Um notável dirigente político

O exemplo da «Praça de Jorna»

Para além dos notáveis romances e contos que escreveu, Soeiro Pereira Gomes produziu também textos políticos, em forma de cartas, folhetos ou artigos.
As questões abordadas eram variadas, como o foram as tarefas partidárias que desempenhou, particularmente na clandestinidade: o papel dos intelectuais na luta antifascista, a construção da unidade nacional contra a ditadura ou a utilização das praças de jorna para a conquista de direitos e para a luta pelo derrubamento do fascismo.
Neste último caso, escreveu em Agosto de 1946 Praça de Jorna. Nesse folheto, começa por clarificar o que eram as praças de jorna: «um mercado de mão-de-obra, a que vão assalariados e proprietários rurais (ou os seus delegados: os capatazes), e em que os primeiros, como vendedores, oferecem a sua força de trabalho, e os segundos, como compradores, oferecem o salário ou jorna, que é a paga de um dia de trabalho.»
Soeiro Pereira Gomes, que trabalhava então com os camponeses e operários agrícolas do Alto Ribatejo, rejeita a visão de alguns, segundo os quais as praças eram, ainda, «restos do antigo mercado de escravos e, portanto, desumanas e inteiramente condenáveis». Afirmando, pelo contrário, que estas eram instituições capitalistas, realçava que as praças eram um processo mais «progressivo e mais útil de contratar trabalho do que o processo individual de contrato em cada dos patrões ou dos camponeses». E insistia mesmo na ideia de que, nas condições do fascismo, poderiam ser úteis para a unidade camponesa e mesmo para a sua libertação do jugo fascista.
Que assim é provava-o, por exemplo, a resistência constante que o patronato opunha ao seu regular funcionamento.
«Dizemos apenas que a “praça” é útil à unidade dos camponeses; e não simplesmente à subida das jornas, porque a “praça” não representa apenas um campo de luta por melhores jornas, mas também por outras condições de trabalho: e, além disso, porque é somente através da sua unidade que os camponeses conseguirão melhorar essas condições e o seu nível de vida.» Se é verdade que «a união faz a força», a praça de jorna comprova este ditado, afirmava Soeiro Pereira Gomes: «Naquela, o trabalhador sente a força da união dos seus companheiros; levanta a voz; teima; defende os seus direitos. Ao passo que, no pátio do patrão ou na sua casa, porque está isolado, o trabalhador sente-se fraco.»
No entanto, prosseguia, «não basta lançar a palavra de ordem de formação de novas praças e defesa das que existem. É preciso organizar as praças de jornas para a luta». Organização que seria assegurada pela criação de comissões de praça, que tratariam de «todas as condições de trabalho dos camponeses em praça»: ajuste de salários ou jornas; modo de execução de certos trabalhos; horário de trabalho e de sesta... Para desempenhar bem as suas funções, a comissão deveria manter um «estreito contacto com as massas camponesas, a fim de saber a tempo as suas disposições e garantir o seu apoio».


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