Moldávia enfrenta golpe
O Tribunal Constitucional ordenou, domingo, a recontagem dos votos na Moldávia. A decisão vem ao encontro do pedido do presidente do país, que pretende reforçar a legitimidade da vitória eleitoral comunista depois dos protestos violentos da semana passada.
A Moldávia acusa a Roménia de manobrar a revolta
Para Vladimir Voronin, actual chefe de Estado e dirigente do Partido dos Comunistas da Moldávia (PCM), a recontagem dos votos e a verificação das listas eleitorais permitirá desmontar os argumentos da oposição, que acusa o governo de ter falsificado a consulta e exige a realização de novo sufrágio.
No escrutínio de 5 de Abril, o PCM saiu vencedor com cerca de 50 por cento dos votos, conquistando 60 dos 101 lugares no parlamento. Este resultado deixou os comunistas a apenas um deputado de poderem eleger o próximo presidente, uma vez que a Constituição do país prevê que o mais alto magistrado da nação seja eleito com a aprovação de um mínimo de 61 parlamentares. Os restantes eleitos, 41, dividem-se entre os partidos Liberal, Liberal-Democrático e Aliança Nossa Moldávia, formações que qualificavam o executivo de Voronin de «ditatorial» e acusavam o governo de ter desencadeado um genocídio contra os cidadãos».
Os partidos de direita convocaram para domingo um novo protesto anticomunista na capital, Chisinau. Embora com apelos públicos a uma manifestação pacífica, as palavras ásperas da posição para com o executivo - e injustificadas, uma vez que não existem testemunhos de qualquer «genocídio» e os observadores da internacionais consideraram as eleições livres e democráticas afastando o panorama de instauração de uma «ditadura -, pareciam querer repetir o cenário de contestação violenta ocorrido na terça-feira, dia 7. O dispositivo policial da cidade demoveu a concretização desse objectivo.
Alguns relatos indicam que, no domingo, na praça central de Chisinau, um grupo de jovens, acompanhados por música e bandeiras romenas, ainda procurou incendiar os ânimos, mas poucos os seguiram, contrariamente ao sucedido no início da semana passada, quando os edifícios governamentais e o parlamento foram invadidos, pilhados e vandalizados, e bandeiras da Roménia e da UE foram desfraldadas em substituição da bandeira nacional moldava.
No balanço dos acontecimentos de 7 de Abril, há a contabilizar a morte de duas pessoas, uma jovem que alegadamente sucumbiu à cortina de fumo gerada pelos incêndios ateados no interior do parlamento, e um jovem de 23 anos, cuja causa da morte ainda não foi apurada.
Acrescem, igualmente, cerca de 200 feridos, metade dos quais agentes da autoridade que tentaram em vão conter a multidão e garantir a segurança dos edifícios do governo; e mais de uma centena de detidos, alguns dos quais capturados dias depois na posse de bens obtidos no saque ao parlamento.
Provocação e golpe
Reagindo aos acontecimentos, o presidente da Moldávia disse que a oposição procurou levar a cabo um golpe de Estado e acusou a vizinha Roménia de manobrar os distúrbios. Voronin ordenou ainda a expulsão do embaixador romeno e de um assessor da representação diplomática de Bucareste, facto que provocou um conflito com o novo membro do bloco europeu. O ministro dos negócios estrangeiros da Roménia, Cristian Diaconescu, reuniu-se, entretanto, com os embaixadores dos países membros da UE e da NATO a fim de discutir a situação na Moldávia.
Outra das decisões tomadas pelo governo moldavo visando controlar a situação foi reinstituir um sistema de vistos de entrada para cidadãos romenos. Desde 2002 que a circulação de nacionais da Roménia e Moldávia estava franqueada em ambas as nações. Quando a Roménia se tornou membro da UE, em 2007, os moldavos passaram a necessitar de visto para entrar na Roménia, mas os romenos não precisam de autorização para circular na Moldávia.
Em entrevista publicada na edição de segunda-feira do diário EL País, o presidente Voronin explicou que a adesão da Roménia à UE e o acréscimo de dificuldades para a entrada de moldavos no velho continente levou a que muitos dirigissem a sua revolta contra o governo. Os jovens têm sido alvo de uma campanha que os faz acreditar que o governo não será capaz de os aproximar da Europa. Os professores do ensino secundário ressuscitam a memória de Ion Antonescu (ditador romeno, aliado de Hitler e dos regimes nazi-fascistas europeus do século XX) e fomentam o desejo da reunificação de toda a região da Bessarábia, aludiu.
