A Igreja acerta o passo
Até aqui tem sido chocante o prolongado silêncio da hierarquia católica acerca da mais profunda crise de sempre do sistema capitalista. O fosso entre pobres e ricos atingiu dimensões nunca vistas, há uma explosão da pobreza e sucedem-se os gigantescos escândalos financeiros. A utópica «sociedade global» ameaça desmoronar-se. E nota-se já, à vista desarmada, que a sucessão de acontecimentos dramáticos em cadeia se acelera e que importa encontrar maneira de ocupar espaços abertos no mundo capitalista de amanhã. Porque o capitalismo, uma vez corrigidos os seus erros de percurso, sobreviverá, acredita a hierarquia católica. A Igreja tem uma palavra a dizer, um passo a acertar e metas a propor aos seus parceiros. Por isso mesmo, claros indícios apontam agora para uma mudança de atitude no voto de silêncio. Num universo em transformação, sempre nos quadros do capitalismo, é preciso mudar, assumir lideranças sociais mas sem romper com os complexos interesses que sempre ligaram o capital financeiro e a esfera religiosa.
O ano que se aproxima terá contornos de tragédia, repita-se. Todas as opiniões vão no sentido desta previsão. Portanto, é chegada a hora de fazer-se avançar no tablado político a chamada «sociedade civil» que é a própria igreja. Tempo de reclamarem-se novos espaços livres para as formações confessionais. Altura da igreja assumir a liderança da luta anti-pobreza, embora negando o sentido de esmola piedosa que ela possa conter. Hora da tiara se substituir ao Estado, discretamente, na nova arrumação das áreas sociais que mais lhe interessam. O mundo de amanhã será capitalista mas pelo meio haverá um doloroso parto que importa preparar com êxito. Tudo terá de ser feito desarticulando as inevitáveis lutas de classes que preludiam transformações marxistas em todo o mundo.
O Vaticano bem sabe que nestes contextos é esse o seu papel histórico.
A Comissão Justiça e Paz, importante estrutura da Conferência Episcopal Portuguesa ligada ao Vaticano e à rede mundial sócio-caritativa, publicou recentemente uma série de brochuras com temas essencialmente centrados na luta contra a pobreza. Do articulado deste trabalho (aliás, muito bem elaborado) poderão deduzir-se alguns objectivos centrais reveladores da forma como a hierarquia define a natureza da crise actual do capitalismo e se propõe lançar as estratégias que permitirão, a médio prazo, «dar a volta por cima» a esta ameaçadora situação, mantendo e aumentando os privilégios da Igreja e fornecendo ao capitalismo global uma «face humana» que lhe permita sobreviver. Completam-se estas informações com o sentido de certas perspectivas dias depois avançadas na TV por D. José Policarpo.
A primeira grande dúvida, quase metafísica, consiste em interrogarem-se os prelados e a «sociedade civil» sobre a verdadeira natureza da crise internacional. Será problema interno do sistema capitalista, grave mas acidental e resolúvel? Ou, pelo contrário, a crise terá raízes profundas no próprio sistema, prenunciando a sua definitiva extinção? Os cardeais dizem que sobre isto não têm certezas nem a sua missão decorre na esfera da economia e da política.
O segundo problema de fundo é «que fazer»? Nesta área, as respostas podem ser mais facilmente encontradas pela Igreja. São terrenos onde o clero tem uma longa experiência anterior. É preciso ouvir e socorrer os pobres, contestar a impunidade dos ricos, aperfeiçoar o sistema democrático criando no seu interior amplos «espaços livres» e delegando na «sociedade civil» não-lucrativa poderes de intervenção que ela por enquanto não possui. Sem se esquecer que a Igreja «é perita em Humanidades», extensão que não tem fronteiras.
No desenvolvimento destes raciocínios «de serviço e de missão», o pensamento doutrinal vira-se então para o mundo real. É evidente que são graves os riscos da desigual distribuição da riqueza, geradores a médio ou longo prazo dos climas de confrontação social. Mas o perigo pode ser esconjurado. Faltam aos pobres não só os meios materiais de sobrevivência mas também a capacidade reivindicativa, a informação, as alternativas válidas, as formas de organização ou as referências ideológicas e científicas a que adiram voluntariamente e livremente possam desenvolver. A estes condicionamentos amplamente negativos a crise vem sobrepor problemas de inserção, de iliteracia, de desemprego, de saúde, de segurança social, etc., etc. Os pobres vivem uma situação de pré-catástrofe. Que poderá ser feito para que os ricos surjam como seus salvadores ?
