Trabalhadores carregam fardo da crise
Cerca mil milhões de pessoas em todo o mundo passam fome, 190 milhões estão desempregados ou laboram em condições de precariedade, aumentando o risco de caírem na indigência.
Oito por cento dos europeus empregados vivem abaixo do limiar da pobreza
Os números foram confirmados a semana passada pela Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), e indicam que em todo o mundo 923 milhões de seres humanos passam fome, cifra agravada em pelo menos 75 milhões de pessoas resultado do aumento do preço dos alimentos, da subida do valor das matérias-primas (52 por cento face a 2006) e do petróleo (que praticamente duplicou em um ano e meio), diz a FAO.
Para este acréscimo contribuiu uma combinação de factores intrínsecos ao modelo de produção capitalista, entre os quais a sobreprodução e a cada vez mais desigual distribuição do rendimento; a exaustão dos recursos, sobretudo do petróleo, cuja dependência energética da cadeia produtiva se reflecte desde a extracção de matérias-primas até ao transporte e distribuição de produtos acabados; a depauperação dos solos e o desvio de parcelas férteis para alegados substitutos dos combustíveis fósseis (a produção de agrocombustíveis «comeu» 100 milhões de toneladas de cereais, afirma a FAO); a aquisição de terrenos de qualidade por parte de países detentores de capital-dinheiro interessados em assegurar o aprovisionamento alimentar futuro; a transferência de activos da esfera especulativa para as transacções nestes mercados, operada pelo capital financeiro em busca de válvulas de escape para a crise mundial da «economia de casino».
Na América Latina, o combate à fome retrocedeu, existindo neste momento 51 milhões de pessoas nessa condição.
A Ásia e a África acumulam 89 por cento da população faminta, sendo exemplos chocantes do sistema capitalista os 15 países subsaarianos com mais de 35 por cento da população em regime de carência alimentar extrema, ou a Índia, que com os seus 200 milhões de esfaimados contribui para um quinto do total mundial.
Ainda de acordo com a FAO, os investimentos na agricultura caíram de 17% para 3% entre 1980 e 2006, ao passo que a população mundial aumentou, no mesmo período, em 78,9 milhões.
Sem resposta
No início do ano, a FAO promoveu em Roma um encontro destinado a sensibilizar as potências capitalistas para o drama da fome, procurando paliativos de emergência. O propósito não foi objectivamente cumprido, já que de acordo com a Agência, em 2008, a ajuda alimentar internacional caiu a seu nível mais baixo em 40 anos.
O Programa Alimentar Mundial (PAM), neste momento, chega a escassos 90 milhões de pessoas, na sua quase totalidade refugiados, e ainda assim, dada a inflação no preço dos alimentos, o total de calorias por adulto foi reduzido, passando das 2200 recomendadas pela Organização Mundial de Saúde para as 1600 diárias, informou Jean Ziegler, em declarações à agência France Press.
Reagindo aos dados vindos a público, o responsável foi peremptório ao afirmar que os objectivos do milénio, fixados em 2000 pela ONU, não vão ser alcançados em 2015, e criticou as principais potências mundiais por não terem destinado 82 mil milhões de dólares por ano para responder à fome quando, meses depois, decidiram injectar milhões no sistema financeiro. O facto «fará crescer o ódio face ao “Ocidente” nos países pobres», acrescentou.
O relator das Nações Unidas para o Direito à Alimentação lembrou também as revoltas populares em mais de 40 países devido ao crescimento do preço dos alimentos e referiu-se criticamente aos agrocombustíveis, explicando que «para se obter 50 litros de bioetanol são necessários um mínimo de 358 quilos de milho».
Desemprego e miséria no «mundo desenvolvido»
Mas a fome e a miséria não se cinge aos países ditos subdesenvolvidos. Nos EUA, o epicentro da actual crise, a acompanhar a subida da taxa de desemprego está o acréscimo de pessoas que sobrevivem graças a senhas de alimentação, as quais, estima o ministério da Agricultura norte-americano, ascendem já aos 29 milhões.
Este valor – atingido com as estatísticas relativas ao mês de Julho, ou seja, sem considerar ainda as consequências para o povo norte-americano dos desenvolvimentos da crise capitalista nos meses de Agosto e Setembro – está muito próximo do registado após a devastação provocada pelo furacão Katrina, quando, de um dia para o outro, quatro milhões de pessoas passaram a depender exclusivamente deste estipêndio.
