Patinhar no lamaçal...
As notícias da crise mundial não param de chegar: fome, miséria, desemprego, falências em cadeia, angústia e medo. Só em Portugal, as estatísticas registam mais de 500 mil desempregados. São números que, no entanto, não traduzem a realidade. Há o desemprego puro e simples mas também aquele que se oculta no trabalho sem garantias, a termo incerto e mal pago ou é alimentado pelos roubos do lay-off. A miséria do País é tal que uma vez caído no desemprego o trabalhador muito dificilmente volta a trabalhar. Foi nisto que deu a treta do sucesso do capitalismo.
Como sempre acontece nestas crises, o reverso da medalha da miséria é a concentração das fortunas. Há os que perdem mas também há os que ganham. Há os que ficam sem nada e há especuladores, exploradores e oportunistas que patinham nas lamas do dinheiro malparado e trepam na vida em influência e em prestígio social. Que o diga Ratzinger que aproveitou o clima de corrupção generalizada que reina em Angola para trazer de lá uma basílica de 100 milhões de dólares e o projecto de uma concordata que permitirá ao Vaticano substituir-se às funções do Estado angolano na organização de toda a vasta área da acção social. Actualmente são grandes as afinidades entre o que se passa em Angola e o que acontece em Portugal. «Perita em Humanidades», tal como a doutrina a autodefine, a Igreja está atenta a todas as oportunidades para se infiltrar nas sociedades laicas, sabotar o poder político, instalar-se e reinar.
Em nome do combate
à pobreza na sociedade civil
O Vaticano e as igrejas nacionais usam uma estratégia comum. Fazem o discurso da denúncia da corrupção mas nunca chamam pelos seus nomes os corruptos.
Declaram que o fosso entre ricos e pobres é uma impiedade mas partilham no clube dos ricos (e com os mais ricos) as delícias da fortuna e do prazer. As igrejas cobrem com o manto da piedade a face dos pobres mas é com os ricos que elas se entendem.
É público e notório que em Angola, tal como em Portugal, o mundo financeiro é um imenso mar de lama. A igreja bem sabe que assim é porque controla e possui uma enorme rede de bancos e de interesses comerciais. Cá, como lá. Por isso, nunca aponta o dedo às desonestidades dos banqueiros fraudulentos nem menciona sequer as fraudes cometidas. Protege-os com o silêncio, embora saiba que a pobreza extrema das populações resulta da má distribuição da riqueza que dá a alguns o que a todos devia pertencer. Os bispos apercebem-se de que as crises financeiras abrem novas perspectivas nos caminhos do poder.
Um caso exemplar foi há dias divulgado nas colunas dos jornais. No âmbito do «combate à pobreza» e no patamar de miséria a que o capitalismo reduziu o País, a Cáritas (isto é, a Acção Social do Patriarcado) decidiu tomar medidas de excepção recuperando a velha experiência da Sopa dos Pobres com alguns retoques de pouco significado. É a «resposta social» da Igreja. No essencial ela passa, em primeiro lugar, pela instalação, nas dioceses e nas paróquias de centros de apoio onde se possam inscrever os pobres, os desempregados ou os sem-abrigo. Numa segunda fase, os pobres são agrupados nas paróquias das suas residências onde poderão «comer sem pagar» nos «refeitórios sociais» em tempos idos chamados «sopas dos pobres». Onde esses refeitórios ainda não existam, os desempregados e as famílias a seu cargo poderão pedir à Igreja senhas que lhes darão acesso a «cabazes de compras» fornecidos pelos supermercados. A Cáritas afirma que na actual fase o projecto está a ser financiado pela instituição. Mas esta «resposta social» da Igreja é muito dispendiosa e não pode ser garantida por muito tempo. É preciso que o Estado colabore com novos subsídios.
