Milhares por todo o País exigem uma vida melhor

Continuar Abril em Maio

Muitos milhares de pessoas assinalaram os 35 anos da Revolução dos Cravos com os olhos postos na actual situação do País e na necessidade de fazer Abril de novo. Esta exigência voltará às ruas amanhã, nas manifestações do 1.º de Maio.

Cada vez mais gente percebe que é preciso Abril de novo

Foram muitos milhares de pessoas que na tarde de sábado desceram a Avenida da Liberdade, em Lisboa, no desfile comemorativo do 25 de Abril. Eram trabalhadores, estudantes, reformados, homens, mulheres e jovens, dispostos, com a sua luta, a recolocar o País nos caminhos de Abril.
Nos panos que empunhavam ou nas palavras de ordem que entoavam sobressaía uma grande atenção à situação actual do País, marcada pela ofensiva do Governo e dos grandes grupos económicos contra os direitos sociais e laborais conquistados na sequência do 25 de Abril. Direitos que, garantia a JCP, «não podem ser roubados».
É o caso do direito ao trabalho e ao trabalho com direitos. Do sector químico e metalúrgico, os trabalhadores que desceram a Avenida, reunidos em torno do seu sindicato de classe, exigiam o respeito pela contratação colectiva, contra o bloqueio patronal e a caducidade dos acordos. Ao mesmo tempo, apelavam ao combate ao desemprego e ao lay-off.
Já os trabalhadores dos seguros denunciavam a precariedade existente no sector e reivindicavam melhores salários. Esta última era também o que queriam os trabalhadores da Carris enquanto que os dos CTT se mostravam empenhados em defender o Acordo de Empresa e o direito à contratação colectiva. Da Função Pública, veio a exigência de travar a destruição das funções sociais do Estado e os agentes da GNR reivindicavam o direito ao seu sindicato.

Muito a defender

Mas não são apenas os direitos dos trabalhadores que estão a ser postos em causa. A JCP, dando voz aos estudantes, considerava que «propinas e Bolonha é tudo uma vergonha» e defendia a escola democrática, seriamente ameaçada pela actual política educativa.
Os reformados da Damaia, como milhões de outros por esse País fora rejeitam as «reformas de miséria» e exigem o «aumento intercalar das pensões», enquanto que os pequenos empresários realçavam que esta política não serve os seus interesses. Os imigrantes pretendem ver-se plenamente integrados na sociedade para a qual contribuem com o seu trabalho e as pessoas com deficiência querem igualdade de direitos, sem discriminações. A requalificação dos bairros históricos de Lisboa era reivindicada pelos seus habitantes.
De vários concelhos e freguesias da região de Lisboa veio um clamor, apelando à defesa e o aprofundamento do Serviço Nacional de Saúde. As populações de Loures, Sintra e Seixal querem ver construidos novos hospitais públicos, enquanto que em várias freguesias se luta pela construção de novos centros de saúde, que substituam os actualmente existentes, degradados e sem condições.
Outras associações reclamavam o respeito por outras conquistas de Abril. Como o CPPC, opondo-se à militarização da União Europeia e à NATO, que contrariam o Portugal de paz saído de Abril, ou a URAP, que continua o seu combate pela liberdade e pela democracia, contra a reescrita da história e a recuperação de figuras ligadas ao fascismo.

Causas do nosso tempo

Trinta e cinco anos depois do 25 de Abril, algumas das exigências trazidas à Avenida da Liberdade pareciam ter sido feitas nessa madrugada libertadora de 1974 e nos meses que se lhe seguiram, revelando o muito que se andou para trás, fruto da política de direita praticada nos últimos 33 anos, mas também aquilo que ficou por fazer – ou não fosse Abril uma revolução inacabada. Numa faixa, lia-se, em letras garrafais, «Pela nacionalização da banca», enquanto que outra, empunhada por militares, reivindicava «Amnistia para os militares castigados por delito de opinião».
O povo de Abril que assinalou a Revolução dos Cravos não se ficou pela crítica às desigualdades e às injustiças que marcam a situação actual do País. E apontou soluções, que passam por «Um outro rumo» para a política nacional, como apelava a Interjovem – um rumo de «Emprego, direitos, salários», explicitava a União de Sindicatos de Lisboa, da CGTP-IN. Que traga «Abril de novo»...