De acordo com dados recentes, uma em cada quatro famílias norte-americanas têm apenas o suficiente para sobreviver, informação sobre a qual importa precisar que o limiar de pobreza na América do Norte foi fixado em 1960 em 21 mil dólares anuais para uma família de quatro pessoas.
No que ao Velho Continente diz respeito, números da Comissão Europeia, divulgados quinta-feira pela Lusa, dizem que 8 por cento dos europeus adultos empregados vivem abaixo do limiar da pobreza, sendo que, na UE a 27, isto pode querer dizer que se vive com menos de 200 euros, caso da Hungria, e na Finlândia com menos de 900 euros.
As situações mais graves neste particular ocorrem na Polónia, 13 por cento da população, e na Grécia, 14 por cento. A precariedade laboral, os baixos salários e o trabalho a tempo parcial são as principais causas para a multiplicação de trabalhadores pobres.
Ainda segundo a Comissão Europeia, 9,3 por cento da população em idade activa, e 9,4 por cento das crianças, vivem em agregados onde todos os elementos estão desempregados. As crianças são o segmento da sociedade que corre maior risco de pobreza (19 por cento).
A Comissão revelou também que prestações sociais como o subsídio de desemprego, abonos de família e outras reduzem o risco de pobreza em 38 por cento, mas também neste caso as discrepâncias interiores ao espaço comum europeu são significativas. Ao passo que na Alemanha, Holanda e países escandinavos, entre outros, as prestações sociais reduzem o risco de pobreza aproximadamente para metade, nos países do Sul da Europa e nos Estados bálticos essa eficácia reduz-se a cerca de 18 por cento.
Cenário negro
Ao nível global, existem 190 milhões de desempregados e 1,3 mil milhões de trabalhadores são pobres, refere a Organização Internacional do Trabalho (OIT) baseando-se na estatística apurada em 2007. Destes 487 milhões de trabalhadores estão em situação de pobreza extrema e metade do total encontra-se em situação vulnerável.
Nos últimos dez anos, o número de desempregados ao nível mundial cresceu 35 milhões, mas a actual conjuntura vai recair com violência sobre os trabalhadores, que são quem carrega o fardo das crises capitalistas. A OIT estima que até ao fim de 2009 o número de desempregados possa crescer em 20 milhões, ao passo que os que vivem com menos de 1 dólar e com menos de dois dólares por dia, possam crescer 40 e 100 milhões, respectivamente.
Portugal de mal a pior
Em Portugal, dois milhões de pessoas são pobres e 18 por cento da população vive abaixo do limiar da pobreza (acima da média europeia, que é de 16 por cento), isto é, com um rendimento mensal de 360 euros ou menos, dizem os números oficiais.
Para este acréscimo contribuiu uma combinação de factores intrínsecos ao modelo de produção capitalista, entre os quais a sobreprodução e a cada vez mais desigual distribuição do rendimento; a exaustão dos recursos, sobretudo do petróleo, cuja dependência energética da cadeia produtiva se reflecte desde a extracção de matérias-primas até ao transporte e distribuição de produtos acabados; a depauperação dos solos e o desvio de parcelas férteis para alegados substitutos dos combustíveis fósseis (a produção de agrocombustíveis «comeu» 100 milhões de toneladas de cereais, afirma a FAO); a aquisição de terrenos de qualidade por parte de países detentores de capital-dinheiro interessados em assegurar o aprovisionamento alimentar futuro; a transferência de activos da esfera especulativa para as transacções nestes mercados, operada pelo capital financeiro em busca de válvulas de escape para a crise mundial da «economia de casino».
Na América Latina, o combate à fome retrocedeu, existindo neste momento 51 milhões de pessoas nessa condição.
A Ásia e a África acumulam 89 por cento da população faminta, sendo exemplos chocantes do sistema capitalista os 15 países subsaarianos com mais de 35 por cento da população em regime de carência alimentar extrema, ou a Índia, que com os seus 200 milhões de esfaimados contribui para um quinto do total mundial.
Ainda de acordo com a FAO, os investimentos na agricultura caíram de 17% para 3% entre 1980 e 2006, ao passo que a população mundial aumentou, no mesmo período, em 78,9 milhões.
Sem resposta
No início do ano, a FAO promoveu em Roma um encontro destinado a sensibilizar as potências capitalistas para o drama da fome, procurando paliativos de emergência. O propósito não foi objectivamente cumprido, já que de acordo com a Agência, em 2008, a ajuda alimentar internacional caiu a seu nível mais baixo em 40 anos.