Ajudar, ser solidário, não é pecado nenhum. Mas deve denunciar-se e condenar-se severamente qualquer manobra que, a ocultas, tente atrelar ao carro senhorial os pobres, os fracos e os explorados. Compreende-se que, em termos de negócio e de estratégia o ensino, a saúde, a segurança social e o trabalho, constituam uma fatia apetecível. Mas ceder à ganância envolta num manto de caridade é afundar cada vez mais os frágeis alicerces da Democracia.
Como sempre acontece nestas crises, o reverso da medalha da miséria é a concentração das fortunas. Há os que perdem mas também há os que ganham. Há os que ficam sem nada e há especuladores, exploradores e oportunistas que patinham nas lamas do dinheiro malparado e trepam na vida em influência e em prestígio social. Que o diga Ratzinger que aproveitou o clima de corrupção generalizada que reina em Angola para trazer de lá uma basílica de 100 milhões de dólares e o projecto de uma concordata que permitirá ao Vaticano substituir-se às funções do Estado angolano na organização de toda a vasta área da acção social. Actualmente são grandes as afinidades entre o que se passa em Angola e o que acontece em Portugal. «Perita em Humanidades», tal como a doutrina a autodefine, a Igreja está atenta a todas as oportunidades para se infiltrar nas sociedades laicas, sabotar o poder político, instalar-se e reinar.
Em nome do combate
à pobreza na sociedade civil
O Vaticano e as igrejas nacionais usam uma estratégia comum. Fazem o discurso da denúncia da corrupção mas nunca chamam pelos seus nomes os corruptos.
Declaram que o fosso entre ricos e pobres é uma impiedade mas partilham no clube dos ricos (e com os mais ricos) as delícias da fortuna e do prazer. As igrejas cobrem com o manto da piedade a face dos pobres mas é com os ricos que elas se entendem.
É público e notório que em Angola, tal como em Portugal, o mundo financeiro é um imenso mar de lama. A igreja bem sabe que assim é porque controla e possui uma enorme rede de bancos e de interesses comerciais. Cá, como lá. Por isso, nunca aponta o dedo às desonestidades dos banqueiros fraudulentos nem menciona sequer as fraudes cometidas. Protege-os com o silêncio, embora saiba que a pobreza extrema das populações resulta da má distribuição da riqueza que dá a alguns o que a todos devia pertencer. Os bispos apercebem-se de que as crises financeiras abrem novas perspectivas nos caminhos do poder.
Um caso exemplar foi há dias divulgado nas colunas dos jornais. No âmbito do «combate à pobreza» e no patamar de miséria a que o capitalismo reduziu o País, a Cáritas (isto é, a Acção Social do Patriarcado) decidiu tomar medidas de excepção recuperando a velha experiência da Sopa dos Pobres com alguns retoques de pouco significado. É a «resposta social» da Igreja. No essencial ela passa, em primeiro lugar, pela instalação, nas dioceses e nas paróquias de centros de apoio onde se possam inscrever os pobres, os desempregados ou os sem-abrigo. Numa segunda fase, os pobres são agrupados nas paróquias das suas residências onde poderão «comer sem pagar» nos «refeitórios sociais» em tempos idos chamados «sopas dos pobres». Onde esses refeitórios ainda não existam, os desempregados e as famílias a seu cargo poderão pedir à Igreja senhas que lhes darão acesso a «cabazes de compras» fornecidos pelos supermercados. A Cáritas afirma que na actual fase o projecto está a ser financiado pela instituição. Mas esta «resposta social» da Igreja é muito dispendiosa e não pode ser garantida por muito tempo. É preciso que o Estado colabore com novos subsídios.
Ajudar, ser solidário, não é pecado nenhum. Mas deve denunciar-se e condenar-se severamente qualquer manobra que, a ocultas, tente atrelar ao carro senhorial os pobres, os fracos e os explorados. Compreende-se que, em termos de negócio e de estratégia o ensino, a saúde, a segurança social e o trabalho, constituam uma fatia apetecível. Mas ceder à ganância envolta num manto de caridade é afundar cada vez mais os frágeis alicerces da Democracia.