Ferreira de Castro e Ecologia
Reli o romance A Selva, de Ferreira de Castro, por um exemplar da 39.ª edição; a 1.ª edição de A Selva datou de 1930. Entre as razões próximas que me conduziram à sua releitura ressalta uma mais destacada: enquanto em leitura anterior li a obra estimulado por saber que o autor fora o mais importante membro da tradição sindicalista de escritores ligados a A Batalha (1919-1927)(1), agora foi sobretudo o desejo de voltar, com mais atenção, aos ímpares ensinamentos ecológicos que ela proporciona - com efeito, após a primeira leitura, tinha ficado aprazado comigo mesmo para voltar, com este objectivo preciso, a A Selva.
Sobre esta vertente «ecológica» do romance, ou melhor sobre a apresentação do ambiente natural da selva [amazónica] segundo uma perspectiva apelidável de ecológica, sem o autor, aliás, nunca se ter referido a este conceito - hoje tão na moda -, o mais aproximado que já tinha detectado foi uma nota na História da Literatura Portuguesa de António José Saraiva e Óscar Lopes, onde a propósito dos motivos de fundo de A Selva se refere a «grandeza epopeica do ambiente natural»(2) - mas também não procurei exaustivamente. Uma nota, contudo, que não indicia a vertente ecológica a que pretendo referir-me aqui. Ora, julgo que, mais do que um motivo de fundo, a selva amazónica é um dos protagonistas principais lado a lado com o humano protagonista Alberto, bem como, o sertão cearense é um protagonista secundário, conquanto determinante da trama, lado a lado com os super explorados - escravizados - seringueiros, claro, mais o patrão Juca. Pelo menos em certa medida, talvez tenha sido a vertente, digamos, ecológica, também uma razão para o autor quando titulou o seu romance de A Selva.
Exemplo: «(…) essa imensa vegetação, cerrada e multíplice, continuava a não permitir, apesar de tão próxima, que vislumbrasse a sua profundidade. Sugeria, porém, a existência de rincões em eterna sombra, de criptas vegetais onde o sol jamais entrava, terra mole e ubérrima, lançando por todos os poros um tronco para o céu - um mundo em germinação fabulosa, alucinante e desordenada, negando hoje os princípios estabelecidos ontem, afirmando amanhã uma realidade que ninguém ousaria antever. E entre o raizame, que formava altas e longas cavernas, na superfície balofa da lama que ainda não se solidificara e de folhas apodrecidas, esvoaçavam insectos de infinitas variedades e coleavam, surdamente, répteis monstruosos - olhos verdes de mortal fascinação e formas do mundo pré-histórico»(3).
Mais adiante: «A selva dominava tudo. Não era o segundo reino, era o primeiro em força e categoria, tudo abandonando a um plano secundário. E o homem, simples transeunte no flanco do enigma, via-se obrigado a entregar o seu destino àquele despotismo.» Ainda: «A árvore solitária que borda melancolicamente campos e regatos na Europa, perdia ali a sua graça e romântica sugestão e, surgindo em brenha inquietante, impunha-se como um inimigo.» E retira a lição: «Nada a assemelhava às últimas florestas do velho mundo, onde o espírito busca o enlevo e o corpo frescura; assustava com o seu segredo, com o seu mistério flutuante e as suas eternas sombras, que davam às pernas nervoso anseio de fuga»(4).
E quanto à situação dos seringueiros na selva: «E então, buscando o equilíbrio que se lhe negava, discorria que naquela natureza o homem pertencia menos a si próprio do que em qualquer outra parte. Além do amo, com sentimentos variáveis, mas formado do mesmo barro humano, outra potência existia, implacável na sua mudez vegetal, que para a obra de escravidão, a Juca se aliava»(5).
A estas décadas de distância, Ferreira de Castro, mesmo sem participar nos debates ecológicos actuais, mostra-nos que, consoante o tipo de natureza, assim a forma de visionar os ecossistemas: os da floresta europeia, nesta existindo as árvores solitárias, à selva com a sua entrançada e colectiva vegetação, à brenha inquietante. Na Europa, o enlevo e a busca de frescura, na selva o nervoso anseio da fuga. Na selva, ainda, a percepção da natureza como um aliado do amo dos seringueiros para a sua obra de escravidão. Por isso se entende, nos «meios ecologistas», a preservação da natureza com laivos de romantismo e o indivíduo árvore quase como um símbolo.
