As vias de expressão do desporto actual

A. Mello de Carvalho
O conceito de desporto exige, neste final do século, um alargamento significativo da sua compreensão capaz de integrar as novas formas e a sua evolução futura. É certo que esta constatação se vai impondo pela sua própria força, mesmo aos mais irredutíveis defensores do modelo único fornecido pela alta competição, mas, precisamente por isso, é indispensável proceder a uma clarificação do conceito. Se não o fizermos poder-se-á cair numa confusão insustentável para quem deseja ver claro no meio das contradições que se vivem do ponto de vista doutrinário. O desporto de alto nível, o desporto profissional, o desporto de «massa», o desporto educativo, o desporto «de inserção social», o desporto «recreativo», o desporto espectáculo, etc., assumem todos os mesmos significados? Ou seja, podemos pensar num conceito unitário de desporto?
O conceito «clássico» de desporto voou em estilhas. Coloca-se, assim, um autêntico problema de perda de significado semântico de um lado, agravado por outro lado, pela evolução de certas actividades, o aparecimento de novas práticas, a emergência de certos fenómenos negativos (mercantilização descabelada, dooping em avanço, etc.) e a influência crescente de mecanismos exteriores ao desporto mas que o determinam no seu conteúdo e objectivos (politização aberta, mediatização em que a publicidade assume aspectos ilegitimamente estruturantes, mudança de atitude dos diferentes níveis do Estado, crise das antigas estruturas, comercialização abusiva, promiscuidades várias, corrupção etc.). Tudo isto provoca uma legítima inquietação em todos aqueles que lutam por um desporto entendido como factor cultural. Mas, além disso, verifica-se que um vasto conjunto de novas representações simbólicas de carácter diferenciado, provocam uma enorme incoerência no Sistema e impedem a estruturação de uma visão clara do fenómeno que passou a assumir contornos ainda mais contraditórios do que no passado.
Desta forma é possível concluir que o desporto, para além da profunda mutação que está a sofrer, também está a alterar o seu próprio significado. As pressões de vário tipo que se exercem sobre ele e a sua própria segmentação, provocaram não só aquele alargamento do conceito, mas também uma forte perda de coerência interna quando pensado como actividade cultural enriquecedora.
Há diferentes formas de equacionar e analisar esta situação, mas pode-se afirmar que esta evolução se polariza em torno de doze «lógicas» predominantes que, na nossa Sociedade, parecem estar a afastar-se cada vez mais umas das outras:
- a «lógica» clubística, competitiva federada, selectiva e de «rendimento», visando a superação; a lógica da afirmação local através da «equipa bandeira»; a «lógica» do espectáculo «super - mediático», altamente comercializado; a «lógica» da comercialização da prática das actividades fisico-desportivas como aspecto específico do «desporto para todos» (mercado de puro consumismo); a lógica de prática individual centrada na saúde, na manutenção da força do trabalho e na melhoria da qualidade de vida; a lógica da prática associativa como expressão do «desporto direito do povo»; a «lógica» do «desporto educativo» dirigido fundamentalmente à juventude; a «lógica» de uma prática desportiva dirigida aos marginalizados e às minorias sociais obedecendo à perspectiva de inclusão social; a «lógica» das relações do praticante com o ambiente e a com a natureza e projectando-se em vários tipos de Turismo; a «lógica» da actividade de interesse público da acção dos clubes chamados de «populares»; a «lógica» do serviço público dirigido a todos e, em especial, colocada ao serviço da educação e formação escolar; a «lógica» da prática como factor de construção, reconstrução e manutenção da força de trabalho.
Toda a questão se resume ao facto a que as relações entre este conjunto de «lógicas» se caracteriza por uma grande conflituosidade, em que cada uma, para além de viver os seus problemas próprios, é incapaz de estabelecer relações coerentes com as outras, porque visam, entre algumas, interesses antagónicos. A origem do fenómeno exige um estudo cuidado para se tornar bem clara, mas é bem evidente que a tendência dos «poderes» que produzem e exploram o desporto espectáculo, procura dominar e impor o seu modelo a todos os outros, exercendo um efeito extremamente nefasto.


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