Estes sunitas são loucos

Correia da Fonseca
Quando a televisão, sempre ela antes de qualquer outro meio, trouxe a notícia do atentatdo que matou Sérgio Vieira de Mello e mais umas dezenas de funcionários da ONU, além de consternadíssimo fiquei também inttigado. Como qualquer cidadão deste mundo agora unipolar, perguntei-me quem teria podido querer matar um homem a quem aparentemente ninguém desejava a morte. Vieira de Mello era, na verdade, daquelas fuguras cujos diver4sos e notáveis méritos suscitavam admiração consensual. A esta primeira circunstância nada irrelevante acrescentava-se o facto de as suas funções permanentes, relacionadas com a defesa dos direitos humanos que no seu entendimento decerto não seriam limitados a uma versão reduzida, reforçarem as razões para a estima generalizada que o rodeava. Sendo assim, não se entendia o mortivo do atentado que, segunda a TV repetidamente explicava, havia sido expressamente dirigido para o gabinete onde Sérgio trabalhava.

Vieram depois notícias que presumiam ter sido o crime obra de feísimos terroristas locais relacionados com Saddam, tendo mesmo surgido a reivindicação de uma organização por todos conhecida mas, ainda assim, pelos vistos capaz de usar quase uma tonelada de explosivos carregados num camião-bomba que ninguém deteve. O atentado teria sido, pois, obra de iraquianos radicais apoiantes do ditador desaparecido. Mas mantinha-se a pergunta: por que diabo matar Sérgio Vieira de Mello? Sabia-se que a ONU, que ele ali representava, sempre recusara a Bush o apoio para a invasão do Iraque. Sabia-se até, porque a TV no-lo dizia, que Sérgio exprimira opinião pessoal contrária ao ataque. Por outro lado, constava que muita gente o via como provável sucessor de Kóffi Annam, o que, se porventura um dia se confirmasse, resultaria num secretário-geral da ONU contrário à actual estratégia norte-americana e propenso a olhar o Iraque com olhos de entender. Em suma: para os iraquianos, Sérgio Vieira de Mello era quase um amigo. Mas os presumíveis amigos de Saddam, portanto sunitas, tinham-no assassinado. Porquê?

Numa segunda fase, vieram notícias de que afinal o atentado teria sido perpretado pelos suspeitos do costume, isto é, pela Al-Qaeda. Compreende-se: também para ser suspeita destas coisas é que ela vai servindo enquanto não é vencida e desmantelada como Bush prometeu. Mas a nova explicação não dissipa a perplexidade: então, entre todos os alvos possíveis, essa sanguinária organização foi escolher um homem em divergência com Bush, Rumsfel & Company? Serão cumulativamente loucos e estúpidos?

Estavam as coisas neste ponto quando ocorreu o atentado de Najaf: mais de cem mortos, todos xiitas, entre eles o mais carismático e popular dos seus líderes, o ayatollah Al-Hakim, antigo opositor de Saddam. Pelos ocidentes já se vai sabendo quem cometeu o crime: o Al-Qaeda, é claro, que com mais esta proeza veio reforçar o argumentário que sustenta a cruzada norte-americana pelo mundo afora. Para os xiitas, porém, é difícil tirarem da cabeça que quem matou foram os sunitas, seus inimigos históricos: pois não é verdade que no tempo de Saddam Hussein o ayatollah nem se atrevia a entrar no Iraque, ainda que clandestino, pois sabia que fazendo-o caminharia para a morte? De tudo isto resulta que o atentado de Najaf vem impedir a unidade iraquiana na luta contra o invasor no momento em que ela seria mais necessária. Se foram os sunitas os matadores, portaram-se de novo como loucos. Ou porventura ainda pior: como preciosos auxiliares dos interesses dos Estados Unidos e do clã Rumsfeld. Para não incorrermos na aliás improvável hipótese de auxílio consciente, fiquemo-nos pela eventualidade de loucura, que já chega.

Os leitores da obra de Goscinny, que é mais adulta e menos tonta do que poderia supor-se, recordam-se talvez de uma frase nela recorrente: «Estes gauleses são loucos!». Talvez para contrariar um pouco o carácter trágico dos factos aqui lembrados, cedi à tentação de usar uma variação dessa fórmula como título para esta crónica. Talvez também por me lembrar de que a frase é, em Goscinny, sempre usada pelas gentes do Império, nesse tempo o Romano. Hoje, perante atentados que a opinião pública iraquiana ou outra pode imputar aos sunitas mas na verdade beneficiam o Império, agora Americano. Ocorreu-me a variante que puxei para título. Mas não acredito nela: os sunitas não serão assim loucos. Loucos, ou perto disso, serão os que, perante os crimes, não perguntem a quem é que eles aproveitam.


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