Compromissos rompidos na Pirites e na Qimonda

Truques com toalhas

Domingos Mealha
Manuel Pinho e José Sócrates proclamam que não atiram a toalha ao chão. Repetem promessas que antes não cumpriram e semeiam ilusões de solução para problemas graves que a política do seu Governo mais agudizou. Na Pirites Alentejanas e na Qimonda todos os compromissos oficiais estão rompidos – o que não impede os ilusionistas de continuarem os seus «truques com toalhas».

Gritam que não atiram a toalha ao chão, tentando escapar às responsabilidades

A audiência da passada quinta-feira, com três responsáveis do Ministério da Economia, «foi o eco de uma reunião que já ali tínhamos tido, em Setembro, quando a Lundin Mining ainda geria a Pirites Alentejanas». Manuel Bravo recordou ao Avante! como, na altura, os representantes dos trabalhadores ouviram que não tinham motivos para se preocuparem, porque tudo estava dentro da normalidade. Este dirigente da Fiequimetal/CGTP-IN foi um dos membros da delegação mineira que procurou, na Rua da Horta Seca, respostas para as preocupações suscitadas pelo facto de os novos donos da concessionária das minas de Aljustrel terem começado a desmantelar e vender equipamentos e máquinas, em vez de concretizarem a retoma da laboração.
No dia 9, o quadro repetiu-se, agora sem o ministro, que se escafedeu na cara dos mineiros, a caminho de mais uma visita festiva. A delegação de dirigentes do Sindicato dos Trabalhadores da Indústria Mineira e da Comissão de Trabalhadores da Pirites Alentejanas não fazia questão de reunir com Manuel Pinho, queria apenas obter respostas. Indignados, ouviram os representantes do Ministério dizer que tinham que se ir inteirar da situação, porque não tinham informações acerca da venda de património... O mesmo já tinha dito, dias antes, o governador civil de Beja. «É uma vergonha, as reuniões foram pedidas com antecedência, tinham a obrigação de ter recolhido informação», protestou Mário Godinho, da CT, durante a conversa que tivemos nessa tarde com os membros da delegação.
Tal como fizeram os seus representantes na reunião com os mineiros, também o ministro da Economia foi dizendo aos jornalistas, na Amareleja, que em Aljustrel estava tudo a correr como previsto, refugiando-se nas declarações da empresa, que alegava estar a realizar meros actos de gestão.
Na delegação de Beja da ACT, dias antes, os dirigentes mineiros reclamaram que fosse fiscalizado o não cumprimento da lei (o artigo 405.º do Código do Trabalho, que determina que neste caso é obrigatório ouvir a CT), mas obtiveram como resposta uma alusão à falta de meios...

Menos de um ano...

Os trabalhadores da mina e a população da vila alentejana viram, em Maio de 2008, este ministro e o chefe do Governo festejarem o anúncio da retoma da laboração. Passados seis meses, a 13 de Novembro, a multinacional anunciou o fim da actividade em Aljustrel. Os governantes compareceram de novo, mas só a 5 de Dezembro, para anunciarem um novo negócio, com uma firma do Grupo Martifer, dos irmãos Martins, e novos compromissos.
«Os trabalhadores dispensados em 2008 seriam readmitidos em Janeiro deste ano e a empresa iria retomar a laboração até ao final do primeiro trimestre», recorda o STIM/CGTP-IN, num comunicado que divulgou anteontem. Não foi retomada a exploração e, dos cerca de 900 trabalhadores, que estavam na mina em Novembro (200 na PA e os restantes na EPOS e outros subempreiteiros), resta uma centena (menos de metade destes estão no quadro da Pirites). A própria empresa veio declarar que relançaria a exploração mineira em seis meses, mas quatro já passaram sem qualquer sinal nesse sentido.
Jacinto Anacleto, coordenador do sindicato, explicou-nos que pretenderam expor ao Governo a sua preocupação pela venda de equipamento essencial à actividade da Pirites Alentejanas, enquanto não avança qualquer recrutamento de pessoal nem a necessária formação de mineiros. E, mais uma vez, exigiram conhecer os termos concretos do negócio, o que o Governo não revela, nem quando isso lhe é solicitado no Parlamento.
Prometendo voltar ao Ministério da Horta Seca ainda este mês, os mineiros não desistem de lutar por que o sector, estratégico para o País, seja tratado com seriedade - o que não tem ocorrido com estes governantes que, gritando que não atiram a toalha ao chão, querem afinal escapar-se dos momentos de aperto em que lhes são exigidas responsabilidades.

Intimidação

A realização do plenário de 7 de Abril, na sede do sindicato, foi perturbada por uma manobra intimidatória, que os representantes dos mineiros condenaram. A empresa deu instruções para coligir os nomes dos trabalhadores que se ausentassem no período da reunião. Com mais de 60 por cento do pessoal a trabalhar com contratos a termo, poucos destes correram o risco.
No dia seguinte, evocaram os membros da delegação, completavam-se 49 anos desde que a GNR e a Pide invadiram a sede do sindicato, com metralhadoras, dando início a uma vaga de repressão. Ressalvando a clara diferença de proporções, afirmam que a atitude da administração da I'M SGPS vai no mesmo sentido, procurando limitar, com grande pressão e intimidação, a livre participação dos trabalhadores num plenário para discutirem problemas colectivos.

O esforço que contaria

Foi a propósito da Qimonda que a toalha do primeiro-ministro entrou na gíria política, na véspera de começarem as duas semanas de lay-off que terminaram esta segunda-feira e foram prolongadas no dia seguinte, com medidas ainda mais graves.
No Hospital de Famalicão, dia 27 de Março, Sócrates garantia aos jornalistas que tudo tem feito e vai continuar a fazer para encontrar uma solução para a Qimonda. Mas Pinho já antecipava que, se tudo falhar, há-de recuperar os milhões de euros do Estado que foram concedidos à multinacional. No meio de tudo isto, lá admitiu o primeiro-ministro que a situação é difícil, a liderança do processo é alemão... mas «não atiro a toalha ao chão».
A Qimonda portuguesa, que há tão pouco tempo tinha cerca de 1700 trabalhadores e, em 2007, foi a maior exportadora nacional, liquidou 300 postos de trabalho nestes últimos três meses e anunciou anteontem que apenas 200 pessoas ficam a trabalhar; são suspensos os contratos de 800, por seis meses, o que significa um corte de um terço nos seus salários; e outras 300 serão despedidas.
O ministro da Economia, perante este drama, ainda conseguiu fazer mais um esforço para ser portador de boas-novas futuras, para não enfrentar as responsabilidades presentes. Segundo Pinho, ainda haverá uma hipótese de investidores internacionais não identificados virem salvar a empresa.
«O ministro tem o disco riscado», ironizou Daniel Sampaio. Dirigente sindical das Indústrias Eléctricas do Norte e Centro, comentou ao Avante! que Pinho e Sócrates «renderam-se ao mercado» e acabam por dizer que «não têm solução», e «ainda soubemos que a empresa-mãe veio cá sacar 150 milhões de euros». Neste caso, defende, faria falta «uma solução política», com uma posição bem mais firme do Governo português, envolvendo a União Europeia e a Alemanha.


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