Resultados catastróficos para o partido trabalhista

Londres caiu para os conservadores

Manoel de Lencastre
A primeira experiência eleitoral do primeiro-ministro, Gordon Brown, à frente do Partido Trabalhista, saldou-se por uma clamorosa derrota em que o partido que chegara ao poder em 1997 numa atmosfera de esperança e glória, e ganhou três eleições gerais, perdeu nas autárquicas de quinta-feira, mais de 300 vereadores e o controlo de numerosas grandes regiões. Pior ainda, os trabalhistas viram-se humilhados na ocupação de um banal terceiro lugar na média de votos entre os partidos, tendo sido ultrapassados, também, pelos liberais-democratas.
Os conservadores, cuja imprensa agora embandeira em arco e fez uma campanha escandalosamente partidária, chamaram a si 44% dos votantes, os liberais-democratas chegaram aos 25% e os trabalhistas, o partido do governo, não passaram dos 24%. Para cúmulo, o próprio Ken Livingstone, apesar de haver desenvolvido uma corajosa campanha, perdeu Londres para um adversário excêntrico e sem grandeza política. A tragédia dos trabalhistas continua a repetir-se. Não conseguem sobreviver aos seus próprios êxitos eleitorais e morrem, morrem, sempre nas garras do capitalismo. Com as eleições gerais a um ano, aproximadamente, de distância, o que irá fazer Gordon Brown após esta derrocada? E porquê uma catástrofe desta magnitude quando as condições gerais do mundo permitiam e permitem, talvez, avançar para posições mais à esquerda ou, até, para o socialismo? Na ânsia de salvar os bancos, os trabalhistas ficaram pelo caminho.
Para não nos determos naquilo que se passou em 1924 e em 1931, quando o trabalhista Ramsay Mac Donald perdeu o poder para o conservador Stanley Baldwin, regressemos a Harold Wilson, que o perdeu para Heath, em 1970, e a James Callaghan, que foi derrotado por Margaret Thatcher em Maio de 1979. Estamos em condições de perguntar: o que acontecerá a Mr. Brown, um escocês cheio de ambições, quando o povo britânico voltar a pronunciar-se? As derrotas do trabalhismo – sendo consequência das suas políticas de enfeudamento ao capitalismo – são vitórias dos piores inimigos desse movimento, os conservadores, são derrotas dos milhões de pessoas empobrecidas e vulneráveis que, na crise actual, já não conhecem a estrada por onde avançam. Porquê viver assim? A máquina eleitoral e política dos conservadores recuperou das suas próprias humilhações. Depois de 11 anos de naufrágios ela aí está, novamente, pronta para chegar ao poder e, o que é mais importante, certa de haver conseguido convencer o eleitorado da incompetência dos governos trabalhistas. A derrocada de Gordon Brown e dos seus ministros e ministras começa a surgir no horizonte. Se os resultados das autárquicas de 5.ª feira vierem a repetir-se nas eleições gerais que se aproximam, grande parte dos ministros actuais perderá os seus lugares na Câmara dos Comuns e os conservadores constituirão uma maioria absoluta superior a 100 lugares.

Num ca­minho des­co­nhe­cido

Disse o próprio Ed Balls, um dos ministros do gabinete mais próximos do primeiro-ministro: «Os eleitores manifestaram-se de mau humor para connosco. Temem aumentos dos impostos, aumentos dos preços da gasolina e dos produtos alimentares. É preciso que saibam que estamos do seu lado, mas torna-se necessário provar que apoiaremos as famílias deste país». Estranhas conclusões para desenvolver na noite em que se perdiam estas eleições. Por seu lado, Ian Gibson, um dos mais influentes parlamentares, afirmou: «Gordon Brown, tem até à próxima conferência nacional do partido, em Setembro, para nos provar que está em condições de nos liderar nas próximas eleições gerais. Se o não conseguir, então teremos muita gente revoltada contra ele. Os dirigentes deste partido têm de ouvir as queixas do povo. Pedir desculpa pelos erros cometidos não nos leva a parte alguma. É agora o momento de se elaborarem novas políticas adequadas ao momento que atravessamos». Mas haverá tempo suficiente para convencer um tão pragmático eleitorado?
Uma das decisões do governo Brown que mais prejudicaram os seus próprios eleitores foi a de suprimir leis que davam alguma coisa aos mais vulneráveis, principalmente aquela que limitava os impostos das populações de mais baixos rendimentos a 10%, apenas, das suas receitas. Esta iniciativa foi de Gordon Brown e do seu ministro das Finanças, Alistair Darling. Deputados do partido, como o já referido Ian Gibson, e Frank Field, um antigo ministro, ameaçaram com medidas de resistência interna. A lei da limitação de impostos agora abolida veio prejudicar, directamente, mais de cinco milhões de pessoas. Entretanto, em regiões de grande influência dos trabalhistas, como as de Newcastle, Sunderland, Middlesbrough, continuam a verificar-se ondas de despedimentos. Era nesta situação que o partido governamental queria vencer as eleições locais? Os preços dos produtos alimentares continuam a subir, implacavelmente. Em apenas um ano o leite subiu 17%, o arroz, 61%, o queijo, 26%, a manteiga, 62%, os ovos (por dúzia), 47%, as massas alimentares, 81%.

