O discurso do taxista

Francisco Mota
Para a Luz, minha companheira,
economista desertora,
divulgadora da língua-mãe
e ouvinte atónita

Estava a Luz num passeio de Madrid quando um táxi vazio parou ao seu lado. Entrou e disse: Para o Passeio Imperial, por favor. O taxista pensou e respondeu: Desculpe mas não sei onde fica. Admirada, porque é uma rua bastante conhecida da cidade, lá lhe indicou por onde ir.
O taxista entendeu a estranheza e explicou: Desculpe mas só estou neste trabalho há uma semana e conheço mal Madrid. Voltei a Espanha há pouco tempo e tentei encontrar trabalho onde sempre trabalhei, mas é impossível.
Eu sempre fui pessoa de livros, livrarias e editoras, mas isso agora é coisa de grandes empresas, multinacionais, eu sei lá. Não encontrei nada. Tive que me agarrar ao táxi.
Estive mais de vinte anos na Argentina, Uruguai e Paraguai, sempre no meio de livros. Mas, por razões que agora não interessam, tive que voltar a Espanha.
Resignava-se a Luz a uma sessão de incontinência verbal, habitual nos taxistas, quando ele lhe perguntou: Desculpe, mas a senhora não é espanhola, pois não? Não, não sou, sou portuguesa.
Como uma mola o taxista saltou, virou-se para trás e disse: então a senhora é do país do maior escritor vivo, o Saramago!
Esse homem acompanhou-me milhares de noites, quer estivesse só ou acompanhado. Estivesse onde estivesse. Ele é grande porque, como todos os grandes, faz pensar. Não interessa se ele tem ou não razão. O fundamental é que faz pensar. Agora leio que ele às vezes diz umas coisas estranhas. Isso não me interessa, o que interessa são os livros que já tem e o que têm dentro.
Só há uma coisa de que não gosto nele. Nos seus livros ninguém come. Ora comer e uma coisa fundamental nas personagens dos livros e da vida. Que pena!
Acho que ele é mais bem tratado em Espanha do que em Portugal. Mas se nos pomos a pensar nessas coisas temos que saber: o que é a Espanha? Eu nasci em Navarra, andei por muitos países do mundo e em todos me senti mal ou bem, conforme os dias.
Não odiei Espanha nem sofri por não estar aqui. Agora estou mal, mas a culpa não é de Espanha. Será da economia, destes ladrões todos, do ensino que não faz com que a juventude leia, eu sei lá.
Mas, voltando à questão: o que é a Espanha? Eu acho que é uma manta de retalhos, como quase todos os países. Por exemplo: Quais são os pratos que se cozinham em todo o território dentro da chamada cozinha tradicional?
Por muito que pensemos sobre isto só encontramos um: a tortilha de batatas. Este prato cozinha-se em todo o lado, ninguém sabe onde nasceu, não tem pai nem mãe. Com os quatro ingredientes básicos: batata, ovo, azeite e sal, pode-se comer na Galiza, na Catalunha, na Andaluzia, no País Basco, etc..
Depois podem aparecer variantes em certos sítios ou elaborações dos grandes cozinheiros, onde eu nunca fui porque são caros, mas que li no livro do José Carlos Capel «Homenagem à tortilha de batatas» (não sei se a senhora leu?). Aí os grandes como o Hilario Arbelaitz, o Andoni Aduriz, o Berasategui, o Joan Roca, a Carmen Ruscalleda, o Pedro Subijana e mais os papagueados da cozinha espectáculo, chefiados pelo Ferran Adria, reinventam a tortilha com caviar, trufas, foie-gras, ouriços do mar e eu pergunto-me: para quê?
Mas no fundo, a tortilha, por mais genuína e pura que seja, não faz uma nação. Nem a tortilha nem nada. O que faz as nações são as pessoas. Com as suas diferenças, as suas classes, as suas lutas para que os pobres sejam menos pobres e os ricos menos ricos, e não ao contrário como acontece agora.
São as pessoas, minha senhora, as únicas donas do seu futuro, do que querem comer ou beber, de fazer as suas nações. Mas para isso é preciso, e aqui é que está o problema, que queiram lutar, que queiram ser os donos do seu destino. Para isso e preciso pensar, ler e actuar.
Mas estes que mandam têm o pessoal adormecido. E isso, sabem fazê-lo bem, tenho de admitir.

Olhe, chegámos. É aqui.
São cinco euros e meio. Obrigado. Desculpe não lhe ter dado tempo para saber a sua opinião. Ponho-me a falar e esqueço-me. Sabe? É a raiva.


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