Não se fala de boca cheia

Ângelo Alves
Os «líderes» dos países membros da União Europeia reuniram-se «informalmente» ao almoço em Bruxelas para abordar a crise. Dizem as regras que quando se come não se fala e – claro está – etiqueta é o que não falta por aquelas bandas. As conclusões do encontro/almoço são mais do mesmo: o mercado tem de funcionar o mais aberto possível, mas a palavra regulação tem de aparecer; a solução passa pelo «desbloqueamento dos canais de crédito», ou seja mais endividamento; há que ajudar o grande capital mas a União Económica e Monetária não pode ser posta em causa; o Pacto de Estabilidade tem de se salvar - nem que seja no essencial - e, finalmente, o que é preciso é mais União Europeia para fazer frente à crise.
Ao café lá se terão discutido alguns dos desaguisados em torno de como continuar a entregar milhões à banca e ao sector automóvel. Os países de Leste viram negada pela Alemanha (e portanto pelos 27) uma «ajuda» específica ao seu sector financeiro, mas terão como contrapartida o «presente» da aceleração da sua entrada para a Zona Euro. No dia anterior ao repasto - porque estas coisas não se tratam assim do pé pra mão – já a França havia garantido o «agreement» da comissão para entregar uns milhões às grandes multinacionais francesas do sector automóvel. Mas atenção, os 27 foram muito claros! Não há cá proteccionismo nem «egoísmos» nacionais! Por isso os «líderes» saudaram as medidas da comissão para «coordenar políticas de renovação da frota automóvel».
Supomos nós que por alturas do digestivo a discussão terá ficado mais «solta». Teixeira dos Santos - que substituía Sócrates enquanto este realizava um show em Espinho denominado de Congresso Nacional do PS - terá levantado a questão dos Offshores. Curiosamente a palavra não aparece no comunicado de imprensa conjunto, mas Teixeira dos Santos não desistiu e até explicou como se deveria acabar com esse forrobodó: acabar com todos, menos com o da Madeira, que é especial.
O impacto social da crise terá sido discutido já por alturas de dividir a conta. Só assim se explica que o comunicado à imprensa refira que os comensais «líderes» tenham acordado «Aproveitar a cimeira extraordinária (..) agendada para finais da Primavera, para definir (…) orientações e medidas concretas susceptíveis de atenuar o impacto da crise em termos sociais e de emprego.» Temos tempo!


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