Ruínas

Jorge Cordeiro
A engenhosa expressão da jornalista da RTP presente em Israel para cobrir a guerra contra o povo palestino segundo a qual «Hamas tomou (anote-se o sentido do termo) o poder nas eleições» é apenas uma tímida ilustração verbal da intolerável parcialidade e cumplicidade com que a maioria da comunicação social vem secundando a criminosa acção do Estado de Israel. Uma por uma são repetidas diariamente as teses israelitas para sustentar a agressão – desde a da «legítima defesa em resposta à acção terrorista palestiniana», à da condição de «sobrevivência» do Estado de Israel – ou difundidas ideias que procuram modelar a opinião pública aos interesses sionistas (mesmo que cruamente desmentidas pela realidade) como sejam as da «destruição das cidades israelitas» ou «o poderio militar do Hamas» num exercício de nivelamento de causas e consequências que a realidade e as próprias imagens negam. Uma parcialidade que dá legitimidade à interrogação sobre os limites a partir dos quais já não é possível assegurar se nos encontramos apenas perante casos de irreprimível simpatia com o regime sionista ou face a bem sucedidos recrutamentos da Mossad. De lado fica, sacrificada à máquina informativa dominante, a verdade: a impunidade de Israel pelo incumprimento das sucessivas resoluções das Nações Unidas quanto ao direito dos palestinos a um Estado soberano e independente; a arbitrária colonização do território da Palestina e a sua transformação num verdadeiro campo de concentração; o genocídio em curso contra o povo palestino perante a passiva contemplação da ONU e da União Europeia e a activa atitude de apoio da administração norte-americana. A par do imenso mar de ruínas a que está a ser reduzida Gaza, também a caminho de ruir ficam, para aqueles que as alimentavam, as expectativas sobre Obama. Após a esfarrapada desculpa de que nos EUA só há um presidente de cada vez, para justificar o seu silêncio – quando em todas as outras matérias, da económica ao Iraque, age e fala como se em efectivo exercício estivesse –, as embrulhadas generalidades agora proferidas por Obama, que mal o retiram do silêncio anterior, mal disfarçam o que une de facto os inquilinos, actuais e futuros, da Casa Branca.


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