Na entrevista, o presidente e dirigente comunista reiterou também as acusações à Roménia afirmando que aquele país mantém pretensões expansionistas e por isso rejeita assinar o tratado de fronteira com a Moldávia.
Voronin apelidou os acontecimentos violentos em Chisinau como mais uma tentativa de «revolução colorida» e denunciou que entre os participantes estavam dois membros dos serviços secretos romenos e vários cidadãos sérvios, um dos quais com documentos de uma instituição norte-americana.
As declarações de Voronin ao El País vão de encontro aos dados divulgados pela Reuters, agência noticiosa que informou que autocarros repletos de jovens romenos chegaram a Chisinau para participarem nas manifestações «espontâneas».
«Revolução Twitter»
Para além do transporte de autocarros com cidadãos romenos, outros dados fazem suspeitar da «espontaneidade» dos protestos da semana passada em Chisinau. A multidão de jovens surgida do nada é atribuída ao sucesso da mobilização em cadeia por mensagens de telemóvel ou usando redes sociais na Internet, como o Facebook ou o Twitter, métodos que, chega a exemplificar-se, tiveram grande sucesso nas «revoluções coloridas» na Ucrânia e na Geórgia.
Supostamente, os movimentos juvenis moldavos Hyde Park e ThinkMoldova terão começado a fazer circular naquelas plataformas a convocatória para uma iniciativa sob o lema «Eu não sou comunista». De um momento para o outro, apareceram 15 mil pessoas dispostas a derrubar o governo. Para Evgeny Morozov, especialista em tecnologia e política do nova-iorquino Open Society Institute (grupo que se apresenta como cooperante dos movimentos «democráticos» no espaço da ex-URSS), a Moldávia é mesmo um exemplo de como o Facebook e o Twitter desempenham um forte papel nos protestos pela mudança.
Entre os dinamizadores e testemunhas dos acontecimentos na Moldávia citados nos meios de comunicação social dominante estão, por exemplo, a «jornalista» Natalia Morar, ex-secretária do partido anti-Putin «Outra Rússia» que surge agora empenhada na «democratização» da Moldávia.
Num artigo publicado no globalresearch.ca, o professor e investigador José Miguel Alonso Trabanco adianta ainda que a Agência dos EUA para o Desenvolvimento (USAID) especifica no seu website que apoia [em logística e recursos financeiros] «actividades de participação cidadã na Moldávia»; estimula o «estreitamento do activismo político democrático»; e promove «entre as comunidades locais o livre acesso à Internet e programas de treino intenso em todos os aspectos de informação e tecnologia».
Mais adiante, revela igualmente o texto de Alonso Trabanco, a USAID esclarece que os seus grupos alvo são «funcionários do governo local, jornalistas, estudantes, representantes e membros de ONG’s, professores e profissionais de saúde».
Equilíbrio complexo
Nos acontecimentos recentes na Moldávia, importa considerar o complexo equilíbrio que o país é obrigado a manter na disputa entre os EUA/UE/NATO e a Rússia.
Depois de na década de 90 e início do novo século quase soçobrar à campanha integracionista pró-romena –travada pelo reforço eleitoral dos comunistas que chegaram a conquistar 71 deputados nas eleições de 2001 (ver Avante! de 8 de Março de 2001) –, a Moldávia conseguiu, nos últimos anos, uma reaproximação à Rússia. O facto poderá permitir a reintegração da região da Transnístria, a qual, na sequência da desintegração da URSS e com o apoio de Moscovo declarou a secessão face à Moldávia, temendo a absorção do país pela Roménia.
Na entrevista ao El País, Vladimir Voronin admite que as relações com o autoproclamado governo de Tiraspol estão menos tensas. Mais de 500 empresas da região já se registaram na Moldávia e 350 mil cidadãos daquela parcela de território receberam passaportes moldavos, disse. Pelo menos desde Setembro do ano passado, é assumido o diálogo tripartido entre Rússia, Moldávia e Transnístria no sentido de resolver o estatuto político da região separatista.
Por outro lado, a Moldávia encontra-se no corredor de escoamento de hidrocarbonetos da Ásia Central para a Europa e constitui um enclave territorial entre a Ucrânia e a Roménia, países na esfera de influência da NATO e dos EUA no âmbito da estratégia de cerco imperialista à Rússia. Os desejos de Kiev de entrar para a Aliança Atlântica e o facto da Roménia já pertencer ao bloco político-militar constituem um factor de pressão sobre a neutralidade do governo da Moldávia no tabuleiro geo-estratégico.
