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Correia da Fonseca
Na passada sexta-feira, duzentos mil portugueses manifestaram-se em Lisboa. Contra a acção do Governo, mas decerto apercebendo-se de que o actual Governo português não é mais do que uma das muitas formas possíveis, e todas elas equivalentes entre si, de domínio sociopolítico exercido pela classe dominante no quadro de sociedades agora ditas «de mercado». Até é esclarecedor que o capitalismo, pelos vistos envergonhado de o ser, tentando porventura fazer esquecer um pouco os crimes e o sangue que por todo o mundo lhe marcam o monstruoso cadastro, tenha decidido esconder-se por detrás dessa palavra, «mercado». Foram, pois, duzentos mil em Lisboa. Como se sabe, o senhor primeiro-ministro disse que tamanho protesto foi obra do Partido Comunista Português e do BE, o que aliás foi um cumprimento excessivo. Porém, terá esquecido que pouca coisa sempre seriam os partidos que protestam e que, como é entre nós o caso do PCP, participam do projecto efectivamente global de mudar as sociedades, se a sua acção não radicasse na muito concreta realidade, isto é, se duzentos mil cidadãos não se apercebessem da razão que lhe habita as palavras e a luta. Aliás, ao contrário do que o senhor PM parece supor, os cidadãos não se manifestam pelo gosto desenfreado que tenham pelas manifestações, sendo praticamente certo que gostariam mais de, naquele dia que estava belíssimo, terem ido com a família para a praia ou para o campo, conforme os gostos e as proximidades. Mas ir para o campo e para a praia não está hoje ao alcance de qualquer um, custa dinheiro, é preciso ter um emprego, e também é preciso não estar paralisado pela angústia e pelo desespero como seguramente o estarão muitos trabalhadores portugueses.

O saco cinzento

Foram, pois, na sexta-feira, cerca de duzentos mil, e a televisão deu a notícia. Sem grandes entusiasmos, digamos que cumpriu o seu dever com d minúsculo. Ora, sucedeu que três dias depois começou numa pequena cidade austríaca de que não fixei o nome, o que aliás é muito grave, o julgamento de Josef Fritzl, acusado de durante anos ter mantido uma filha sequestrada e em regime de escravatura sexual. E para surpresa da minha incorrigível ingenuidade verifiquei que ao julgamento do sujeito austríaco foi dado muito mais tempo de antena naquela segunda-feira que à manifestação dos duzentos mil portugueses indignados na sexta-feira anterior. Percebe-se porquê: o Caso Fritzl, também chamado «O Caso do Monstro de Amstetten», reúne ingredientes por que a televisão é doidinha: sexo, violência, perversões, morte, horror. Casos destes não só atraem multidões de telespectadores mas também são analgésicos: têm a suprema utilidade de remeterem para um aparente plano secundário manifestações como a de sexta-feira. De onde, como aliás muito bem sabemos, o desequilíbrio entre os tempos de antena concedidos aos dois assuntos. Como, porém, não aparecem monstros de Amstetten todos os dias, nem sequer todos os meses, não têm as estações de TV outro remédio que não seja o de recorrerem a substitutos de fraca potência que mantenham alguns dos efeitos desejados. É o caso dos acidentes, sobretudo estimulantes das audiências quando as vítimas são crianças, e neste fim-de-semana houve pelo menos duas situações dessas, o que há-de ter sido considerado óptimo. Lembremos o tratamento jornalístico que foi dado por pelo menos duas operadoras de TV à morte de uma criança arrastada pelas águas numa praia do Norte do País. Começaram as notícias por falar em cinco crianças, embora acrescentando que quatro delas logo haviam ficado a salvo. Falar em cinco crianças chama mais gente que falar apenas de uma, e a palavra «cinco» foi ostensiva e repetidamente proferida. Ao longo de horas a notícia foi abrindo noticiários, mas com algumas diferenças: as crianças arrastadas pela onda passaram a ser sucessivamente quatro e três: o caso estava a perder força. Eis, porém, que a santa padroeira das redacções em crise de fim-de-semana terá ouvido preces, e uma outra notícia veio ajudar: um veículo com duas crianças despenhara-se por uma ribanceira de vinte metros e só por «milagre» elas não tinham morrido. Era a felicidade que voltava aos telenoticiários, mas não só a eles: Josef Fritzl mais as duas tragédias com crianças mais as notícias do futebol remeteriam a memória da manifestação para o saco cinzento dos factos esquecidos, pelo menos na cabecinha de muitos telespectadores. Era a vitória dos critérios jornalísticos do costume. Era a informação a que estamos habituados e com que, por vontade de alguns, estaríamos conformados.


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