Coragem e firmeza
No momento em que se assinalam os 90 anos do nascimento de Afonso Gregório, destacado militante e dirigente do PCP, o Avante! recorda alguns aspectos da sua vida e do percurso deste revolucionário, a quem os maus tratos sofridos na prisão roubaram vigor e saúde, mas não a firmeza e a coragem. Faleceu em Fevereiro de 1996.
Afonso da Silva Gregório nasceu na Marinha Grande a 20 de Outubro de 1918. Como muitas crianças da sua geração, nunca o foi verdadeiramente: tornou-se operário cedo demais, forçado pelas difíceis condições de vida com que a sua família, como outras, se deparava. Com apenas cinco anos, ia ao colo do seu irmão mais velho – o destacado dirigente comunista José Gregório – trabalhar para a indústria vidreira, como aprendiz. Aos 21 anos, tornava-se operário especializado.
Na cidade do vidro, a classe operária era particularmente organizada e combativa. Os primeiros anos da década de 30 do século passado são de grandes dificuldades e de luta. Mais cedo do que noutras localidades operárias, os comunistas tomaram o lugar dos anarco-sindicalistas na vanguarda das associações de classe locais. E é já com o PCP à frente que os operários marinhenses tomam o controlo da vila a 18 de Janeiro de 1934, decretando o «soviete». Seriam esmagados pela brutal repressão. No resto do País, o levantamento – que se pretendia nacional – contra a fascização dos sindicatos ficaria muito longe de atingir estas proporções.
Todo este ambiente revolucionário e vivência de operário não passa ao lado de Afonso Gregório, que adere ao PCP.
Em 1946, com 28 anos, toma a decisão que marcaria indelevelmente toda a sua vida – entra para o quadro de funcionários do Partido e passa à clandestinidade. Como afirmaria, no seu funeral, realizado a 10 de Fevereiro de 1996, Fernando Blanqui Teixeira, «o seu espírito claro, a experiência que já tinha como operário numa terra de operários e de lutas contra o fascismo e, possivelmente, também o exemplo do seu irmão mais velho, José Gregório, então destacado dirigente do Partido, tinham-lhe, naturalmente, feito compreender que a dedicação inteira à luta dos trabalhadores, nos lugares mais arriscados, era uma forma bela de levar a vida».
Vida clandestina
No dia 16 de Abril de 1954, Afonso Gregório conhece aquela que seria a sua companheira por mais de 40 anos, Teodósia da Conceição Vagarinho, que ainda hoje desempenha tarefas na sede nacional do Partido. Filha de camponeses de São Cristóvão, em Montemor-o-Novo, e ela própria trabalhadora agrícola desde os nove anos, Teodósia aceitou ir para a clandestinidade e foi enviada para Lisboa, para a casa onde então viviam Afonso Gregório e Aida Magro, na zona da Alameda. «Cheguei lá de tarde, mas ele só chegou às 10 da noite», recorda.
Poucos dias depois, mudam-se para uma casa em Caneças. Em breve, Aida Magro ruma para outras paragens e outras tarefas e Afonso e Teodósia ficam a viver juntos, fingindo ser marido e mulher. Menos de um ano depois do primeiro encontro, tornavam-se, efectivamente, companheiros.
Nestes primeiros anos de vida em comum, lembra Teodósia Gregório, mudaram várias vezes de casa e de cidade, assim as tarefas partidárias de Afonso Gregório ou as necessidades de defesa conspirativa a isso obrigassem. Lisboa, Porto, Algarve, Almada foram alguns dos locais onde viveram.
Em Setembro de 1957, no V Congresso do Partido, realizado no Estoril, Afonso Gregório foi eleito para o Comité Central do Partido.
No dia 8 de Março de 1959, nasce o filho de ambos (o segundo de Afonso Gregório), José Manuel. Mas o dirigente do Partido gozar-se-ia pouco do seu filho: a 29 de Agosto, é preso pela PIDE e enviado para a cadeia do Aljube e, mais tarde, para o Forte de Peniche. Julgado em Novembro de 1960, é condenado «na pena de 8 anos de prisão maior, na suspensão dos direitos políticos, durante 16 anos, na medida de segurança de internamento, indeterminado, de 6 meses a 3 anos, prorrogável», como se lê na sua ficha prisional.