Grande é a perplexidade da Igreja. Mas enorme, também, a sua fé nos êxitos futuros. «Tudo se arranjará!», pensam os bispos.
O ano que se aproxima terá contornos de tragédia, repita-se. Todas as opiniões vão no sentido desta previsão. Portanto, é chegada a hora de fazer-se avançar no tablado político a chamada «sociedade civil» que é a própria igreja. Tempo de reclamarem-se novos espaços livres para as formações confessionais. Altura da igreja assumir a liderança da luta anti-pobreza, embora negando o sentido de esmola piedosa que ela possa conter. Hora da tiara se substituir ao Estado, discretamente, na nova arrumação das áreas sociais que mais lhe interessam. O mundo de amanhã será capitalista mas pelo meio haverá um doloroso parto que importa preparar com êxito. Tudo terá de ser feito desarticulando as inevitáveis lutas de classes que preludiam transformações marxistas em todo o mundo.
O Vaticano bem sabe que nestes contextos é esse o seu papel histórico.
A Comissão Justiça e Paz, importante estrutura da Conferência Episcopal Portuguesa ligada ao Vaticano e à rede mundial sócio-caritativa, publicou recentemente uma série de brochuras com temas essencialmente centrados na luta contra a pobreza. Do articulado deste trabalho (aliás, muito bem elaborado) poderão deduzir-se alguns objectivos centrais reveladores da forma como a hierarquia define a natureza da crise actual do capitalismo e se propõe lançar as estratégias que permitirão, a médio prazo, «dar a volta por cima» a esta ameaçadora situação, mantendo e aumentando os privilégios da Igreja e fornecendo ao capitalismo global uma «face humana» que lhe permita sobreviver. Completam-se estas informações com o sentido de certas perspectivas dias depois avançadas na TV por D. José Policarpo.
A primeira grande dúvida, quase metafísica, consiste em interrogarem-se os prelados e a «sociedade civil» sobre a verdadeira natureza da crise internacional. Será problema interno do sistema capitalista, grave mas acidental e resolúvel? Ou, pelo contrário, a crise terá raízes profundas no próprio sistema, prenunciando a sua definitiva extinção? Os cardeais dizem que sobre isto não têm certezas nem a sua missão decorre na esfera da economia e da política.
O segundo problema de fundo é «que fazer»? Nesta área, as respostas podem ser mais facilmente encontradas pela Igreja. São terrenos onde o clero tem uma longa experiência anterior. É preciso ouvir e socorrer os pobres, contestar a impunidade dos ricos, aperfeiçoar o sistema democrático criando no seu interior amplos «espaços livres» e delegando na «sociedade civil» não-lucrativa poderes de intervenção que ela por enquanto não possui. Sem se esquecer que a Igreja «é perita em Humanidades», extensão que não tem fronteiras.
No desenvolvimento destes raciocínios «de serviço e de missão», o pensamento doutrinal vira-se então para o mundo real. É evidente que são graves os riscos da desigual distribuição da riqueza, geradores a médio ou longo prazo dos climas de confrontação social. Mas o perigo pode ser esconjurado. Faltam aos pobres não só os meios materiais de sobrevivência mas também a capacidade reivindicativa, a informação, as alternativas válidas, as formas de organização ou as referências ideológicas e científicas a que adiram voluntariamente e livremente possam desenvolver. A estes condicionamentos amplamente negativos a crise vem sobrepor problemas de inserção, de iliteracia, de desemprego, de saúde, de segurança social, etc., etc. Os pobres vivem uma situação de pré-catástrofe. Que poderá ser feito para que os ricos surjam como seus salvadores ?
Grande é a perplexidade da Igreja. Mas enorme, também, a sua fé nos êxitos futuros. «Tudo se arranjará!», pensam os bispos.