Os compadrios
Quando folheamos as páginas dos jornais e lemos, por alto, o que lá vem impresso, a ideia dominante que nos fica é a daquilo que em português corrente se chama compadrio. Compadres e comadres cruzam-se no mesmo palco, pisam do mesmo modo e copiam as mesmas maneiras. O poder português é dos compadres e o que é real oculta-se na ficção.
A hierarquia da igreja portuguesa não é, há meses, tema sério da notícia.
E, no entanto, ela move-se. Mas não se vê. Não apareceu enquanto o país ardia nem se nota, à vista desarmada, que esteja atenta a problemas nacionais e pastorais tão graves como os do desemprego crescente, da degradação da qualidade de vida do nosso povo (cuja maioria ela afirma representar), na cumplicidade do estado português com o imperialismo mundial, na condenação inequívoca de leis eticamente desprezíveis (como as do Código do Trabalho, da Imigração, da lei dos partidos ou da reorganização administrativa e territorial). Mas não nos iludamos com as aparências: a hierarquia move-se. Prova disto é que, tendo-se sumido enquanto os pastos, as florestas e a vida das pessoas ardiam num só archote, logo reapareceu quando, já com o fogo apagado, surgiu o negócio da recolha dos fundos de solidariedade e da sua distribuição pelas desesperadas vítimas. Nessa altura, num ápice, surgiram em cena os escuteiros, as IPSS, as paróquias, as associações caritativas, as fundações católicas, etc. É certo que só se ouviu apelar à solidariedade através dos balcões dos bancos de capitais notoriamente eclesiásticos.E não menos certo é que não transpirou notícia de que a opulenta igreja católica se tenha desfeito de um só cêntimo dos milhões de euros que guarda para correr a amparar os milhares de crentes atingidos pelo cataclismo. A hierarquia move-se mas enquanto se desloca vai destapando o que devia ocultar. O travestismo, no entanto, não imprime o seu ferro apenas nos bispos portugueses. É marca de qualidade do poder daqueles que lá estão ou procuram lá chegar. O ministro da Saúde afirma que anda a estudar, caso por caso, as certidões dos óbitos anormais causados pela vaga de calor. E isto por quê ? Porque o ministro se tem na conta de homem honesto e fiel à moral cristã. Tudo em defesa da Ètica. Porém, como lhe falham as convicções, não hesita em elogiar o comportamento do Serviço Nacional de Saúde que ele - ministro - tem vindo dia a dia a assassinar. Destapa o que devia tapar. O ministro do Trabalho, o pró-beato Bagão Félix, tem uma ideia excessiva do seu próprio poder face à força dos trabalhadores. Possui um sentido cínico de humor e golpeia os humildes pelas costas enquanto lhes pinta os quadros da solidariedade cristã. O que ele não pode ocultar é a responsabilidade que assume na ofensiva contra a contratação colectiva, no galopar dos despedimentos, na destruição dos direitos laborais, etc. Tudo isso entre encíclicas, sotainas, cilícios e sermões. Destapa-se onde se devia tapar. O ministro da Defesa tem uma imagem inqualificável mas representa-se como instalado num doirado altar : como seria de esperar, cria as bases do lucro e do neo-imperialismo militar e procura instalar no país, como nos USA, uma ordem de rígida subordinação ao domínio financeiro e castrense. Mas tem negócios que dificilmente oculta, desde a Moderna à Lockheed e de Rumsfeld à SGC/SAG de João Pereira Coutinho. Perante as câmaras da TV, Portas ajoelha-se e benze-se. Mas levanta o véu onde, pudicamente, ele devia permanecer. Dos outros ministros nem vale a pena falar-se. Fora do governo, por enquanto, a actual direcção do PS ensaia a discurso «à esquerda». Mas negará Ferro Rodrigues ter já aceite um firme compromisso para se reunir, em Outubro, com a fina-flor da Trilateral capitalista ? Ou ser-lhe indiferente que no grupo parlamentar do PS continue a pontuar o Humanismo e Desenvolvimento da extrema-direita de Rui Pena e Paulo Portas ? É uma sociedade de compadres, aquela onde vivemos. De tudo os bispos desviam o olhar. Não entendem, por exemplo, que a sua obsessão mediática os conduza, como há poucos dias aconteceu à situação risível de tentarem convencer que a quebra efectiva de presenças nas missas dominicais é compensada pelas audiências televisivas. Seta que o episcopado sempre apontou ao coração do televangelismo das seitas USA....
