A má aluna
Decerto porque os Jogos Olímpicos de Pequim estão à vista, e para que saibamos que terra vão pisar os nossos atletas e que tipo de gente os vai receber, anda a televisão a fornecer-nos acerca da China mais informação do que era costume. Não é que não soubéssemos já o fundamental, ainda que quase sempre através de algumas brumas provavelmente aparentadas com o «smog» de Pequim de que agora se tem falado muito: sabíamos que aquilo não é um país nada democrático embora nas últimas décadas milhões de chineses tenham sido arrancados às fomes milenárias que quase eram uma atracção para o turismo ocidental e desenvolvido; sabíamos que a mais ou menos recente penetração na China do empreendedorismo democrático não conseguiu afastar do poder o Partido Comunista Chinês; até viemos a saber recentemente que a China fornece armas para uma região do mundo onde guerras locais fazem grandes desgraças, género de fornecimento que nenhum país ocidental pratica, como bem se sabe. Ora, há-de ter sido precisamente no quadro da informação reforçada acerca da China que a RTP2 transmitiu há dias, em duas doses de cerca de uma hora cada, uma reportagem pedagogicamente intitulada «As Novas Desordens na China». A julgar pelo que lá se viu, aprendemos entre outras coisas que por lá vai existindo a intensa exploração da mão-de-obra à maneira clássica do Ocidente e também que alguns hábitos ocidentais de consumo estão a ser adoptados em certas regiões chinesas. Curiosamente, o documentário registou que apesar de todas as «desordens» referidas em título, e decerto também de outras que não são «novas, vários entrevistados colhidos entre o chamado povo anónimo afirmam-se satisfeitos não apenas com os progressos do país mas também com a direcção do Partido Comunista Chinês. Suspeito de que isto só explicável pelo facto de eles serem mesmo chineses, só falarem mandarim e apenas lerem aquela escrita extravagante que por cá quase só conhecemos de algumas bandas desenhadas, desse modo estando impossibilitados de lerem no «Público» e outros jornais de referência a reiterada notícia de que o comunismo foi uma coisinha sem importância que já faleceu sem deixar vestígios.
A boa e a má
A segunda hora do referido documentário acerca das «novas desordens» abordou quase exclusivamente os obstáculos à livre e democrática circulação na China da informação de origem ocidental, designadamente através da Net. Chegou a coisa ao ponto de mesmo a Yahoo, que não é uma empresa chinesa nem uma coisinha pequena, dar claros sinais de transigir com a falta de democraticidade das autoridades chinesas. Se bem entendi a situação, e procurando dela um exemplo esquemático e claro, direi que a China se opõe a que os chineses tenham acesso a «sites» onde se explique que isso do socialismo ou do comunismo, mesmo que sob a forma chinesa, é um disparate, uma lenda mentirosa, um obstáculo ao verdadeiro progresso. É claro que essa oposição à entrada e circulação livre desta informação fundamental, seja ela prestada de forma directa ou indirecta, é uma grandessíssima infracção às fundamentais regras democráticas da liberdade de expressão. Bem podiam os chineses, para aprendizagem e educação cívica, pôr os olhos no que se passa em Portugal, por exemplo. Organiza o PCP numa das principais cidades portuguesas uma grande Festa de dois dias com relevantes implicações culturais; nela intervém o secretário-geral do maior partido de efectiva oposição exprimindo posições em que se revêem centenas de milhares de portugueses. Pois logo as estações portuguesas de televisão acorrem ao local, registam os mais importantes aspectos do acontecimento e transmitem as imagens e os sons recolhidos para que a generalidade da população os conheça. É certo que, em rigor, esta última parte da actuação da TV não aconteceu: nem uma imagem, nem um som, foram transmitidos. Mas não importa: por cá impera a democracia, por lá mantém-se um totalitarismo inaceitável. Porque, como bem se entende, quando por cá se faz efectiva censura, quando os «media» constantemente se comportam como que inspirados nos bons velhos tempos em que o PCP «não existia» por despacho de um censor, é a democracia de formato ocidental que está a ser defendida. A China, que tanto parece ter aprendido com o Ocidente, ainda não aprendeu a distinguir entre a boa censura e a censura condenável. Nessa matéria, é uma má aluna. A questão é que parece muito difícil pô-la de castigo.
A boa e a má
A segunda hora do referido documentário acerca das «novas desordens» abordou quase exclusivamente os obstáculos à livre e democrática circulação na China da informação de origem ocidental, designadamente através da Net. Chegou a coisa ao ponto de mesmo a Yahoo, que não é uma empresa chinesa nem uma coisinha pequena, dar claros sinais de transigir com a falta de democraticidade das autoridades chinesas. Se bem entendi a situação, e procurando dela um exemplo esquemático e claro, direi que a China se opõe a que os chineses tenham acesso a «sites» onde se explique que isso do socialismo ou do comunismo, mesmo que sob a forma chinesa, é um disparate, uma lenda mentirosa, um obstáculo ao verdadeiro progresso. É claro que essa oposição à entrada e circulação livre desta informação fundamental, seja ela prestada de forma directa ou indirecta, é uma grandessíssima infracção às fundamentais regras democráticas da liberdade de expressão. Bem podiam os chineses, para aprendizagem e educação cívica, pôr os olhos no que se passa em Portugal, por exemplo. Organiza o PCP numa das principais cidades portuguesas uma grande Festa de dois dias com relevantes implicações culturais; nela intervém o secretário-geral do maior partido de efectiva oposição exprimindo posições em que se revêem centenas de milhares de portugueses. Pois logo as estações portuguesas de televisão acorrem ao local, registam os mais importantes aspectos do acontecimento e transmitem as imagens e os sons recolhidos para que a generalidade da população os conheça. É certo que, em rigor, esta última parte da actuação da TV não aconteceu: nem uma imagem, nem um som, foram transmitidos. Mas não importa: por cá impera a democracia, por lá mantém-se um totalitarismo inaceitável. Porque, como bem se entende, quando por cá se faz efectiva censura, quando os «media» constantemente se comportam como que inspirados nos bons velhos tempos em que o PCP «não existia» por despacho de um censor, é a democracia de formato ocidental que está a ser defendida. A China, que tanto parece ter aprendido com o Ocidente, ainda não aprendeu a distinguir entre a boa censura e a censura condenável. Nessa matéria, é uma má aluna. A questão é que parece muito difícil pô-la de castigo.