Um piedoso sentido de humor ...

Jorge Messias
Não fosse a matéria tão dolorosa e grave e Portugal seria, certamente, a capital mundial da gargalhada. Um primeiro-ministro que tem passado anos a destruir empregos e promete, agora, uma mão cheia de novos postos de trabalho. O mesmo Governo que se tem dedicado activamente a promover a concentração das fortunas, vem dizer-nos que em Portugal os muito ricos estão a empobrecer. Engenharias financeiras conduzem milhares de trabalhadores a recorrer às reformas antecipadas e aos subsídios de desemprego. Depois, passado um tempo, os ministros cortam as subvenções, mudam o nome às coisas e promovem a miséria. Sócrates, o famoso caudilho, aproveita a ocasião para proclamar aos quatro ventos que os níveis do desemprego e da exclusão «melhoram claramente»: 48 horas depois, as estatísticas desmentem-no. E como as eleições se aproximam, chovem as «boas novas»: a inflação melhorou, aumenta o investimento, a economia portuguesa resiste bem à crise capitalista. É o poder paranóico, entre a gargalhada e o terror.
A mais recente anedota de Sócrates foi contada em Santo Tirso. Anunciou então o actual primeiro-ministro ser vitória do seu Governo a criação de 133 mil novos empregos. Depois, proclamou outro «êxito»: no mesmo período, tinham sido enviados para a reforma ou compelidos a abraçar outra carreira, 40 mil trabalhadores da Função Pública. Deste modo, concluiu Sócrates atabalhoadamente, foi possível «reduzir a taxa de desemprego» em três décimas percentuais... Veja-se, só, a ginástica acrobática e a desfaçatez deste homem que se apresenta como um grande vulto político condutor dos destinos de um povo!
Quanto à Igreja institucional (parceiro do invisível mas sempre presente «bloco central») continua tranquilamente a tentar seguir em frente. Estatisticamente é a Norte do País que a sua massa de crentes possui maior influência política. Todavia, também se sabe que o Norte de Portugal representa a região mais pobre da Europa. A Norte do Douro, o desemprego aumentou 145% só em cinco anos (de 2000 a 2005) e continua a crescer. Os pensionistas recebem, em média, 3187 euros/ano, quando no resto do País o mesmo valor é de 7307 euros. Os subsídios sociais repartem-se desequilibradamente: a média nacional é de 3l87 euros no Norte e de 4006 euros no Sul. E assim por diante ...
A Igreja bem conhece aquilo que se passa e o facto de que o povo católico do Norte e do Interior vai sendo continuamente «encurralado» nos redis da impreparação técnica e da incultura. É assim muito estranho que a PT tenha escolhido o interior do País, com fracos índices de mão-de-obra qualificada, para um empreendimento caro e de alta tecnologia como é o anunciado projecto de um centro de atendimento telefónico.
Sempre atento a estas contradições, é natural que elas não sejam alheias
à recente decisão do episcopado de estabelecer na Universidade Católica um curioso curso com matérias cruzadas que conciliam diversos interesses e procuram dar resposta às dificuldades reais que o catolicismo enfrenta em Portugal.
O plano do curso distribui-se, como na catequese, pelos mais diferentes ramos do ensino: catequese, turismo, património, doutrina social da Igreja, informação à distância, síntese catequética avançada, percursos guiados pela doutrina católica, etc. Para a frequência curricular de matérias tão complexas apenas é exigido aos alunos o limiar do 12.º ano do ensino secundário. A iniciativa da Católica anuncia-se como principalmente destinada a formar novos quadros nas paróquias, movimentos, organismos e grupos eclesiais. Privilegia a função da Universidade mas propõe-se estabelecer parcerias com outras instituições. Trata-se, pois, de uma operação logística típica do Opus Dei.
Para as metas da Igreja e face às dificuldades com que depara a sua expansão, há coerência entre este tipo de acção e a necessidade de estreitar os laços que ligam o episcopado, os grandes empresários e as formações do capital financeiro. Por isso, tal como no ensino a distância, um antecedente determina o seu consequente e promove a unidade entre a teologia, a catequese, a caridade e outras teses mais prosaicas como a descentralização empresarial, o princípio da «deslocalização», a segurança das margens de lucro, a acção social da Igreja, a catequese, a ética empresarial, etc., etc.
Nada disto é pura especulação. Ainda há dias uma revista portuguesa que se dedica muito à sociologia e à promoção capitalista perguntou ao padre Vítor Melícias que pensava ele acerca da máxima «Um gestor tem de ser acima da ciência, a arte da gestão». Eis a resposta que o sacerdote deu:
«Quero dizer que não basta a técnica e a metodologia formal. É preciso a criatividade, a flexibilidade, a informalidade que caracterizam a harmonia da arte. Um gestor formalista, mero aplicador de fórmulas, é um gestor fracassado. A arte de gerir exige imaginação, criatividade, capacidade de escolha e sentido ético de responsabilidade social.»
Ou seja: - Não é com vinagre que se matam moscas!


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