Ao lado do ad­ver­sário

Nestas condições, os principais vencedores das eleições, os conservadores de David Cameron, pareciam perfeitamente justificados ao declararem: «Ganhámos importantes câmaras no Norte do país, como Bury e North Tyneside. O nosso partido regressou ao País de Gales registando consideráveis avanços em Monmouth, Cardiff e no Vale de Glamorgan. No Sul de Inglaterra, ganhámos Southampton cujo controlo tínhamos perdido em 1984». Nesse mesmo difícil Sul, os trabalhistas perderam Reading, mas mantiveram Slough. No Norte, os conservadores continuam a não registar presença nas grandes câmaras de cidades de classe operária como Manchester, Liverpool, Sheffield e Newcastle. As eleições registaram-se apenas em regiões de Inglaterra e do País de Gales. Não na Escócia. Contudo, os desastrosos resultados do Partido Trabalhista em nada facilitarão as negociações laborais em curso actualmente. A greve da refinaria de Grangemouth (Escócia), que causou grande alarme em todo o país, fez aumentar o espírito militante de muitos sectores da classe trabalhadora britânica actualmente em luta por melhores salários e condições – professores, trabalhadores do sector da saúde, funcionários públicos, pessoal dos Correios, metalúrgicos e outros trabalhadores das centrais nucleares, das universidades e colégios, milhões de pessoas. O governo trabalhista, não via isto?
A queda para os conservadores da grande metrópole que é Londres decidiu-se nas últimas horas. Até à véspera das eleições, Ken Livingstone desfrutava de uma vantagem de 2 ou 3% sobre o seu adversário cuja linguagem reaccionária só surpreendeu quem o não conhece. Como jornalista de The Daily Te­le­graph, Boris Johnson teve todo o apoio do seu jornal e de todos os outros, posto que os trabalhistas não têm jornais que os defendam – toda a imprensa britânica está nas mãos, como se sabe, dos grandes grupos capitalistas do sector. Por isso, Johnson tinha imensa publicidade à sua volta quando acusava Ken Livingstone de «espírito e estilo de Pyongyang», de ser amigo da religião islâmica, da causa da Palestiniana e de não ser inimigo do Hamas. Mesmo assim, Ken teve sólido apoio nos sectores da classe trabalhadora londrina. Quem ele não podia vencer eram os próprios ministros trabalhistas que se colocaram ao lado do seu adversário, além de inúmeros blai­ristas.

As es­co­lhas de Brown

Na conjuntura actual, toda a gente na Grã Bretanha está de acordo com a percepção de que Gordon Brown perderá ou vencerá as próximas eleições gerais de acordo com a evolução da situação no campo da economia. O povo britânico já está a sentir na própria pele as consequências do declínio na vida industrial, de brutais aumentos de preços de produtos essenciais, da impossibilidade de confiar no actual governo quanto à opressão resultante dos pesados impostos em vigor dadas as sucessivas anulações de garantias há muito conseguidas nesse campo, como acima notámos. O desemprego ameaça. Há milhões de pessoas com os pagamentos das hipotecas aceites na compra de casas em atraso. O perigo das expropriações resultantes dessa situação está bem à vista. O valor de mercado das casas de habitação está a cair. Diariamente. O clima é de austeridade. Quase impossível se torna comprar casa pela primeira vez porque os bancos exigem um depósito inicial de 10% o que, na aquisição de uma residência avaliada em 280 000 euros, significa uma entrada imediata de 28 000 euros acrescida, ainda, de mais 2800 euros para o imposto que recai sobre a aquisição em causa, além dos encargos com advogados e outras despesas. O el­do­rado que o mercado das hipotecas oferecia acabou. Há milhares e milhares de propriedades cujo valor de mercado é inferior às respectivas hipotecas. Os bancos, portanto, estão a nadar num oceano perigoso. Foi por isso que o primeiro-ministro, há dias, lhes concedeu um empréstimo de 50 biliões de libras para que fortalecessem o mercado. Mas o mercado nunca mais será aquilo que foi.
Já o importante Royal Bank of Scotland, uma instituição bancária que de escocesa só tem o nome, teve de pedir aos seus accionistas a importância de 12 biliões de libras (17 biliões de euros) depois de registar novas perdas no mercado imobiliário americano (6 biliões de libras = 8400 biliões de euros. Também o Barclays está a considerar o recurso aos seus actuais accionistas para que subscrevam mais acções e elevem, portanto, a liquidez do Banco cujas perdas no mercado imobiliário americano foram, simplesmente, catastróficas. Na verdade, Gordon Brown visitou os Estados Unidos, recentemente, e discutiu a situação financeira internacional com dirigentes dos principais bancos americanos, mas não regressou com quaisquer ilusões de que seja possível pôr em prática uma política unida entre os Estados Unidos e a Grã-Bretanha porque os bancos americanos entraram numa situação de autêntico «salve-se quem puder» no que estão a ser ajudados pelo próprio Federal Reserve Board. Nestas condições, Gordon Brown, encarregou o Banco de Inglaterra de preparar novos empréstimos aos bancos britânicos. A sua ilusão, a sua esperança, residem na hipótese de os bancos conseguirem entrar numa base de estabilidade, mas os observadores independentes mais cotados não são dessa opinião. A crise da Banca é uma crise terminal. Se Gordon Brown insistir em querer salvar os bancos britânicos para que estes tentem estruturar uma nova política de crédito mais ou menos segundo as linhas anteriores, cairá com eles, tal como todos aqueles que vivem com os corvos morrerão com eles. Alternativamente, o primeiro-ministro pode apelar ao povo britânico para que se construa uma nova sociedade com rumo para o socialismo, se nacionalizem todos os bancos e se divise uma nova política habitacional livre das práticas asfixiantes do capitalismo. Só nestas condições se poderá salvar.