A hierarquia da igreja portuguesa não é, há meses, tema sério da notícia.
E, no entanto, ela move-se. Mas não se vê. Não apareceu enquanto o país ardia nem se nota, à vista desarmada, que esteja atenta a problemas nacionais e pastorais tão graves como os do desemprego crescente, da degradação da qualidade de vida do nosso povo (cuja maioria ela afirma representar), na cumplicidade do estado português com o imperialismo mundial, na condenação inequívoca de leis eticamente desprezíveis (como as do Código do Trabalho, da Imigração, da lei dos partidos ou da reorganização administrativa e territorial). Mas não nos iludamos com as aparências: a hierarquia move-se. Prova disto é que, tendo-se sumido enquanto os pastos, as florestas e a vida das pessoas ardiam num só archote, logo reapareceu quando, já com o fogo apagado, surgiu o negócio da recolha dos fundos de solidariedade e da sua distribuição pelas desesperadas vítimas. Nessa altura, num ápice, surgiram em cena os escuteiros, as IPSS, as paróquias, as associações caritativas, as fundações católicas, etc. É certo que só se ouviu apelar à solidariedade através dos balcões dos bancos de capitais notoriamente eclesiásticos.E não menos certo é que não transpirou notícia de que a opulenta igreja católica se tenha desfeito de um só cêntimo dos milhões de euros que guarda para correr a amparar os milhares de crentes atingidos pelo cataclismo. A hierarquia move-se mas enquanto se desloca vai destapando o que devia ocultar. O travestismo, no entanto, não imprime o seu ferro apenas nos bispos portugueses. É marca de qualidade do poder daqueles que lá estão ou procuram lá chegar. O ministro da Saúde afirma que anda a estudar, caso por caso, as certidões dos óbitos anormais causados pela vaga de calor. E isto por quê ? Porque o ministro se tem na conta de homem honesto e fiel à moral cristã. Tudo em defesa da Ètica. Porém, como lhe falham as convicções, não hesita em elogiar o comportamento do Serviço Nacional de Saúde que ele - ministro - tem vindo dia a dia a assassinar. Destapa o que devia tapar. O ministro do Trabalho, o pró-beato Bagão Félix, tem uma ideia excessiva do seu próprio poder face à força dos trabalhadores. Possui um sentido cínico de humor e golpeia os humildes pelas costas enquanto lhes pinta os quadros da solidariedade cristã. O que ele não pode ocultar é a responsabilidade que assume na ofensiva contra a contratação colectiva, no galopar dos despedimentos, na destruição dos direitos laborais, etc. Tudo isso entre encíclicas, sotainas, cilícios e sermões. Destapa-se onde se devia tapar. O ministro da Defesa tem uma imagem inqualificável mas representa-se como instalado num doirado altar : como seria de esperar, cria as bases do lucro e do neo-imperialismo militar e procura instalar no país, como nos USA, uma ordem de rígida subordinação ao domínio financeiro e castrense. Mas tem negócios que dificilmente oculta, desde a Moderna à Lockheed e de Rumsfeld à SGC/SAG de João Pereira Coutinho. Perante as câmaras da TV, Portas ajoelha-se e benze-se. Mas levanta o véu onde, pudicamente, ele devia permanecer. Dos outros ministros nem vale a pena falar-se. Fora do governo, por enquanto, a actual direcção do PS ensaia a discurso «à esquerda». Mas negará Ferro Rodrigues ter já aceite um firme compromisso para se reunir, em Outubro, com a fina-flor da Trilateral capitalista ? Ou ser-lhe indiferente que no grupo parlamentar do PS continue a pontuar o Humanismo e Desenvolvimento da extrema-direita de Rui Pena e Paulo Portas ? É uma sociedade de compadres, aquela onde vivemos. De tudo os bispos desviam o olhar. Não entendem, por exemplo, que a sua obsessão mediática os conduza, como há poucos dias aconteceu à situação risível de tentarem convencer que a quebra efectiva de presenças nas missas dominicais é compensada pelas audiências televisivas. Seta que o episcopado sempre apontou ao coração do televangelismo das seitas USA....