Um dia em Pequim (conclusão)

Francisco Mota
Para as minhas jovens amigas Yusha e Yumeng, para que vivam num mundo e numa China mais justa e fraternal.

Sempre ouvimos falar do pato à Pequim. Eu já tinha comido várias variantes em vários restaurantes de Beijing. Alguns restaurantes são solenes e quase armas diplomáticas, porque todas as pessoas politicamente importantes do mundo o terão que comer aí. Outros são mais populares, baratos e são conhecidos pela sua qualidade e boa interpretação da receita. Desde há uns anos existe na China um novo restaurante – o Da Dong – que é, segundo muita gente, o melhor restaurante de Beijing.
Comecemos pelo princípio: o Sr. Da Dong (tradução «o grande Dong») trabalhou durante muitos anos num desses restaurantes – arma diplomática e chegou à conclusão de que para fazer um bom pato assado e laqueado há duas condições. A saber: 1. Que a gordura do pato se dissolva dentro da carne; 2. Que a pele fique totalmente lisa e estaladiça, sem um mínimo de rugas. Tinha que transformar a velha receita imperial da cozinha mandarim.
Assim, mudou os tempos de lavagem e secagem dos patos, que são vários e duram um ou dois dias. Também deixou de introduzir ar debaixo da pele, para que ela inche. Os patos chegam às portas dos fornos secos, sem nenhuma humidade e de pele lisa. São pintados com uma mistura de açúcar escuro e água e introduzidos no forno durante oitenta a noventa minutos. A lenha dos fornos é outro assunto fundamental: tem que ser de árvores de fruto, sobretudo duma que dá um fruto de nome «date». Os tempos de cozimento normais são de quarenta a cinquenta minutos.
Assim chega-nos o pato lindo e com a pele castanha/dourada que o cortador (pessoa importante do processo) cortará diante de nós em três ou quatro minutos, com mão firme e gestos automáticos. Uma vez, para me armar em esperto, disse: cortou em 92 bocados! A resposta foi imediata: Não, em 108. Como é que sabe?, perguntei. São sempre 108! respondeu secamente.
Numa espécie de panquecas colocaremos um pouco de pato, molhado em molho de soja, uns talos de pepino, beterraba, alho francês todos de uns cinco centímetros de comprimento e uma secção de milímetros quadrados. Também se pode pôr mais açúcar, mas nunca sal. O sal não entra nunca neste prato.
O melhor e antes o único que se comia do pato era a pele, que se nos apresenta em bocadinhos de um centímetro quadrado.
Quando a China tinha imperadores, estes não diziam o que queriam comer. Assim, a todas as refeições eram-lhes apresentados cerca de cem pratos para que escolhessem. Sabe-se de algum que só comia dois ou três quadradinhos de pele, mais nada.
Comemos mais outros pratos além do pato. Neste Da Dong, a lista principal deve pesar cerca de um Kg. É muito bem feita e realmente bela. Pelo seu peso e tamanho e também inroubável. A única coisa «não-chinesa» que fizemos foi beber uma garrafa de tinto da Austrália, um cabernet-sauvignon de Penfolds. Grande vinho e que bem acompanhava a comida.
Bem comidos e bem bebidos, o meu amigo Wang contou-me a última anedota que circula por Beijing. Diz assim: Em 1949 só o socialismo podia salvar a China. Em 1979 só o capitalismo podia salvar a China. Em 1989 só a China podia salvar o socialismo. Em 2009 só a China pode salvar o capitalismo. Tem a sua piada e ainda por cima todos os anos terminam em 9, o número máximo dos chineses.
O meu amigo Wang tinha ainda outra proposta: ir ao Palácio de Verão. Para ser sincero não me apetecia muito, mas o entusiasmo dele convenceu-me. Trata-se de outro enorme parque com um lago de muitos hectares que uma imperatriz de nome Cixi fez construir à semelhança de outro que existe em Hangzhou, cidade do Sul a que Beijing está ligada por um «pequeno» canal de quase dois mil kms. Isto tudo no princípio do século XV. A sra. imperatriz gastou todo o dinheiro das arcas do Estado neste caprichinho, de que agora as autoridades locais tiram bom proveito cobrando entrada aos milhões de turistas que o visitam todos os anos.
O Wang queria andar, mas eu, cansado dum dia sem trabalho que começou às sete da manhã, preferi sentar-me. Ali fiquei a olhar para a água, para uma ponte que cruza o lago com os seus 17 arcos todos diferentes, para um grande barco em tamanho natural amarrado a terra, todo construído em mármore, para as pessoas sempre muitas e incansáveis. Que coisas, que gentes!
Ao sair, vimos um pintor-poeta como tantos na China. Com um pincel grande e um balde de água desenhava no chão um poema. Que diz, Wang? Escreve depressa, respondeu: Vejo o sol a nascer na montanha Tin / Vejo o sol a pôr-se ao longe do Palácio de Verão / Vejo o azul no céu branco / Vejo o verde na alma / Vejo o vermelho a correr na vida / Sinto a vida em sete cores / Provo o amor nos cinco sabores / Cheiro a tranquilidade nas três camadas / A vida inteira é minha.
Quando quis rever os primeiros versos, já se tinham apagado.


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