Governo limita direitos dos estudantes

Valorizar as conquistas de Abril

O dia 31 de Janeiro de 2008 foi assinalado por uma grande jornada de luta dos estudantes do ensino secundário. Este protesto, onde participaram milhares de estudantes a nível nacional, realizou-se pela exigência de «uma escola pública, gratuita e de qualidade» e pela defesa de uma «escola democrática», contra as políticas educativas do Governo, reivindicando, nomeadamente, a revogação do Estatuto do Aluno, o fim dos exames nacionais, a implementação da educação sexual e a melhoria das condições materiais nas escolas.
Esta jornada de luta, como já vem sendo hábito, foi marcada, um pouco por todo o País, por tentativas de impedimento de direito à manifestação dos estudantes, numa linha antidemocrática do Governo que tenta calar os mais justos protestos dos cidadãos.
Em entrevista ao Avante!, João Rodrigues e André Martelo, dirigentes estudantis, lamentaram a atitude do Executivo PS que não hesita em cercear liberdades democráticas essenciais.
Na escola do João Rodrigues, no Porto, chegou mesmo a haver uma carga policial sobre os alunos. «Estávamos, à porta da escola, a fazer um piquete com cerca de 15 pessoas. Entretanto, informados pelo conselho executivo, chegaram as forças policiais pedindo para a “malta” dispersar. Nós não arredámos pé, sentámo-nos no chão e dissemos-lhes que teriam de passar por cima de nós se quisessem abrir o portão. Passado pouco tempo, os polícias começaram a empurrar os estudantes e chegaram mesmo a agredir um membro da associação com um soco no abdómen», relatou, acrescentando, indignado: «É um direito que nós temos, que os portugueses conquistaram com o 25 de Abril».
Também em Corroios, no concelho do Seixal, aconteceu um episódio insólito. «Um membro do conselho executivo veio para a porta da escola dizer aos alunos para não participarem na manifestação e que se o fizessem poderiam levar um processo», contou André Martelo. Sobre a história do seu colega, sublinhou que os alunos «não são contra a polícia, o que entendemos é que esses ataques não podem existir em democracia. Temos a noção que estas situações só servem para oprimir a luta dos estudantes.»
A identificação dos estudantes, por parte dos agentes da autoridade, é outra das formas de reprimir os protestos. «Entendemos que os alunos não tem que ser identificados porque não estão a cometer nenhum crime e se o quiserem fazer então que nos levem para a esquadra», informou.
Esta situação, segundo os dois entrevistados, só poderá ser combatida de uma forma, com mais protestos. «Só a luta é o caminho», frisou André Martelo.

Atentados e repressões

Também o trabalho das associações de estudantes tem sofrido sérios atentados e repressões por parte do dos conselhos executivos, limitando a participação estudantil no movimento associativo. Por seu lado, o Governo diminui a participação dos estudantes nos órgãos de gestão das escolas – a Assembleia de Escola e Conselho Pedagógico – pondo os estudantes de parte na gestão de uma coisa que é deles – a escola. Por lei devem constar na assembleia dois representantes dos alunos, um do ensino regular e outro do ensino recorrente, o que é um número reduzido face ao número de estudantes nas escolas.
Para o futuro próximo, ou seja no terceiro período, o grande objectivo será divulgar as recentes conclusões do Encontro de Associações de Estudantes. «Temos que valorizar o que já se conquistou e dizer aos alunos que nunca lhes foi dado nada, mas sim conquistado. Mesmo depois do 25 de Abril, há uma série de coisas que os sucessivos governos têm querido implementar e que foram travadas pelos estudantes, como aconteceu, em certos aspectos, com o Estatuto do Aluno. Foi uma pequena vitória que teve uma grande importância», afirmou André Martelo.
«A luta é o caminho e só com a luta podemos mudar as coisas ao longo dos anos», acrescentou João Rodrigues.
Sob o lema «Democracia e Educação» vai ainda circular pelas escolas um abaixo-assinado, para reivindicar o fim dos ataques à escola pública. «Assistimos a um crescente número de atropelos à vida normal das associações de estudantes (AAEE), que constitui uma grave limitação à democracia nas escolas e que pretendem limitar a acção das AAEE como meras “comissões de festas” e não como dinamizadores da discussão e participação colectiva na vida da escola e como mobilizadores das lutas estudantis», lê-se na subscrição.
Em simultâneo, realizar-se-á uma campanha de esclarecimento sobre o movimento associativo, onde se irá denunciar os problemas da educação. «Queremos esclarecer e ter mais opiniões, criando a unidade que levará a mais lutas, para que no próximo ano lectivo possamos continuar, com mais força, os protestos», acentuou André Martelo.

Estudantes não são criminosos
>Governo ignora Constituição da República

Na última manifestação dos estudantes do ensino secundário foram verificadas situações que se distanciam do cumprimento da própria Constituição da República.

# Madeira – subcomissário da PSP tentou identificar e levar para a esquadra um estudante, porque a manifestação não estava autorizada;
# Golegã – PSP impediu a manifestação com o pretexto de a manifestação não estar autorizada e procedeu à identificação dos estudantes;
# Santarém – o Governador Civil «pediu» aos estudantes para, um dia antes da manifestação, irem à esquadra da PSP. Foram advertidos para não chamarem nomes ao primeiro-ministro, incluindo «fascista», e para terem cuidado com o seu registo criminal;
# Escola Emídio Navarro, Almada – agente da PSP agrediu estudante que estava em cordão humano, desferindo-lhe um murro no estômago;
# Lisboa – foi identificado um estudante. PSP tentou alterar o percurso;
# Sintra – foi identificado um estudante. PSP exigiu que não fizessem barulho. Tentaram invocar a inexistência de autorização de manifestação;
# Porto – foram identificados estudantes;
# Castelo Branco – foram identificados estudantes;
# Escola Secundária Cristina Torres – conselho executivo impediu os estudantes de estarem à porta da escola no piquete. Presidente do conselho executivo ficou à porta a obrigar os estudantes a entrarem;
# Escola Secundária Esmoriz – conselho executivo à porta da escola arrancou faixas das mãos dos estudantes, desmobilizando a concentração.


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A limitação aos direitos e liberdades democráticas do povo português tem conhecido preocupantes contornos e manifestações diárias. As tentativas de silenciamento dos justos protestos dos trabalhadores, a insistente identificação policial de manifestantes, a repressão e a intimidação têm sido pedras de toque de um Governo que pretende calar o descontentamento face às consequências das suas políticas, recorrendo mesmo às autoridades para intimidar o exercício de direitos fundamentais. Esta ofensiva tem conhecido particular incidência entre os jovens, nomeadamente entre os estudantes, quer em relação ao exercício dos seus direitos de associação nas escolas quer em relação ao seu direito de manifestação quer em relação aos seus direitos políticos. Em entrevista ao Avante!, Bruno Madeira, dirigente do ensino secundário da JCP, e André Martelo e João Rodrigues, dirigentes estudantis, denunciaram a postura e as políticos do Executivo PS e prometeram, por parte dos estudantes, lutar em defesa de uma escola pública, gratuita e de qualidade.