Vivo no coração do povo

Para além do grande desfile de Lisboa, Abril foi assinalado por todo o País com a participação de muitos milhares de pessoas, mostrando que a data permanece viva no coração do povo. No Porto, foram muitos os que se reuniram junto às instalações onde, antes da Revolução, funcionava a PIDE e rumaram depois à Avenida dos Aliados.
Em Braga, foi a União de Sindicatos, da CGTP-IN, a assumir a convocatória das comemorações. Em foco esteve o processo criminal movido pelo Governo Civil contra quatro dirigentes sindicais de Braga por «manifestação ilegal». «Não nos calaremos nunca», afirmou Adão Mendes, coordenador da União e um dos réus do processo. Na Margem Sul do Tejo, por iniciativa das autarquias, Abril foi celebrado nas ruas, com espectáculos musicais e fogo de artifício que envolveram largas dezenas de milhares de pessoas.
Também o PCP e a CDU continuam a comemorar a Revolução à qual tantos dos seus militantes e activistas deram o melhor das suas vidas. Jerónimo de Sousa participou, domingo, num almoço em Casaínho, no concelho de Loures, e, no mesmo dia, mas na Quinta da Atalaia, assinalou-se o 25 de Abril e homenageou-se um dos seus mais destacados construtores – o General Vasco Gonçalves.
No Funchal, a CDU realizou mais uma vez o arraial da Rua da Carreira, e em muitas outras localidades do País a data foi assinalada pelo Partido e pela coligação em almoços, jantares, debates e sessões.

PCP e CDU comemoram Revolução
Futuro trará Abril de novo

Em dezenas de iniciativas por todo o País, reunindo muitos milhares de militantes e simpatizantes, o PCP e a CDU comemoraram os 35 anos do 25 de Abril.

Jerónimo de Sousa esteve no domingo no concelho de Loures a participar num almoço em Casaínhos, Fanhões, comemorativo do 25 de Abril. Perante três centenas de pessoas, o Secretário-geral do PCP afirmou que as conquistas de Abril «são uma referência para a luta presente e para a construção do futuro democrático e independente para Portugal».
Um futuro que «trará Abril de novo com a luta dos trabalhadores e do povo», salientou Jerónimo de Sousa. Reafirmando que a Revolução dos Cravos foi uma «revolução inacabada», Jerónimo de Sousa considerou «imperioso e urgente fazer retomar o seu caminho». «Nós temos confiança que assim será.»
Para Jerónimo de Sousa, a vida mostrou «como foi possível com a determinação, a força e capacidade criativa das massas populares vencer o que muitos consideravam invencível». E, continuou o dirigente comunista, mostrou também «que com a luta e acção decidida das massas populares é possível alcançar grandes conquistas políticas e empreender profundas transformações económicas e sociais no interesse dos trabalhadores e do povo».
Entre estas conquistas e transformações, o dirigente do PCP realçou a nacionalização da banca e dos demais sectores chave da economia nacional; a Reforma Agrária, que pôs fim ao latifúndio nos campos do Sul; os direitos dos trabalhadores, de que são exemplo o direito à livre organização sindical, o direito à manifestação e à greve, o controlo operário e a proibição dos despedimentos sem justa causa, o aumento generalizado dos salários e a criação do salário mínimo nacional ou ainda o direito a férias pagas. Jerónimo de Sousa referiu-se ainda aos direitos sociais alcançados nos domínios da saúde, educação e segurança social.
Após traçar um negro retrato da situação do País 35 anos depois de Abril, Jerónimo de Sousa realçou que «é possível e necessário concretizar outra política orientada pelos valores da democracia, liberdade, justiça social, do Estado ao serviço do povo e do desenvolvimento do País, da soberania e independência nacionais e da paz». No próximo dia 23 de Maio, lembrou, na Marcha da CDU de Protesto, Confiança e Luta «afirmaremos nas ruas de Lisboa, com todos os portugueses que nos queiram acompanhar, essa vontade de afirmação da necessidade e importância de colocar Abril de novo na vida dos portugueses».
As batalhas eleitorais que se realizarão este ano, acrescentou o dirigente comunista, constituem também «um momento e uma oportunidade para abrir caminho a um futuro melhor para o País e para os portugueses».
Promovidas pelo PCP e pela CDU realizaram-se várias centenas de iniciativas, que ocuparam grande parte da agenda da edição passada do nosso jornal. Publicamos, nestas páginas, imagens de algumas.

