Um motor de arranque...

Jorge Messias
Vários analistas financeiros, políticos e padres, têm vindo a público declarar cinicamente que a presente crise económica é, na verdade, altamente incómoda mas também se reveste de aspectos positivos. Passam uma esponja sobre o sofrimento de milhões de seres e sancionam os imensos crimes do neocapitalismo. No entanto, erro seria se considerássemos estes comentários como meras leviandades sem sentido. Está em marcha, ainda que provavelmente em fase inicial, um gigantesco plano que visa desmobilizar a justa reacção dos trabalhadores à situação de saque e de agravamento da exploração do homem que já estamos a viver e se vai agravar.
O objectivo a atingir é a desmobilização da ira popular que, se não for «arrefecida» a tempo, pode degenerar em sublevações e explosões sociais. A nova sociedade capitalista que os banqueiros projectam considera a presente situação de crise, não como uma fase final mas como um ponto de partida. Defendem que o capitalismo triunfante passa pelo esmagamento da classe operária e de parte da burguesia, de forma a acumular capitais que tornem viável a passagem a uma fase superior do sistema. Se esta intenção se concretizar, então, os tecnocratas, os políticos e o alto clero católico, terão dado «a volta por cima» à presente crise financeira. É a «tese do milagre».
Para ganhar corpo, o grande projecto de recuperação política do poder eclesiástico e financeiro exige paz social, solidariedade entre ricos e pobres, aceitação pelos explorados da tese do milagre, reconciliação de classes, piedade. O quadro de exigências que se coloca ao grande capital e à Igreja é difícil de preencher, mas nada há que seja impossível.

O motor está em marcha

A situação que se esboça nesta fase inicial do grande projecto não deixa de ser curiosa. Sem a Igreja Católica e sem a doutrina social da Igreja, os milionários ficam de mãos atadas. Só por eles próprios, não têm já capacidade de sedução. São por demais conhecidos. Os ricos estão atolados no lodo da mentira. Exige-se que uma outra força os transforme em anjos. Essa força é a Igreja.
Nesta coluna do Avante!, naturalmente que o espaço é pouco para o muito que poderia ser dito acerca das estratégias de recuperação do grande capital. Portanto, avançar-se-á apenas com dois sinais de alarme.
O primeiro sinal refere-se às tentativas em curso para transformar em anjos os banqueiros. Com centro nos EUA mas já largamente difundidas nos círculos da alta finança mundial estão na moda as fundações beneméritas dos multimilionários. A de Bill Gates, o fundador da Microsoft, tem um capital social de muitas centenas de milhões de dólares. Uma outra fundação norte-americana «sem fins lucrativos» dispõe de capitais da ordem dos 120 mil milhões de dólares. Ambos estes gigantes financeiros declaram querer «actuar no âmbito da crise mundial». A linguagem que usam tem conteúdo piedoso e reconhece-se igualmente no discurso normal da doutrina social da Igreja.
O segundo sinal parte das Misericórdias e do sector social católico. Insere-se no âmbito das acções que visam recuperar a imagem da Caridade, de «Reinventar a Solidariedade». A proposta inicial, simples e irrealista, vai-se transformando, passo a passo, num sólido programa político. Coesão social como motor de mudança. Todo o poder à sociedade civil. «Levar Deus ao mundo económico». Gestos pequenos: «O mundo e a economia têm falta de Cristo». Linguagem cifrada. Todas estas linhas de força e muitas outras mais, convergem no mesmo sentido: instalar no País um poder cristão-democrata forte, ao serviço dos interesses da Igreja e do grande empresariado. As principais formas de acção foram recentemente apresentadas ao longo de um grandioso seminário (Simpósio «Reinventar a Solidariedade», Conferência Episcopal Portuguesa, 15 de Maio) logo seguido, cerca de uma semana depois, pelo Congresso das Misericórdias que se pronunciou no mesmo sentido: «Temos que demonstrar a nossa incontornabilidade na sociedade portuguesa, perante os novos desafios que este primeiro quartel do século XXI impõe», declarou com voz forte Manuel Lemos, presidente da União das Misericórdias – «Temos que forçar o Estado a olhar para o sector social de maneira diferente».
As próximas semanas vão ser decisivas para as ambições da Igreja portuguesa e do grande patronato, seu eterno aliado. Tudo aponta para que ataquem imediatamente, antes das eleições legislativas.


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