Teodósia lembra-se do dia da prisão do companheiro. «Vivíamos há pouco tempo na Malveira. Ele saiu às 5 da manhã e era suposto voltar à noite. Não voltou.» Tal como tinham combinado, Teodósia esperou três dias e mudou-se, com o filho, para a casa de uns camaradas que viviam em Torres Vedras – a mesma casa onde dera à luz o seu filho. Foi aí que teve a confirmação do que, no íntimo, já sabia: Afonso tinha sido preso!
Prisão e maus tratos
Durante todo o cativeiro, Afonso Gregório foi submetido a violentas torturas e maus tratos, que arrasariam por completo a sua saúde, particularmente um problema nervoso, de que já padecia – e que o tinha levado, em 1956, a fazer um tratamento do sono – mas que foi severamente agravado na prisão. «Nunca mais foi o mesmo. Tinha tremores e nos dias piores tinha que andar amparando-se nas paredes.»
«Não denunciou nada», garantiu Teodósia. «Fui desmontar a casa onde vivíamos e não tinha sido assaltada.»
Com Afonso preso, a companheira permaneceu na clandestinidade. Após a separação forçada do companheiro, Teodósia teve que se separar também do filho, enviado com quatro anos para casa dos avôs maternos. Foi com esta idade que José Manuel conheceu o pai.
Em Março de 1969, na sequência de uma campanha internacional de solidariedade, Afonso Gregório foi libertado, extremamente debilitado e fragilizado. Teodósia juntou-se a ele em Setembro desse ano, em casa dos seus pais, no Alentejo. Não se viam há dez anos.
Em Maio de 1973, o casal sai do País para que Afonso se possa tratar. A PIDE não permite que o filho os acompanhe. Após o internamento na União Soviética, Afonso e Teodósia vêem-se impossibilitados de regressar ao País – em Portugal, Afonso seria preso e, provavelmente, morreria no cativeiro, dado o seu frágil estado de saúde. Decidem, então, fixar-se na Bélgica.
A liberdade e os últimos anos
Foi neste país que o casal toma conhecimento do 25 de Abril. Teodósia chega a Portugal no 1.º de Maio, integrada numa excursão, e não volta a sair. Afonso Gregório chegaria poucos dias depois.
Já em liberdade, desempenham tarefas centrais na primeira sede do Partido, na Rua António Serpa, em Lisboa. Após uma breve passagem pela Parede, no concelho de Cascais, vão abrir a escola do Partido, no Lumiar.
Mas os médicos desaconselham esta actividade e Afonso e Teodósia Gregório mudam de tarefas. Do Lumiar para o Centro de Trabalho Vitória, e daí para a sede nacional. Mas o estado de saúde de Afonso Gregório, arrasada pelos dez anos de duro cativeiro, afasta-o cada vez mais de uma actividade diária intensa.
Morreu a 7 de Fevereiro de 1996.
Na cidade do vidro, a classe operária era particularmente organizada e combativa. Os primeiros anos da década de 30 do século passado são de grandes dificuldades e de luta. Mais cedo do que noutras localidades operárias, os comunistas tomaram o lugar dos anarco-sindicalistas na vanguarda das associações de classe locais. E é já com o PCP à frente que os operários marinhenses tomam o controlo da vila a 18 de Janeiro de 1934, decretando o «soviete». Seriam esmagados pela brutal repressão. No resto do País, o levantamento – que se pretendia nacional – contra a fascização dos sindicatos ficaria muito longe de atingir estas proporções.
Todo este ambiente revolucionário e vivência de operário não passa ao lado de Afonso Gregório, que adere ao PCP.
Em 1946, com 28 anos, toma a decisão que marcaria indelevelmente toda a sua vida – entra para o quadro de funcionários do Partido e passa à clandestinidade. Como afirmaria, no seu funeral, realizado a 10 de Fevereiro de 1996, Fernando Blanqui Teixeira, «o seu espírito claro, a experiência que já tinha como operário numa terra de operários e de lutas contra o fascismo e, possivelmente, também o exemplo do seu irmão mais velho, José Gregório, então destacado dirigente do Partido, tinham-lhe, naturalmente, feito compreender que a dedicação inteira à luta dos trabalhadores, nos lugares mais arriscados, era uma forma bela de levar a vida».
Vida clandestina
No dia 16 de Abril de 1954, Afonso Gregório conhece aquela que seria a sua companheira por mais de 40 anos, Teodósia da Conceição Vagarinho, que ainda hoje desempenha tarefas na sede nacional do Partido. Filha de camponeses de São Cristóvão, em Montemor-o-Novo, e ela própria trabalhadora agrícola desde os nove anos, Teodósia aceitou ir para a clandestinidade e foi enviada para Lisboa, para a casa onde então viviam Afonso Gregório e Aida Magro, na zona da Alameda. «Cheguei lá de tarde, mas ele só chegou às 10 da noite», recorda.