As derrotas dos EUA/UE/NATO na recente investida georgiana contra a Ossétia do Sul ou no também recente regresso da Quirguízia à esfera de influência da Rússia (desde logo pela expulsão da base de Manas das forças que constituem a coligação internacional de apoio à ocupação do Afeganistão, confirmada no início deste mês) podem ter precipitado uma acção com a mão imperialista na Moldávia.
No escrutínio de 5 de Abril, o PCM saiu vencedor com cerca de 50 por cento dos votos, conquistando 60 dos 101 lugares no parlamento. Este resultado deixou os comunistas a apenas um deputado de poderem eleger o próximo presidente, uma vez que a Constituição do país prevê que o mais alto magistrado da nação seja eleito com a aprovação de um mínimo de 61 parlamentares. Os restantes eleitos, 41, dividem-se entre os partidos Liberal, Liberal-Democrático e Aliança Nossa Moldávia, formações que qualificavam o executivo de Voronin de «ditatorial» e acusavam o governo de ter desencadeado um genocídio contra os cidadãos».
Os partidos de direita convocaram para domingo um novo protesto anticomunista na capital, Chisinau. Embora com apelos públicos a uma manifestação pacífica, as palavras ásperas da posição para com o executivo - e injustificadas, uma vez que não existem testemunhos de qualquer «genocídio» e os observadores da internacionais consideraram as eleições livres e democráticas afastando o panorama de instauração de uma «ditadura -, pareciam querer repetir o cenário de contestação violenta ocorrido na terça-feira, dia 7. O dispositivo policial da cidade demoveu a concretização desse objectivo.
Alguns relatos indicam que, no domingo, na praça central de Chisinau, um grupo de jovens, acompanhados por música e bandeiras romenas, ainda procurou incendiar os ânimos, mas poucos os seguiram, contrariamente ao sucedido no início da semana passada, quando os edifícios governamentais e o parlamento foram invadidos, pilhados e vandalizados, e bandeiras da Roménia e da UE foram desfraldadas em substituição da bandeira nacional moldava.
No balanço dos acontecimentos de 7 de Abril, há a contabilizar a morte de duas pessoas, uma jovem que alegadamente sucumbiu à cortina de fumo gerada pelos incêndios ateados no interior do parlamento, e um jovem de 23 anos, cuja causa da morte ainda não foi apurada.
Acrescem, igualmente, cerca de 200 feridos, metade dos quais agentes da autoridade que tentaram em vão conter a multidão e garantir a segurança dos edifícios do governo; e mais de uma centena de detidos, alguns dos quais capturados dias depois na posse de bens obtidos no saque ao parlamento.
Provocação e golpe
Reagindo aos acontecimentos, o presidente da Moldávia disse que a oposição procurou levar a cabo um golpe de Estado e acusou a vizinha Roménia de manobrar os distúrbios. Voronin ordenou ainda a expulsão do embaixador romeno e de um assessor da representação diplomática de Bucareste, facto que provocou um conflito com o novo membro do bloco europeu. O ministro dos negócios estrangeiros da Roménia, Cristian Diaconescu, reuniu-se, entretanto, com os embaixadores dos países membros da UE e da NATO a fim de discutir a situação na Moldávia.
Outra das decisões tomadas pelo governo moldavo visando controlar a situação foi reinstituir um sistema de vistos de entrada para cidadãos romenos. Desde 2002 que a circulação de nacionais da Roménia e Moldávia estava franqueada em ambas as nações. Quando a Roménia se tornou membro da UE, em 2007, os moldavos passaram a necessitar de visto para entrar na Roménia, mas os romenos não precisam de autorização para circular na Moldávia.
Em entrevista publicada na edição de segunda-feira do diário EL País, o presidente Voronin explicou que a adesão da Roménia à UE e o acréscimo de dificuldades para a entrada de moldavos no velho continente levou a que muitos dirigissem a sua revolta contra o governo. Os jovens têm sido alvo de uma campanha que os faz acreditar que o governo não será capaz de os aproximar da Europa. Os professores do ensino secundário ressuscitam a memória de Ion Antonescu (ditador romeno, aliado de Hitler e dos regimes nazi-fascistas europeus do século XX) e fomentam o desejo da reunificação de toda a região da Bessarábia, aludiu.
Na entrevista, o presidente e dirigente comunista reiterou também as acusações à Roménia afirmando que aquele país mantém pretensões expansionistas e por isso rejeita assinar o tratado de fronteira com a Moldávia.
Voronin apelidou os acontecimentos violentos em Chisinau como mais uma tentativa de «revolução colorida» e denunciou que entre os participantes estavam dois membros dos serviços secretos romenos e vários cidadãos sérvios, um dos quais com documentos de uma instituição norte-americana.
