Do negócio «universitário»

Francisco Silva
Dizia-me um meu conhecido (ou uma conhecida, o sexo é irrelevante para o efeito), um docente de uma universidade privada do nosso País, que, ao proporem entregar-lhe uma regência de cadeira - e, pela matéria de que se tratava, era seguramente daquelas cadeiras bastante atreitas a reprovações -, lhe chamaram desde logo a atenção para o facto de que teria de conseguir não chumbar os seus alunos. Que a avaliação teria de ser consentânea com o nível de conhecimentos dos alunos nas matérias da cadeira de forma a que fossem aprovados - neste caso não foi esclarecido se o exame e/ou os trabalhos respectivos poderiam ser realizados fora da universidade e os seus resultados enviados por fax, porque não quis fazer chacota do caso. E no caso contrário, isto é, no caso que não conseguissem passar, esses mesmos alunos - chamo-lhes alunos e não estudantes, como já devem ter notado; na verdade, na Alemanha explicaram-me, vai para quatro décadas, que, passando-se do Liceu para a Universidade, os discentes passavam de alunos a estudantes… e eu continuo com pudor a tratar por alunos os que o são de uma escola secundária, digamos, no máximo, avançada, onde, na maioria dos casos não se pratica a investigação científica, mas se repete a lenga-lenga das sebentas… não porque os alunos não conseguissem ser estudantes, mas os estabelecimentos para onde regra geral vão é que não lhes facultam as correspondentes condições -, esses mesmos alunos, dizia eu, sendo reprovados e reprovados tinham tendência para abandonar a universidade onde andavam… e lá desapareciam as receitas associadas à sua matrícula. Lá desapareciam os meios que a universidade necessitava para pagar - geralmente por baixo - os serviços prestados pelos docentes que são por ela empregados.
Já viram ao que se chegou? Mas não julguem que este foi o único caso de que tive informação directa. Outro caso, de semelhante tom, ocorrido com outra pessoa das minhas relações, também me foi referido, contado, muito recentemente. Lá na universidade onde esta pessoa dava aulas, uma outra universidade, claro, neste caso também privada, tinha a responsabilidade de ensinar uma cadeira de matéria diferente da do primeiro caso, mas uma matéria também atreita a bastantes reprovações, também a pressionaram para não chumbar os seus alunos. Esta pessoa, aliás, até me declarou que no ano seguinte não voltaria a dar aulas nessa universidade.
A questão é que a pessoa com quem se passou este segundo caso podia prescindir daqueles dinheiritos - que são poucos e propriamente nunca os chegou a receber -, o que não era bem o caso do meu conhecido citado em primeiro lugar. E não venham com questões deontológicas, porque quando as pessoas estão em situação de risco de pobreza, como agora se diz, com o pudor que temos visto e ouvido, não é fácil resistir a tais pressões que põem em causa o seu posto de trabalho. Tal é a violência que a sociedade exerce sobre estas pessoas. Reservem sobretudo as deontologias para os chamados tubarões que os há nas diversas profissões liberais, incluindo entre os professores universitários. Mas não é o caso da maioria. E nem todos conseguem ser heróis!
Foram portanto citados dois casos relativos a universidades privadas e nenhum que tivesse a ver com universidades públicas. De facto, ninguém de uma universidade pública me veio expor nenhuma situação análoga. Não posso, é certo, tirar conclusões sem mais. Nem que o fenómeno esteja generalizado, nem que se restrinja às universidades privadas. Se bem que tenha já ouvido falar deste mesmo fenómeno, doutros casos, aqui ou ali, em corredores de caserna, diria eu. Contudo, o autor destas linhas ficou preocupado e foi levado a especular - de certo modo, é um dever cidadão - sobre a informação captada, sempre com os cuidados que devem ser tidos em não generalizar, sem mais, como se fossem conclusões científicas, mas também, por outro lado, de não deitar liminarmente fora a informação que se recebeu, pelos sinais importantes através dela percebidos.
O que me parece é que, em particular num País como o nosso, a ideia de que as receitas de estabelecimentos de ensino superior podem e devem ser constituídas por pagamentos de propinas, e custos baixos, em particular em relação aos professores, que esse é que é o negócio, acaba por conduzir necessariamente a situações como as referidas. Sobretudo quando se trata das instituições mais débeis e com menos tradição no sistema, as que recebem os que foram eliminados das «principais» por razões de numerus clausus.


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