Ampliar a luta para mudar de rumo
1.º de Maio com a CGTP-IN

O movimento sindical unitário assinala amanhã o Dia Mundial do Trabalhador, com iniciativas em quase cinco dezenas de localidades.

O mapa das comemorações abarca todos os distritos do Continente e as regiões autónomas, sob o lema «Mais Emprego, Mais Salário, Mais Direitos! Mudar de Rumo, Dignificar os Trabalhadores!».
Na lista de acções agendadas, divulgada pela CGTP-IN, destacam-se:
- a grande manifestação em Lisboa, a partir das 14.30 horas, do Martim Moniz até à Alameda D. Afonso Henriques, juntando trabalhadores do distrito de Lisboa e do Norte do distrito de Setúbal;
- e as manifestações no Porto (15 horas, Avenida dos Aliados), Guimarães (15 horas, Largo do Toural), Aveiro (15.30, Largo da Estação), Coimbra (15 horas, entre as praças da República e 8 de Maio), Leiria (15 horas, do Largo Paulo VI para a Praça Rodrigues Lobo), Portalegre (10 horas, do Rossio para a Praça da República), Setúbal (concelhos de Palmela e Setúbal, 15 horas, do Largo do Quebedo para a Praça do Bocage) e Funchal (17.30, frente à Assembleia Legislativa Regional).
Concentrações, desfiles e festas-convívio vão ter lugar em Viana do Castelo (16 horas, Praça da República), Bragança (a partir das 11 horas, Praça Cavaleiro Ferreira), Torre de Moncorvo (10 horas, Praça Francisco Meireles), Chaves (15 horas, Largo das Caldas), Vila Real (15 horas, Largo da Capela Nova), Peso da Régua (15 horas, Alameda dos Capitães), Lamego (14.30, Av. Dr. Alfredo Sousa), Mangualde (14.30, Largo Dr. Couto), Viseu (14.30, Rossio), Guarda (15 horas, parque urbano do Rio Diz), Castelo Branco (14.30, Centro Cívico Docas), Covilhã (15.30, Pelourinho), Barroca Grande (Minas da Panasqueira), Unhais da Serra (15 horas, parque infantil), Tortosendo (10.30 horas), Figueira da Foz (15 horas, jardim municipal), Tramagal (15.30, Largo dos Combatentes), Torres Vedras (almoço-convívio no pavilhão de exposições), Vendas Novas (15 horas, jardim público), Montemor-o-Novo (15 horas, Parque Urbano), Évora (12 horas, da Praça do Giraldo para o Jardim Público), Vila Viçosa (15 horas, mata municipal), Alcácer do Sal (11 horas, Barragem do Pego do Altar), Torrão (11 horas, Barragem do Vale do Gaio), Casebres (11 horas, Barragem da Azenha), Grândola (15 horas, Jardim do 1.º de Maio), Santiago do Cacém (11 horas, Rio da Figueira), Sines (festival musical esta noite, em Santo André, e almoço-convívio amanhã, no Jardim da Ludoteca); nas barragens de Morgavel e Campilhas (litoral alentejano), do Roxo (em Ervidel, Aljustrel) e do Enxoé (Pias, Serpa); em Beja (no Parque da Cidade), Faro (16 horas, Alameda João de Deus) e na RA dos Açores (Angra do Heroísmo, Horta e Ponta Delgada).
Em muitos locais, a manhã é ocupada com iniciativas desportivas (como a Corrida Internacional, em Lisboa, que sai do Estádio do Inatel às 10 horas, para um percurso de 15 quilómetros).

Internacional

Delegações da CGTP-IN participam nas comemorações do 1.º de Maio, em Cuba (Arménio Carlos, da Comissão Executiva), na Turquia (Augusto Praça, do Conselho Nacional) e na Bielorússia (Armando Farias, do Conselho Nacional).


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