No reino dos espantos
Alastra a moda do recurso à inocência. É a técnica dos «espantos». Quando posto em cheque, Sócrates nega tudo e afirma ter uma consciência tranquila. Se houver actos do poder que sejam condenáveis ele, primeiro-ministro, jura que não sabe de nada. Trata-se, sem dúvida, de calúnias da baixa política. Então, Sócrates «espanta-se» com a maldade e com a má-língua que anda por aí à solta.
A mesma atitude adoptam os ministros de Sócrates. Nas suas áreas de competência tomam a posição: «não sei mas é mentira». O que é um absurdo evidente, visto que quem não sabe também não pode caracterizar a acusação. Tem primeiro que informar-se. Mas para os ministros ter informação real implicaria desdizerem-se. Por isso, não se informam e é então que recolhem ao templo dos espantos.
Ligeiramente diferente na forma mas igual nos conteúdos é a linha de actuação do Vaticano e da esmagadora maioria dos bispos católicos. Os impérios americanos entram em colapso e recebem, para sobreviverem por mais algum tempo, injecções fenomenais de créditos do Estado. Isto, enquanto se admite, friamente, que haja no mundo, 925 milhões de seres humanos a morrer à fome. O Vaticano vê e a Igreja cala-se porque também ela tem gigantescos investimentos financeiros que podem estar em perigo se as políticas forem alteradas. Também acena com os «espantos» mas define-os nos horizontes distantes da ética e do catecismo. Impávidos, os bispos recolhem-se à sua torre de marfim e atiram para trás das costas a sua tão badalada «opção preferencial pelos pobres».
A Igreja gere uma importante carteira de encargos constituída pelas suas actividades na construção civil e aquisição de terrenos e imóveis; na gestão directa de uma cadeia de hotéis e albergarias (os «hotéis sagrados») ligados a centros de peregrinação; no financiamento de instituições de caridade «não lucrativas»; na ampliação da rede de serviços de apoio a peregrinos, etc. O grande destaque vai para os 70 milhões pagos pela Igreja da Santíssima Trindade, em Fátima, empreendimento que, todavia, já provou garantir uma elevada taxa de remuneração de capitais. Mas o capitalismo eclesiástico vai muito mais além.
Raramente, o Patriarcado permite a «fuga» de alguns factores da sua gestão. Isto aconteceu todavia há alguns meses, quando a administração do Santuário de Fátima o consentiu. Foram divulgados alguns números parciais envoltos num pacote incaracterístico de seis anos (soma global de contas entre 1999 e 2005) com valores certamente sub-avaliados. Mesmo assim, nesse período que envolve as despesas com a construção da basílica mariana, o santuário apresentou lucros no montante aproximado de 41 milhões de euros. Na composição das parcelas divulgadas avultam as «ofertas» (11 milhões), as «receitas não descriminadas» (22 milhões) e os lucros da rede comercial e hoteleira (8 milhões). Note-se que apenas se trata de uma informação parcial sobre os lucros de Fátima que é apenas uma parte da igreja católica. Acresce que a exploração capitalista do santuário é de tal ordem que no fabrico da Basílica foi integrado um mecanismo automático, sob o anfiteatro, destinado a recolher directamente as ofertas para uma caixa-forte blindada, subterrânea. As peças de ouro oferecidas pelos peregrinos são fundidas e transaccionadas no mercado. Os títulos de acções são depositados na banca. A gestão do santuário é assessorada por equipas de banqueiros de onde se destacam as presenças de Lobo Xavier e de Jardim Gonçalves, este último igualmente membro do Conselho de Assuntos Económicos do Patriarcado de Lisboa.
Resumindo, as aplicações financeiras da Igreja são incontáveis, os seus tesouros também e o seu erário, se fosse divulgado, revelar-se-ia muito próximo, igual ou superior ao do próprio Estado português. A Igreja gere a Renascença (1 milhão de lucros), a Universidade Católica (60 milhões de orçamento anual), é proprietária de 20 mil edifícios, 1200 IPSS e de um Serviço de Peregrinos que rende cerca de 500 milhões de euros por ano. O enlace global das interpenetrações financeiras, políticas e sociais, confere pois à Igreja a posição que lhe é reconhecida de principal referência do universo capitalista português. O que não é de espantar! ...
