado dia 26 de Julho, em Cuba, os 56 anos do Assalto ao Quartel de Moncada, que adquire neste ano de 2009, ano do 50.º aniversário da Revolução Cubana, redobrada importância e simbolismo, foi comemorado pelo povo cubano reafirmando uma vez mais o carácter socialista da sua Revolução.
São acontecimentos e efemérides, de muitas outras que se poderiam evocar, que não são datas quaisquer. São marcos importantes na história de séculos de luta dos povos das Américas contra o colonialismo e, posteriormente, contra as manobras de dominação do imperialismo norte-americano durante todo o século XX e até aos dias de hoje.
Os ventos, entretanto, são de mudança, como foram com Bolívar e Marti, com a revolução cubana, e com muitos outros processos libertadores. A história da América Latina está repleta de avanços e recuos da luta libertadora. Exemplos de generosidade e notável coragem dos seus povos, alguns dos quais voluntaristas e contraditórios e esmagados pela tirania e força das armas ao serviço dos «impérios»; outros sustentados num ideal e numa estratégia e que resistiram às maiores adversidades e ataques, mas que sempre contribuíram para derrotar o velho e construir o novo. Os ventos de mudança na América Latina que mais uma vez se levantam, sopram agora alimentando uma onda de luta popular e progressista que faz renascer a esperança na «segunda e definitiva independência» dos povos da América Latina, nas palavras do presidente Evo Morales.

Avança-se...

Avança-se. Com o lastro da História por detrás, com o exemplo de resistência e de coerência que Cuba é e com a noção clara e correcta que a soberania é um elemento central da luta progressista na América Latina e no Mundo. Une-se vontades, afirma-se solidariedades, constrói-se alianças e a integração latino-americana surge como resposta à força dos velhos dominadores.
Mais uma vez, o socialismo surge na História associado à libertação da exploração e da opressão. De formas difusas, com complexidades novas, com contradições, sem uma estratégia clara, mas está lá, sobretudo na vontade dos povos. E só poderia ser assim e dessa forma se olharmos, por um lado, para as curvas apertadas da História mundial e, por outro, para a inevitabilidade de, para fazer avançar a liberdade, o progresso e a justiça ser necessário derrotar o capitalismo e construir algo de novo.
Mas porque, como outros, estes povos e estes processos tentam derrotar o velho e construir o novo, são inevitavelmente sujeitos a novas velhas conspirações, manobras e ataques directos ou a seduções que os tentam domesticar e com isso neutralizar. É por isso que não surpreende que o imperialismo norte-americano esteja a protagonizar uma nova onda de manobras e conspirações cujo epicentro é mais uma vez a «fiel» Colômbia do fascista Uribe e que visa países como Cuba, Venezuela, Equador, Bolívia e Nicarágua. É por isso que não surpreende que a direita fascista da CIA e do Pentágono mas também os «democratas» do Capitólio e do Departamento de Estado norte-americano de Hillary Clinton estejam envolvidos até à medula no golpe que tenta esmagar Zelaya e o povo hondurenho, tentando o disfarce com uma retórica que os factos já se encarregaram de desmentir e que a estratégia de dar tempo aos golpistas confirma.
A História não se repete, mas os métodos do imperialismo sim. É por isso que o golpe fascista nas Honduras não visa somente aquele povo ou Zelaya que, isolado, não representaria perigo maior para os interesses imperialistas. Visa toda a América Latina e os seus povos. Visa uma poderosa luta que pela sua vivacidade puxa para o lado certo figuras como Zelaya. É isso que o imperialismo teme e é isso que combate por todos os meios num momento em que o sistema capitalista range na tempestade da crise que gerou.


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