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(1) António José Saraiva e Óscar Lopes – «História da Literatura Portuguesa», 11ª edição, p 1069. Porto: Porto Editora, Lda.
(2) Ibidem.
(3) Ferreira de Castro - «A Selva», 39ª edição, pp 43-44. Lisboa: Guimarães Editores.
(4) Idem, p88.
(5) Idem, pp 172-173.
Sobre esta vertente «ecológica» do romance, ou melhor sobre a apresentação do ambiente natural da selva [amazónica] segundo uma perspectiva apelidável de ecológica, sem o autor, aliás, nunca se ter referido a este conceito - hoje tão na moda -, o mais aproximado que já tinha detectado foi uma nota na História da Literatura Portuguesa de António José Saraiva e Óscar Lopes, onde a propósito dos motivos de fundo de A Selva se refere a «grandeza epopeica do ambiente natural»(2) - mas também não procurei exaustivamente. Uma nota, contudo, que não indicia a vertente ecológica a que pretendo referir-me aqui. Ora, julgo que, mais do que um motivo de fundo, a selva amazónica é um dos protagonistas principais lado a lado com o humano protagonista Alberto, bem como, o sertão cearense é um protagonista secundário, conquanto determinante da trama, lado a lado com os super explorados - escravizados - seringueiros, claro, mais o patrão Juca. Pelo menos em certa medida, talvez tenha sido a vertente, digamos, ecológica, também uma razão para o autor quando titulou o seu romance de A Selva.
Exemplo: «(…) essa imensa vegetação, cerrada e multíplice, continuava a não permitir, apesar de tão próxima, que vislumbrasse a sua profundidade. Sugeria, porém, a existência de rincões em eterna sombra, de criptas vegetais onde o sol jamais entrava, terra mole e ubérrima, lançando por todos os poros um tronco para o céu - um mundo em germinação fabulosa, alucinante e desordenada, negando hoje os princípios estabelecidos ontem, afirmando amanhã uma realidade que ninguém ousaria antever. E entre o raizame, que formava altas e longas cavernas, na superfície balofa da lama que ainda não se solidificara e de folhas apodrecidas, esvoaçavam insectos de infinitas variedades e coleavam, surdamente, répteis monstruosos - olhos verdes de mortal fascinação e formas do mundo pré-histórico»(3).
Mais adiante: «A selva dominava tudo. Não era o segundo reino, era o primeiro em força e categoria, tudo abandonando a um plano secundário. E o homem, simples transeunte no flanco do enigma, via-se obrigado a entregar o seu destino àquele despotismo.» Ainda: «A árvore solitária que borda melancolicamente campos e regatos na Europa, perdia ali a sua graça e romântica sugestão e, surgindo em brenha inquietante, impunha-se como um inimigo.» E retira a lição: «Nada a assemelhava às últimas florestas do velho mundo, onde o espírito busca o enlevo e o corpo frescura; assustava com o seu segredo, com o seu mistério flutuante e as suas eternas sombras, que davam às pernas nervoso anseio de fuga»(4).
E quanto à situação dos seringueiros na selva: «E então, buscando o equilíbrio que se lhe negava, discorria que naquela natureza o homem pertencia menos a si próprio do que em qualquer outra parte. Além do amo, com sentimentos variáveis, mas formado do mesmo barro humano, outra potência existia, implacável na sua mudez vegetal, que para a obra de escravidão, a Juca se aliava»(5).
A estas décadas de distância, Ferreira de Castro, mesmo sem participar nos debates ecológicos actuais, mostra-nos que, consoante o tipo de natureza, assim a forma de visionar os ecossistemas: os da floresta europeia, nesta existindo as árvores solitárias, à selva com a sua entrançada e colectiva vegetação, à brenha inquietante. Na Europa, o enlevo e a busca de frescura, na selva o nervoso anseio da fuga. Na selva, ainda, a percepção da natureza como um aliado do amo dos seringueiros para a sua obra de escravidão. Por isso se entende, nos «meios ecologistas», a preservação da natureza com laivos de romantismo e o indivíduo árvore quase como um símbolo.
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(1) António José Saraiva e Óscar Lopes – «História da Literatura Portuguesa», 11ª edição, p 1069. Porto: Porto Editora, Lda.
(2) Ibidem.
(3) Ferreira de Castro - «A Selva», 39ª edição, pp 43-44. Lisboa: Guimarães Editores.
(4) Idem, p88.
(5) Idem, pp 172-173.