A mesma atitude adoptam os ministros de Sócrates. Nas suas áreas de competência tomam a posição: «não sei mas é mentira». O que é um absurdo evidente, visto que quem não sabe também não pode caracterizar a acusação. Tem primeiro que informar-se. Mas para os ministros ter informação real implicaria desdizerem-se. Por isso, não se informam e é então que recolhem ao templo dos espantos.
Ligeiramente diferente na forma mas igual nos conteúdos é a linha de actuação do Vaticano e da esmagadora maioria dos bispos católicos. Os impérios americanos entram em colapso e recebem, para sobreviverem por mais algum tempo, injecções fenomenais de créditos do Estado. Isto, enquanto se admite, friamente, que haja no mundo, 925 milhões de seres humanos a morrer à fome. O Vaticano vê e a Igreja cala-se porque também ela tem gigantescos investimentos financeiros que podem estar em perigo se as políticas forem alteradas. Também acena com os «espantos» mas define-os nos horizontes distantes da ética e do catecismo. Impávidos, os bispos recolhem-se à sua torre de marfim e atiram para trás das costas a sua tão badalada «opção preferencial pelos pobres».
A Igreja gere uma importante carteira de encargos constituída pelas suas actividades na construção civil e aquisição de terrenos e imóveis; na gestão directa de uma cadeia de hotéis e albergarias (os «hotéis sagrados») ligados a centros de peregrinação; no financiamento de instituições de caridade «não lucrativas»; na ampliação da rede de serviços de apoio a peregrinos, etc. O grande destaque vai para os 70 milhões pagos pela Igreja da Santíssima Trindade, em Fátima, empreendimento que, todavia, já provou garantir uma elevada taxa de remuneração de capitais. Mas o capitalismo eclesiástico vai muito mais além.
Raramente, o Patriarcado permite a «fuga» de alguns factores da sua gestão. Isto aconteceu todavia há alguns meses, quando a administração do Santuário de Fátima o consentiu. Foram divulgados alguns números parciais envoltos num pacote incaracterístico de seis anos (soma global de contas entre 1999 e 2005) com valores certamente sub-avaliados. Mesmo assim, nesse período que envolve as despesas com a construção da basílica mariana, o santuário apresentou lucros no montante aproximado de 41 milhões de euros. Na composição das parcelas divulgadas avultam as «ofertas» (11 milhões), as «receitas não descriminadas» (22 milhões) e os lucros da rede comercial e hoteleira (8 milhões). Note-se que apenas se trata de uma informação parcial sobre os lucros de Fátima que é apenas uma parte da igreja católica. Acresce que a exploração capitalista do santuário é de tal ordem que no fabrico da Basílica foi integrado um mecanismo automático, sob o anfiteatro, destinado a recolher directamente as ofertas para uma caixa-forte blindada, subterrânea. As peças de ouro oferecidas pelos peregrinos são fundidas e transaccionadas no mercado. Os títulos de acções são depositados na banca. A gestão do santuário é assessorada por equipas de banqueiros de onde se destacam as presenças de Lobo Xavier e de Jardim Gonçalves, este último igualmente membro do Conselho de Assuntos Económicos do Patriarcado de Lisboa.
Resumindo, as aplicações financeiras da Igreja são incontáveis, os seus tesouros também e o seu erário, se fosse divulgado, revelar-se-ia muito próximo, igual ou superior ao do próprio Estado português. A Igreja gere a Renascença (1 milhão de lucros), a Universidade Católica (60 milhões de orçamento anual), é proprietária de 20 mil edifícios, 1200 IPSS e de um Serviço de Peregrinos que rende cerca de 500 milhões de euros por ano. O enlace global das interpenetrações financeiras, políticas e sociais, confere pois à Igreja a posição que lhe é reconhecida de principal referência do universo capitalista português. O que não é de espantar! ...