A necessidade da cultura física

A. Mello de Carvalho
O processo de construção de uma nova via para o desporto não se pode conseguir de uma forma irreflectida. A «filosofia espontânea» como conjunto de opiniões e atitudes mentais elaboradas de uma forma acrítica sobre um determinado fenómeno que caracteriza essa entidade vaga mas determinante constituída pela «opinião pública» é, normalmente, formada pela conjugação do resíduo informático, pelos hábitos tradicionais e pelo condicionamento cultural. Há muito tempo que está estabelecido que não é a melhor forma de orientar a acção.
A atitude habitual daqueles que estão ligados ao desporto subestima a reflexão e o estudo dos problemas por um lado e, por outro, recusa que essa reflexão, a existir, se refira directamente à vida, aos problemas concretos vividos no quotidiano. Esta dupla atitude é responsável pela maioria dos erros que têm sido cometidos, na medida em que é predominante. De facto, o desporto e a sua análise, seja de que tipo for, tem vivido em permanente dificuldade, agravada, entre nós, pelas profundas contradições que caracterizam o tempo presente.
Marca indelével de uma cultura dualista, que considerou, durante séculos, o corpo e o espírito como irredutivelmente separados, e desvalorizando completamente o primeiro como sede do que o de «animal» existe no homem, o desporto não necessita, em especial, nas suas relações com a sociedade, de qualquer teorização. Esta é mesmo considerada, normalmente, como uma «atrapalhação» de intelectuais incapazes de mergulharem as «mãos na massa» e de vestirem os fatos de treino e de suarem ao lado dos atletas.
A querela entre os «teóricos e os práticos» é antiga e, estamos em crer, acompanhou sempre a evolução desporto. No entanto, o teorizador burocrata dos grandes discursos de circunstância, era e é ouvido com o máximo respeito, nessas alturas, mas desde que se limite a transmitir e a defender as ideias, noções e opiniões já feitas e reproduzidas dentro do esquema dominante do «politicamente correcto».
Sobre este vazio doutrinário e conceptual construiu-se muitos mal entendidos. Mas, de acordo com a preocupação dominante, continua a predominar uma doutrina que aqui designamos por «espontânea», porque não assenta em nenhum tipo de reflexão e que é muito bem alimentada por quem pouco está interessado na democratização real da prática desportiva.

A análise do desporto não escapa à necessidade de se partir de uma visão crítica de uma sociedade no seu todo. A interpretação do fenómeno desportivo obedece às mesmas leis e exige os mesmos cuidados de análise de qualquer outro aspecto da prática social, ou seja, exige que se construa uma visão teórica que busca os seus fundamentos na prática, desde que orientada por uma concepção global da vida social e do significado das relações dos seres humanos que a constroem.
Significa isto que podem existir, e existem de facto, várias «teorias» explicativas da questão desportiva. E também várias doutrinas orientadoras da evolução que deve seguir, desde que não se reduza a actividade desportiva à sua vertente biologisante, pois, se assim for, cessa toda a necessidade de construir qualquer doutrina orientadora.
Por mais que a doutrina dominante nos queira fazer crer que é a única viável, histórica e cientificamente assente, convém não esquecer que se trata unicamente de uma ideologia. Como tal fornece um único ponto de vista sobre a realidade – neste caso, a daqueles que dominam.
Peguemos num exemplo concreto: está bem claro que o clube, tal como funciona na actualidade, não pode responder às necessidades das populações. A única solução possível é transformar-se numa unidade produtora de tipo empresarial, defende aquela perspectiva. Mas ao dizê-lo esquece-se, e tal esquecimento não é ocasional, de um aspecto essencial: isto, de facto, é verdade, mas referido exclusivamente a uma dada realidade sócio-económica – a que foi criada pelo neoliberalismo inteiramente comandada pela sede do lucro máximo. Noutra realidade em que a vertigem do consumismo mercantil não constitua o traço dominante da sociedade, não será isso que acontecerá.
A questão que agora temos de enfrentar, em relação ao clube como a todo o desporto e às práticas culturais no seu conjunto, é pesquisar e encontrar solução para que desempenhem as funções humanizadoras, conviviais e solidárias que devem ser as suas, no interior de uma realidade social que é extremamente adversa a estes valores. É este o desafio que têm de enfrentar e vencer os homens e as mulheres que continuam a pensar que é possível uma sociedade diferente, pelo menos mais equitativa e em que a solidariedade não é palavra vã, ao mesmo tempo que compreendem muito bem que muitos daqueles que defendem que estamos em plena «crise de valores» de facto afirmam que são eles que não os possuem, não os defendem e não os desejam.


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