Colômbia contra Uribe

Unidade antifascista

O povo colombiano aumenta o protesto contra a política de direita de Álvaro Uribe. Ao lado dos trabalhadores, sindicatos e partidos da oposição comprometem-se a promover uma campanha contra a reeleição do actual presidente, responsável pelo terrorismo de Estado no país.

Até Abril foram assassinados 17 sindicalistas

Na quinta-feira, 21, milhares de pessoas concentraram-se frente ao ministério da Protecção Social, na capital, Bogotá, e frente às delegações governamentais em dezenas de outras cidades colombianas para exigirem respeito pelos direitos laborais, melhores condições de vida e aumentos salariais justos e dignos. Os manifestantes reivindicaram igualmente a democratização da vida política, o fim da repressão oficial contra líderes operários e camponeses, e medidas concretas de protecção do emprego.
Dados oficiais indicam que nos primeiros três meses de 2009, o número de desempregados na Colômbia ultrapassou os 2,4 milhões, 12,9 por cento da população activa, um acréscimo significativo face ao mesmo período de 2008, quando a taxa era de 12,1 por cento, revelou Favio Arias, do comité executivo da Central Unitária dos Trabalhadores (CUT).
Outro elemento preocupante revelado pela maior central sindical do país alerta para o incremento da violência contra trabalhadores e líderes laborais. Até Abril deste ano foram assassinados 17 dirigentes e activistas sindicais. Na última década, a cifra ascende a 2711 executados por grupos armados vinculados ao governo de Álvaro Uribe, lembra a CUT.
Nem o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) esconde a denúncia do terrorismo de Estado uribista. Em comunicado distribuído sábado, 23, a ACNUR manifestou «profunda preocupação pela recente onda de ameaças de morte contra defensores dos direitos humanos, activistas e líderes de grupos de deslocados que trabalham para defender as suas comunidades», intimidação, continua a agência citada pela EFE, expressa «em milhares de panfletos distribuídos por todo o país». «Em alguns casos, as vítimas são forçadas a abandonar as respectivas localidades. Muitas vezes as ameaças de morte acabam concretizadas. Os sobreviventes, os seus familiares e colegas não denunciam as ameaças com medo das represálias», diz ainda o texto da ACNUR.
A organização da ONU estima em mais de três milhões o número de deslocados em todo o país. O governo do Equador diz ter emitido nas últimas sete semanas 5500 vistos a refugiados políticos das zonas de fronteira com a Colômbia.

Pela democracia contra o golpe

Os protestos do final da semana passada juntaram-se a uma série de mobilizações de repúdio à política de direita do executivo colombiano levadas a cabo desde o início do mês de Maio (trabalhadores do sector bananeiro, das comunicações, educação, saúde, camponeses e comunidades indígenas), e ocorrem num contexto de reforço da unidade antifascista e pela democracia envolvendo a maioria das forças da oposição.
A Grande Coligação Democrática colombiana – formada pelas principais centrais sindicais, organizações de reformados, camponeses e povos originários, estruturas juvenis e de base cultural, bem como pelos partidos Liberal e Pólo Democrático Alternativo – compromete-se a levar por diante uma campanha nacional contra a reeleição do actual presidente, isto depois do Senado ter aprovado um projecto de referendo para a alteração da Constituição, a qual permitiria a Álvaro Uribe recandidatar-se à presidência em 2010.
O diploma ainda tem que transitar para a comissão de conciliação, uma vez que é ligeiramente diferente do documento ratificado anteriormente no parlamento, e, caso haja consenso, passar pelo escrutínio do Tribunal Constitucional. Mas as forças progressistas entendem que a campanha nacional de rejeição ao sufrágio e à recandidatura tem de começar imediatamente, de maneira a travar o passo ao poder proto-fascista que domina o país.
A justeza e celeridade da orientação unitária é atestada, também, pelos factos que rodearam a aprovação das referidas normas. A aprovação no Senado foi feita sem a presença dos eleitos do Pólo Democrático ou do Partido Liberal, e mesmo os 62 votos das forças uribistas foram conseguidos à custa de promessas de pagamentos feitas pelo o ministro de Interior, Fábio Valencia. Acresce que o Conselho Eleitoral colombiano terá que se pronunciar sobre as denúncias de irregularidades na recolha dos cinco milhões de assinaturas que sustentam a emenda constitucional e a realização de uma consulta popular para o efeito. Entre as irregularidades, está o financiamento da subscrição por parte de grupos ligados ao narcotráfico e aos esquemas financeiros piramidais, que deixaram milhares de pessoas sem as respectivas poupanças.

Interesses acautelados

«Tenho sido um combatente da democracia e quero dissipar qualquer dúvida perante a comunidade internacional. Creio que as instituições democráticas se fortaleceram neste governo», disse Uribe dois dias depois do Senado aprovar o projecto de referendo à Constituição. No fórum económico onde proferiu estas declarações, o actual presidente colombiano manteve ainda o tabu sobre uma possível recandidatura, afirmando que «não quer ser lembrado pelas gerações mais jovens como um agarrado ao poder». As palavras de Uribe denotam prudência. Enquanto a possibilidade da recandidatura não for consumada, Uribe não dá um passo em falso.
Entretanto, e acautelando os interesses do capital e dos EUA, o ministro da Defesa, Juan Manuel Santos, demitiu-se do cargo, dia 18, deixando claro que é a alternativa de segunda linha caso Uribe esteja impedido de concorrer ao Palácio Nariño. Santos é um dos falcões do regime e tem sido um dos mais fiéis executantes da política terrorista financiada por Washington, linha de acção que a administração Obama pretende continuar. De outra forma não se compreende por que é que a Casa Branca canaliza este ano, através dos departamentos de Estado e da Defesa, 623 milhões de dólares para actividades operacionais do exército da Colômbia.
À dúvida sobre a aprovação da emenda constitucional no eventual sufrágio, soma-se o profundo desgaste político de Uribe. O presidente é o principal rosto do escândalo das escutas ilegais a juízes, políticos da oposição e jornalistas feitas pelos serviços secretos. Ainda no passado dia 15, o Supremo Tribunal de Justiça da Colômbia instou Uribe a aclarar a situação, bem como a garantir que tal não se voltará a repetir, isto para além de ter exigido que o governo agende uma data para que um relator da ONU visite o país e investigue os casos, negados reiteradamente pelo governo, mas confirmados recentemente por uma rádio colombiana que divulgou trechos das escutas feitas pela DAS.
Por outro lado, a procuradoria-geral da Colômbia está a investigar o desaparecimento de quase dois mil homens que se julga tenham sido executados pelos militares fiéis ao governo e apresentados à comunicação social como guerrilheiros das FARC abatidos em combate. Numa audiência que decorre na localidade de Soacha, nos arredores de Bogotá, um ex-«recrutador» explicou que os jovens pobres da região eram aliciados com promessas de emprego. Posteriormente, eram vendidos ao exército por 88 dólares.
O presidente Uribe entende que o Estado tem o dever de defender os militares e polícias acusados nos casos de «falsos positivos». No seu entender, os advogados de organizações de defesa dos direitos humanos que interpõem processos são pagos para acusarem falsamente a Colômbia de violação dos direitos humanos. Diz o homem que se apresenta à «comunidade internacional» como « um combatente da democracia», e considera que «as instituições democráticas se fortaleceram na Colômbia».


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