Voz da his­tória

Par­tido Tra­ba­lhista uma tra­jec­tória atri­bu­lada

O Partido teve as suas origens no desenvolvimento dos sindicatos britânicos e das sociedades socialistas em fins do século 19. Mas, no ano de 1906, o Partido Trabalhista Independente, criado e dirigido por Keir Hardie, a Federação das Sociedades Marxistas e Social-Democráticas, diversos sindicatos e outras organizações, uniram-se sob a designação de La­bour Party e conseguiram eleger 29 deputados à Câmara dos Comuns. Em 1918, surgiam os estatutos do Partido posicionando-o para objectivos e princípios de partido parlamentar e socialista comprometido com os ideais das nacionalizações e da igualdade entre todos os homens e todas as mulheres. O crescimento dos sindicatos proporcionou ao novo Partido ganhar vantagem relativamente aos liberais, então em declínio, e, assim, em 1918, já ocupava 57 lugares na Câmara dos Comuns. Esse número seria aumentado para 142, em 1922. Foi em 1924 que se formou o primeiro governo trabalhista minoritário, dirigido por Ramsay MacDonald. O Partido Trabalhista tornava-se na oposição natural ao principal partido do país, o Conservador. Mas a crise económica e financeira de 1931 levaria o governo trabalhista a adoptar medidas tendentes à salvação do capitalismo e a propor reduções nos subsídios de desemprego, cortes nas despesas públicas e no investimento nacional. Estas propostas, levariam a importantes divisões no seio do Partido, que as rejeitou, e o primeiro-ministro, Ramsay MacDonald, foi constituir um novo governo associado aos conservadores e aos liberais.

Nesta conjuntura, os trabalhistas perderam a iniciativa política e só viriam a ocupar posições ministeriais no governo de coligação presidido por Winston Churchill, em 1940. Naturalmente, após a 2.ª Guerra Mundial, os trabalhistas estavam idealmente colocados para presidir à reconstrução do país. Assim, nas eleições gerais de 1945, obtiveram nada menos de 394 lugares nos Comuns e uma consequente maioria absoluta para guiar a Grã-Bretanha e o seu povo ao longo de uma nova estrada, a do socialismo. Mas a resistência do capitalismo, campanhas de intrigas e acções divisionistas levadas a cabo por adversários do socialismo no interior do Partido acabariam por destruir o governo de Attlee, como destruiriam todos os outros que existiram até à nossa época. Trata-se do mesmo caminho que está a percorrer, actualmente, o governo de Gordon Brown.

Pri­meiros-mi­nis­tros da Grã-Bre­tanha nos sé­culos XX e XXI


1902 – Arthur James Balfour (Conservador/Unionista); 1905 – ‘Sir’Henry Campbell Bannerman (Liberal); 1908 – Herbert Henry Asquith (Liberal); 1916 – David Lloyd George (Coligação entre Liberais e Conservadores); 1922 – Andrew Bonar Law (Conservador); 1923 – Stanley Baldwin (Conservador); 1924, Janeiro, J. Ramsay MacDonald (Trabalhista); 1924, Novembro, Stanley Baldwin (Conservador); 1929 – J. Ramsay MacDonald (Trabalhista); 1931 – J. Ramsay MaDonald (em coligação com Liberais e Conservadores); 1935 – Stanley Baldwin (Conservador); 1937 – Neville Chamberlain (Coligação Nacional); 1940 – Winston Churchill (Coligação Nacional); 1945, Maio – Winston Churchill (Conservador); 1945, Julho – Clement Attlee (Trabalhista); 1951 – Winston Churchill (Conservador); 1955 ‘Sir’ Anthony Éden (Conservador); 1957 – Harold Macmillan (Conservador); 1963 – ‘Sir’ Alec Douglas Home (Conservador); - 1964 – Harold Wilson (Trabalhista); 1970 – Edward Heath (Conservador); 1974 – Harold Wilson (Trabalhista); 1976 – James Callaghan (Trabalhista); 1979 – Margaret Thatcher (Conservadora); 1990 – John Major (Conservador); 1997 – Tony Blair (Trabalhista); 2007 – Gordon Brown (Trabalhista).


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