Um caso de notariado

Correia da Fonseca
A televisão transmitiu repetidamente um excerto da intervenção do senhor PM, não talvez exactamente como PM e mais como secretário-geral do seu partido, embora nestes casos nunca se saiba bem onde acaba um e começa o outro, digamos assim. De qualquer modo, as repetidas transmissões encontravam plena justificação no óbvio interesse do seu conteúdo. O senhor PM surgia aí manifestamente incomodado, embora o incómodo se abrigasse sob a acidez de um sorrido entre o irónico e o desdenhoso, e o caso não seria para menos. É que, segundo o senhor PM explicou para esclarecimento dos seus camaradas num primeiro momento e do País e do mundo nos momentos seguintes, está a acontecer que os do Partido Comunista Português, logo seguidos dos do BE, andam a arrogar-se o direito de dizer quem, quais, que partidos, são ou não são de esquerda, supõe-se que a identificarem os que de esquerda dizem ser mas de facto (isto é, quando os factos os iluminam) não o são. Ora, este atrevimento parece ter caído muito mal no espírito do senhor PM que se mostrou muito indignado perante ele. De onde a amargura que lhe tingia o sorriso. É que, como teve a bondade de explicar, nem os do PCP nem os outros tinham recebido legitimidade formal, procuração directa ou indirecta concedida por alguém, para ditarem quem é de esquerda e quem não o sendo anda a fingir sê-lo. O senhor PM não disse que só os deuses poderiam fazer tão melindrosa distinção, mas pelo tom usado qualquer de nós, humildes telespectadores comuns, pôde sentir que este tácito endosso da questão para instâncias verdadeiramente superiores não andava longe do primoministerial pensamento. E o natural, para não dizer que o obrigatório em agradecidos súbditos, seria concordar com ele e, consequentemente, condenar comunistas e o resto às penas infernais do desapreço.

Por ali não há saída

Acontece, porém, haver muitos cidadãos que não se sentem súbditos de ninguém e preferem pensar. E pensar não a partir do que lhes dizem mas do que sabem, talvez porque com Sophia e a voz de Fanhais aprenderam que «vemos, ouvimos e lemos,/não podemos ignorar». Ora, o que eles sabem, por vezes pelo preço de uma muito dolorosa experiência das coisas, é que ser de esquerda, quando se é governo, é fazer de tal modo que os poderosos e opressores não fiquem com mais poder e a opressão não se torne ainda mais pesada sobre os oprimidos; que o velho caudal de apropriações que constantemente flui das algibeiras dos pobres para os cofres dos ricos não se engrosse ainda mais; que a incerteza de quem trabalha acerca da própria possibilidade de ganhar a vida não aumente até dimensões monstruosas para que os que se limitam a mandar trabalhar (a faire faire, como creio que dizem os franceses) se sintam mais solidamente implantados na sua estranha forma de vida, como poderia ter cantado a Amália se lhe tivesse dado para reparar nestas coisas. E, é claro, estes são apenas três exemplos dos muitos sinais concretos que permitem não que um partido, mas sim que os homens e mulheres que o integram, distingam claramente quem é de esquerda e quem não o é. Não por se julgarem notários, como o senhor PM tentou dizer para os desacreditar, mas porque o verdadeiro notariado decorre, na circunstância, de olhar para a vida com os pés bem assentes na vida quotidiana tal como ela é e não como toscamente é inventada nos gabinetes do poder quase sempre com saídas de emergência assegurada para outros gabinetes. O notariado é, enfim, a vida vivida e sofrida. Para se entender e aceitar isto nem é preciso ser diplomado por qualquer universidade. Até o senhor PM era capaz disso. Se quisesse. Ou se o deixassem, alternativa que aqui se inclui como registo de boa-vontade.
De qualquer modo, o que talvez a ele próprio conviesse era que desistisse de convencer os outros, e provavelmente a si próprio, de que a realidade é uma invenção dos adversários políticos. Sobretudo quando câmaras e microfones da TV acompanham o que ele diz e o transmitem ao País, isto é, à generalidade dos cidadãos que sofrem as decisões do seu governo. Poderia o senhor PM alegar que tem de governar à direita de tal modo que até a drª. Manuela pode vir com sermões esquerdizados, e aí talvez alguns pecados lhe fossem perdoados. Mas o senhor PM vem desdenhar e insultar. Sem perceber que a opção o faz ficar feio na televisão e, pior que tudo, que por aí não há saída.


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