Políticas de Sócrates alvo de todas as críticas

Censura em toda a linha

Houve um momento do debate, entrara este já na sua recta final, em que o primeiro-ministro perdeu a noção do ridículo. Foi quando perante a catadupa de questões suscitadas pelos deputados comunistas, que o interpelaram numa cadência quase ininterrupta, afirmou não ter detectado diferenças no seu conteúdo, concluindo que «dizem todos a mesma coisa».
E descortinou na sucessão de intervenções um «disfarce» com o intuito, imagine-se, de tapar o que em sua opinião estaria a «correr mal» ao PCP.
Insólita leitura, esta, de José Sócrates, sobre as palavras oriundas da bancada comunista. Porventura só explicável pela incomodidade que as mesmas lhe causaram. E para as quais, há que dizê-lo, não teve resposta.
Francisco Lopes, por exemplo, falou das alterações ao Código do trabalho e à legislação laboral da administração pública para acusar o PS de «mandar para o lixo os seus compromissos» e de estar a propor a «facilitação dos despedimentos sem justa causa», com instauração do «reino da arbitrariedade e da indignidade nas empresas e nos locais de trabalho».
A esta denúncia frontal das alterações para pior do Código do Trabalho juntou António Filipe, por outro lado, o rol de compromissos assumidos e não cumpridos pelo PS. E socorrendo-se das afirmações constantes das suas bases programáticas 2005/09, lembrou, tema a tema e página a página, o fosso que separa as promessas da prática do Governo.
Agostinho Lopes, por seu lado, sublinhou que o País é dos mais desiguais da União Europeia e que para essa desigualdade tem contribuído a política salarial do Governo e a sua política de prestações sociais, bem como o problema da taxa de inflação.
As consequências são a perda do valor real dos salários dos trabalhadores, o que levou o deputado do PCP a inquirir sobre a data em que pensa o Governo actualizar a taxa de inflação e a proceder a um aumento intercalar de salários e pensões.
Escusado será dizer que nenhuma destas questões obteve resposta de José Sócrates, como em branco ficaram as observações do deputado José Soeiro que, depois de citar o alerta feito pela Igreja portuguesa sobre o alargamento da pobreza no nosso País, perguntou ao primeiro-ministro se tem ideia do que é viver com 300 ou 400 euros por mês, e com esse dinheiro pagar as despesas da casa, a farmácia, a alimentação, o vestuário.
Ignoradas pelo chefe do Governo foram também as questões colocadas pelo deputado Honório Novo, que começou por referir que o País real, o país das micro, pequenas e médias empresas «anda a censurar o Governo há muito tempo», pela razão simples, explicou, que aquele «desde o início do seu mandato anda a proteger os fortes e os poderosos e a desprezar, a perseguir os que nada têm, os que trabalham, os mais fracos».
Exemplos, deu-os ainda em abundância o parlamentar do PCP, desde os aumentos dos encargos e prestações da compra de casa até ao crédito para as micro empresas que, quando existe, é «uma espécie de corda na garganta para enforcar os pequenos empresários», perante a complacência do Governo a quem acusou de «nada fazer» a não ser «verter lágrimas de crocodilo».
João Oliveira, por seu turno, referiu que ao fim de três anos este Governo do PS «fica marcado pela destruição de emprego qualificado e com direitos e sua substituição por trabalho precário, pelo recorde das taxas de desemprego e pela redução no acesso ao subsídio de desemprego».
Miguel Tiago falou dos problemas juvenis para denunciar que o Governo faz dos jovens a «linha de frente de gerações a quem quer tirar direitos». Sem direitos na educação, na habitação, no acesso ao emprego e no trabalho. «Milhares de jovens trabalham como via e último recurso através de empresas de trabalho temporário», denunciou, referindo ainda os «milhares nos call center e nas unidades fabris que, trabalhando hoje, não sabem se trabalharão amanhã».
Jorge Machado trouxe ao debate duas áreas centrais do Código do Trabalho: a contratação colectiva, conquista obtida pela luta de gerações e gerações de trabalhadores, e os horários de trabalho. E depois de considerar que em matéria de Código de Trabalho o PS «ultrapassa pela direita a própria direita», sobre a segunda questão alertou que está em causa a total desregulamentação do horário de trabalho, pondo «tudo nas mãos do patrão, sem que os trabalhadores recebam um tostão pelo trabalho suplementar».
Bruno Dias, na sua interpelação a José Sócrates, abordou a questão dos serviços para dizer que aquele bem «pode dizer mil vezes que os está a modernizar que as pessoas o que vêem no dia-a-dia é o contrário: é que o Governo está a rebentar com o Serviço Nacional de Saúde e só por piada de mau gosto alguém pode dizer que está a defendê-lo». Exemplificando, trouxe a lume os aumentos escandalosos das taxas moderadoras, a falta de médicos e enfermeiros, o encerramento de serviços hospitalares e unidades de saúde, o fecho de maternidades, tudo isto enquanto, simultaneamente, «floresce o negócio dos privados nos mesmos locais».


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