Poucos dias depois, mudam-se para uma casa em Caneças. Em breve, Aida Magro ruma para outras paragens e outras tarefas e Afonso e Teodósia ficam a viver juntos, fingindo ser marido e mulher. Menos de um ano depois do primeiro encontro, tornavam-se, efectivamente, companheiros.
Nestes primeiros anos de vida em comum, lembra Teodósia Gregório, mudaram várias vezes de casa e de cidade, assim as tarefas partidárias de Afonso Gregório ou as necessidades de defesa conspirativa a isso obrigassem. Lisboa, Porto, Algarve, Almada foram alguns dos locais onde viveram.
Em Setembro de 1957, no V Congresso do Partido, realizado no Estoril, Afonso Gregório foi eleito para o Comité Central do Partido.
No dia 8 de Março de 1959, nasce o filho de ambos (o segundo de Afonso Gregório), José Manuel. Mas o dirigente do Partido gozar-se-ia pouco do seu filho: a 29 de Agosto, é preso pela PIDE e enviado para a cadeia do Aljube e, mais tarde, para o Forte de Peniche. Julgado em Novembro de 1960, é condenado «na pena de 8 anos de prisão maior, na suspensão dos direitos políticos, durante 16 anos, na medida de segurança de internamento, indeterminado, de 6 meses a 3 anos, prorrogável», como se lê na sua ficha prisional.
Teodósia lembra-se do dia da prisão do companheiro. «Vivíamos há pouco tempo na Malveira. Ele saiu às 5 da manhã e era suposto voltar à noite. Não voltou.» Tal como tinham combinado, Teodósia esperou três dias e mudou-se, com o filho, para a casa de uns camaradas que viviam em Torres Vedras – a mesma casa onde dera à luz o seu filho. Foi aí que teve a confirmação do que, no íntimo, já sabia: Afonso tinha sido preso!
Prisão e maus tratos
Durante todo o cativeiro, Afonso Gregório foi submetido a violentas torturas e maus tratos, que arrasariam por completo a sua saúde, particularmente um problema nervoso, de que já padecia – e que o tinha levado, em 1956, a fazer um tratamento do sono – mas que foi severamente agravado na prisão. «Nunca mais foi o mesmo. Tinha tremores e nos dias piores tinha que andar amparando-se nas paredes.»
«Não denunciou nada», garantiu Teodósia. «Fui desmontar a casa onde vivíamos e não tinha sido assaltada.»
Com Afonso preso, a companheira permaneceu na clandestinidade. Após a separação forçada do companheiro, Teodósia teve que se separar também do filho, enviado com quatro anos para casa dos avôs maternos. Foi com esta idade que José Manuel conheceu o pai.
Em Março de 1969, na sequência de uma campanha internacional de solidariedade, Afonso Gregório foi libertado, extremamente debilitado e fragilizado. Teodósia juntou-se a ele em Setembro desse ano, em casa dos seus pais, no Alentejo. Não se viam há dez anos.
Em Maio de 1973, o casal sai do País para que Afonso se possa tratar. A PIDE não permite que o filho os acompanhe. Após o internamento na União Soviética, Afonso e Teodósia vêem-se impossibilitados de regressar ao País – em Portugal, Afonso seria preso e, provavelmente, morreria no cativeiro, dado o seu frágil estado de saúde. Decidem, então, fixar-se na Bélgica.
A liberdade e os últimos anos
Foi neste país que o casal toma conhecimento do 25 de Abril. Teodósia chega a Portugal no 1.º de Maio, integrada numa excursão, e não volta a sair. Afonso Gregório chegaria poucos dias depois.
Já em liberdade, desempenham tarefas centrais na primeira sede do Partido, na Rua António Serpa, em Lisboa. Após uma breve passagem pela Parede, no concelho de Cascais, vão abrir a escola do Partido, no Lumiar.
Mas os médicos desaconselham esta actividade e Afonso e Teodósia Gregório mudam de tarefas. Do Lumiar para o Centro de Trabalho Vitória, e daí para a sede nacional. Mas o estado de saúde de Afonso Gregório, arrasada pelos dez anos de duro cativeiro, afasta-o cada vez mais de uma actividade diária intensa.
Morreu a 7 de Fevereiro de 1996.