A flor mais linda do mundo

Francisco Mota
E morrer contigo, se te matam
E matar-me contigo, se tu morres,
Porque o amor quando não morre, mata
Porque amores que matam, nunca morrem.

(Joaquim Sabina, poeta, compositor e cantor espanhol)



Para Joaquim Sabina (Ubeda , Madrid e o resto do mundo)


Era um pássaro bonito.
Tinha as penas quase todas negras, algumas cinzentas e o peito branco. O bico era vermelho claro.
Voava com a rapidez de muitos peixes e a elegância dalgumas mulheres.
Não vivia numa árvore, nem no alto dum monte. Tinha feito o seu ninho debaixo duma pedra, protegido dos frios, das chuvas, dos ventos e dalguns perigos. Tinha uma boa casa.
Um dia, ao começar o dia, viu que a poucos metros crescia uma planta que tinha uma flor muito bonita. Nunca se tinha interessado por flores, nem nunca tinha sentido aquele bater apressado e ansioso, no seu pequeno coração.
Andou à sua volta e depois voou para a ver de todos os ângulos.
Voou para longe, mudando de direcção, subindo, descendo, como fazia todos os dias. Quando voltou, desde muito longe começou a ver a flor cada vez maior. Tinha a certeza de aquela era
A flor mais linda
A flor mais linda do mundo.
A vida do pássaro mudou. Ficava mais tempo à volta da flor. Atacava com fúria todos os bichos, grandes ou pequenos, que supunha poderiam fazer mal à flor. Quando chovia, voava sobre ela, com as asas muito abertas, para que a água não lhe batesse.
A flor parecia agradecer-lhe porque, a pouco e pouco, foi-se virando para a pedra onde ele vivia.
A felicidade do pássaro era enorme, quase louca. Já não se afastava para longe. Ficava muito tempo a voar com muita velocidade, para depois quase parar sobre ela. Subia na vertical e, de repente, deixava-se cair, para voltar a planar quando quase a tocava.
Tinha a esperança de ouvir ou ver, algum sinal de prazer da sua amiga
A flor mais linda
A flor mais linda do mundo.
Um dia quando o pássaro enchia o céu com a sua felicidade, ouviram-se dois tiros. Caiu ao lado da flor com sangue na asa direita. Conseguiu chegar a casa e aí ficou com a dor, mas sempre olhando para a sua flor. A flor também parecia mais triste com as folhas caídas e as pétalas descoloridas.
Choveu. O pássaro já não podia voar, mas foi melhorando vendo como ficava bonita
A flor mais linda
A flor mais linda do mundo.
O pássaro assustou-se quando ouviu passos e vozes de homens, que pararam junto da sua pedra. Assustou-se ainda mais quando viu que os homens cavavam à volta da sua flor. Cavavam fundo para não estragar as raízes e depois levaram tudo, flor, terra, tudo.
Pareceu-lhe que quando a levavam, a flor olhava para ele e as folhas lhe diziam adeus. Talvez fosse o vento, mas o pássaro pensava que era ela.
Tinha perdido a sua amiga
A flor mais linda
A flor mais linda do mundo
No seu desespero, o pássaro pensou que os homens também tinham visto a beleza da flor. Certamente agora estaria numa casa rica, num vaso de porcelana cara, que a regariam todos os dias e que a tratariam com todo o cuidado.
Mas só eles, só essa família rica, podia ter o prazer de a ver. Mais ninguém...
Imaginou muitos planos para a encontrar, mas nenhum era possível. Nem sequer podia voar.
Não dormia, não descansava e quase não comia. Estava cada vez mais fraco.
Uma manhã, fez a única coisa que podia fazer. Saiu, ainda com muita dor na asa e arrastou-se até à cova que os homens tinham deixado. Quando chegou à borda deixou-se cair até ao fundo.
Doeu-lhe muito. Ficou parado um momento e começou a buscar na terra algum resto de raiz que os homens não tivessem levado.
Buscou muito, mas encontrou um resto pequenino – E ele, que nunca tinha tocado na flor, apanhou com o bico, com muito cuidado, aquela raiz.
Pouco a pouco foi-a limpando da terra. Muito devagar meteu-a na boca e sentiu o prazer do beijo que nunca lhe deu.
Fechou os olhos e adormeceu, com a boca cheia de sabor
Da flor mais linda
Da flor mais linda do mundo.


Como se supõe que isto seja uma crónica gastronómica, aconselha-se que seja lido acompanhado com um branco seco, bem fresco, a cheirar a feno cortado e com um toque cítrico na boca, olhando um horizonte de água, de mar ou de rio, ou uma montanha não ardida, de preferência.
Se for Inverno, um tinto suave, aveludado e redondo, a cheirar e a saber a fruta vermelha madura, passas e compotas, bebido devagar, em frente duma lareira, também de preferência.



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