O Programa Alimentar Mundial (PAM), neste momento, chega a escassos 90 milhões de pessoas, na sua quase totalidade refugiados, e ainda assim, dada a inflação no preço dos alimentos, o total de calorias por adulto foi reduzido, passando das 2200 recomendadas pela Organização Mundial de Saúde para as 1600 diárias, informou Jean Ziegler, em declarações à agência France Press.
Reagindo aos dados vindos a público, o responsável foi peremptório ao afirmar que os objectivos do milénio, fixados em 2000 pela ONU, não vão ser alcançados em 2015, e criticou as principais potências mundiais por não terem destinado 82 mil milhões de dólares por ano para responder à fome quando, meses depois, decidiram injectar milhões no sistema financeiro. O facto «fará crescer o ódio face ao “Ocidente” nos países pobres», acrescentou.
O relator das Nações Unidas para o Direito à Alimentação lembrou também as revoltas populares em mais de 40 países devido ao crescimento do preço dos alimentos e referiu-se criticamente aos agrocombustíveis, explicando que «para se obter 50 litros de bioetanol são necessários um mínimo de 358 quilos de milho».
Desemprego e miséria no «mundo desenvolvido»
Mas a fome e a miséria não se cinge aos países ditos subdesenvolvidos. Nos EUA, o epicentro da actual crise, a acompanhar a subida da taxa de desemprego está o acréscimo de pessoas que sobrevivem graças a senhas de alimentação, as quais, estima o ministério da Agricultura norte-americano, ascendem já aos 29 milhões.
Este valor – atingido com as estatísticas relativas ao mês de Julho, ou seja, sem considerar ainda as consequências para o povo norte-americano dos desenvolvimentos da crise capitalista nos meses de Agosto e Setembro – está muito próximo do registado após a devastação provocada pelo furacão Katrina, quando, de um dia para o outro, quatro milhões de pessoas passaram a depender exclusivamente deste estipêndio.
De acordo com dados recentes, uma em cada quatro famílias norte-americanas têm apenas o suficiente para sobreviver, informação sobre a qual importa precisar que o limiar de pobreza na América do Norte foi fixado em 1960 em 21 mil dólares anuais para uma família de quatro pessoas.
No que ao Velho Continente diz respeito, números da Comissão Europeia, divulgados quinta-feira pela Lusa, dizem que 8 por cento dos europeus adultos empregados vivem abaixo do limiar da pobreza, sendo que, na UE a 27, isto pode querer dizer que se vive com menos de 200 euros, caso da Hungria, e na Finlândia com menos de 900 euros.
As situações mais graves neste particular ocorrem na Polónia, 13 por cento da população, e na Grécia, 14 por cento. A precariedade laboral, os baixos salários e o trabalho a tempo parcial são as principais causas para a multiplicação de trabalhadores pobres.
Ainda segundo a Comissão Europeia, 9,3 por cento da população em idade activa, e 9,4 por cento das crianças, vivem em agregados onde todos os elementos estão desempregados. As crianças são o segmento da sociedade que corre maior risco de pobreza (19 por cento).
A Comissão revelou também que prestações sociais como o subsídio de desemprego, abonos de família e outras reduzem o risco de pobreza em 38 por cento, mas também neste caso as discrepâncias interiores ao espaço comum europeu são significativas. Ao passo que na Alemanha, Holanda e países escandinavos, entre outros, as prestações sociais reduzem o risco de pobreza aproximadamente para metade, nos países do Sul da Europa e nos Estados bálticos essa eficácia reduz-se a cerca de 18 por cento.
Cenário negro
Ao nível global, existem 190 milhões de desempregados e 1,3 mil milhões de trabalhadores são pobres, refere a Organização Internacional do Trabalho (OIT) baseando-se na estatística apurada em 2007. Destes 487 milhões de trabalhadores estão em situação de pobreza extrema e metade do total encontra-se em situação vulnerável.
Nos últimos dez anos, o número de desempregados ao nível mundial cresceu 35 milhões, mas a actual conjuntura vai recair com violência sobre os trabalhadores, que são quem carrega o fardo das crises capitalistas. A OIT estima que até ao fim de 2009 o número de desempregados possa crescer em 20 milhões, ao passo que os que vivem com menos de 1 dólar e com menos de dois dólares por dia, possam crescer 40 e 100 milhões, respectivamente.
Portugal de mal a pior
Em Portugal, dois milhões de pessoas são pobres e 18 por cento da população vive abaixo do limiar da pobreza (acima da média europeia, que é de 16 por cento), isto é, com um rendimento mensal de 360 euros ou menos, dizem os números oficiais.