As declarações de Voronin ao El País vão de encontro aos dados divulgados pela Reuters, agência noticiosa que informou que autocarros repletos de jovens romenos chegaram a Chisinau para participarem nas manifestações «espontâneas».
«Revolução Twitter»
Para além do transporte de autocarros com cidadãos romenos, outros dados fazem suspeitar da «espontaneidade» dos protestos da semana passada em Chisinau. A multidão de jovens surgida do nada é atribuída ao sucesso da mobilização em cadeia por mensagens de telemóvel ou usando redes sociais na Internet, como o Facebook ou o Twitter, métodos que, chega a exemplificar-se, tiveram grande sucesso nas «revoluções coloridas» na Ucrânia e na Geórgia.
Supostamente, os movimentos juvenis moldavos Hyde Park e ThinkMoldova terão começado a fazer circular naquelas plataformas a convocatória para uma iniciativa sob o lema «Eu não sou comunista». De um momento para o outro, apareceram 15 mil pessoas dispostas a derrubar o governo. Para Evgeny Morozov, especialista em tecnologia e política do nova-iorquino Open Society Institute (grupo que se apresenta como cooperante dos movimentos «democráticos» no espaço da ex-URSS), a Moldávia é mesmo um exemplo de como o Facebook e o Twitter desempenham um forte papel nos protestos pela mudança.
Entre os dinamizadores e testemunhas dos acontecimentos na Moldávia citados nos meios de comunicação social dominante estão, por exemplo, a «jornalista» Natalia Morar, ex-secretária do partido anti-Putin «Outra Rússia» que surge agora empenhada na «democratização» da Moldávia.
Num artigo publicado no globalresearch.ca, o professor e investigador José Miguel Alonso Trabanco adianta ainda que a Agência dos EUA para o Desenvolvimento (USAID) especifica no seu website que apoia [em logística e recursos financeiros] «actividades de participação cidadã na Moldávia»; estimula o «estreitamento do activismo político democrático»; e promove «entre as comunidades locais o livre acesso à Internet e programas de treino intenso em todos os aspectos de informação e tecnologia».
Mais adiante, revela igualmente o texto de Alonso Trabanco, a USAID esclarece que os seus grupos alvo são «funcionários do governo local, jornalistas, estudantes, representantes e membros de ONG’s, professores e profissionais de saúde».
Equilíbrio complexo
Nos acontecimentos recentes na Moldávia, importa considerar o complexo equilíbrio que o país é obrigado a manter na disputa entre os EUA/UE/NATO e a Rússia.
Depois de na década de 90 e início do novo século quase soçobrar à campanha integracionista pró-romena –travada pelo reforço eleitoral dos comunistas que chegaram a conquistar 71 deputados nas eleições de 2001 (ver Avante! de 8 de Março de 2001) –, a Moldávia conseguiu, nos últimos anos, uma reaproximação à Rússia. O facto poderá permitir a reintegração da região da Transnístria, a qual, na sequência da desintegração da URSS e com o apoio de Moscovo declarou a secessão face à Moldávia, temendo a absorção do país pela Roménia.
Na entrevista ao El País, Vladimir Voronin admite que as relações com o autoproclamado governo de Tiraspol estão menos tensas. Mais de 500 empresas da região já se registaram na Moldávia e 350 mil cidadãos daquela parcela de território receberam passaportes moldavos, disse. Pelo menos desde Setembro do ano passado, é assumido o diálogo tripartido entre Rússia, Moldávia e Transnístria no sentido de resolver o estatuto político da região separatista.
Por outro lado, a Moldávia encontra-se no corredor de escoamento de hidrocarbonetos da Ásia Central para a Europa e constitui um enclave territorial entre a Ucrânia e a Roménia, países na esfera de influência da NATO e dos EUA no âmbito da estratégia de cerco imperialista à Rússia. Os desejos de Kiev de entrar para a Aliança Atlântica e o facto da Roménia já pertencer ao bloco político-militar constituem um factor de pressão sobre a neutralidade do governo da Moldávia no tabuleiro geo-estratégico.
As derrotas dos EUA/UE/NATO na recente investida georgiana contra a Ossétia do Sul ou no também recente regresso da Quirguízia à esfera de influência da Rússia (desde logo pela expulsão da base de Manas das forças que constituem a coligação internacional de apoio à ocupação do Afeganistão, confirmada no início deste mês) podem ter precipitado uma acção com a mão imperialista na Moldávia.