Bush, a besta ferida

Pedro Campos
Estes meses que antecedem a saída de Bush da Casa Branca serão muito perigosos. Em poucos dias coleccionou, entre outras, três derrotas de peso. Na reunião do Grupo de Rio, em Santo Domingo, nem os governos mais reaccionários da região justificaram a agressão contra o Equador e Uribe teve de apresentar desculpas. Na XXV reunião da OEA, Bush ficou sozinho, enquanto viu ser novamente repudiado o ataque do seu peão. Na Grã-Bretanha, o tribunal decidiu a favor da petrolífera venezuelana e desarmou a jogada de terrorismo judicial e económico da Exxon.Mobil.
O império tem problemas muito sérios. É uma besta ferida que, ameaçadora, mostra a dentuça.
Bush sempre evitou falar de Hugo Chávez, mas agora sentiu a necessidade de entrar em acção e de o atacar pessoalmente, enquanto Ileana Ros-Lehtinen, republicana, formalizava a proposta de declarar a Venezuela como «estado terrorista». Boa prenda. Em 1980, defendeu o perdão para o terrorista cubano Orlando Bosch, implicado no atentado que derrubou um avião cubano cheio de passageiros. Em 2006, aparece no vídeo «638 maneiras de matar Castro», onde afirma: «Estou de acordo com qualquer oportunidade de matar Castro ou qualquer líder que oprima os povos.» Connie Mack, o outro proponente, não lhe fica atrás.
Durante a sua visita ao Brasil, Condoleezza Rice justificou a violação da soberania nacional do Equador ao afirmar que as fronteiras não podem servir de «refúgio para terroristas». Está claro: Uribe limitou-se a cumprir o papel que lhe ditou Washington.
As declarações de Bush e de Rice, assim como as constantes provocações de Uribe, vão todas na mesma direcção: desencadear um conflito bélico que evite uma saída política na Colômbia e, de passagem, acabe com os governos de Venezuela, Equador e Bolívia.

Especialista em provocações

Para além da campanha mediática contra a Venezuela e a Bolívia, incluindo as tentativas de secessão nesses países, o império, directamente ou através do seu poder sobre os média, não se detém em nenhuma provocação. Recentemente, o jornal espanhol El País [1] lançou o embuste de que «os guerrilheiros se movem no Norte do Equador em camionetas, segundo foi constatado por um funcionário da OEA, que afirma em privado o desconcerto que lhe provocou encontrar-se, na área da fronteira, com membros das FARC perfeitamente apetrechados.» A calúnia era tão grotesca que o secretário-geral da OEA, o insuspeito Insulza, enviou uma carta ao jornal afirmando que foi «com estupor e indignação» que leu tal informação. «Estou em condições – escreve – de garantir que tal afirmação é absolutamente falsa, já que a OEA não tem missões especiais, nem funcionários de nenhum nível, colocados na fronteira Norte do Equador, pelo que é impossível que algum funcionário tenha formulado tal declaração». Mais adiante acrescenta: «... posso garantir-lhe que ninguém da minha delegação viu guerrilheiro algum, nem sequer caminhos por onde possam transitar camionetas.» Esta nova manobra de El País foi posta a nu, mas isso não o vai impedir de novas invencionices e muito menos deterá a escalada de Washington, especialista em iniciar provocações que lhe permitam actuar militarmente contra alegados inimigos.
No princípio do século XX, o imperialismo norte-americano fez explodir, em Havana, o barco Maine para iniciar a guerra contra os restos do império espanhol e apropriar-se das Filipinas e de Cuba, a mesma que, a partir dos anos 60 do século XX foi vítima de todo o tipo de agressões ianques. Só um exemplo: a 23 de Agosto de 1962, Kennedy assinou o memorando de Segurança Nacional 181 com várias instruções para iniciar uma rebelião interna que desse azo a uma intervenção militar em Cuba. Entre várias recomendações apareciam estas: «afundar um barco, provocar incêndios para queimar plantações de cana de açúcar, derrubar um avião que transportava estudantes».
Esta semana o Pentágono desclassificou nova montanha de documentos. Uma vez mais ficou claro que não havia relação alguma entre Saddam Hussein e a Al'Qaeda. Isso já se sabia antes de Bush II iniciar a guerra contra o Iraque, que, segundo a agência britânica Oxford Research Business, já provocou mais de um milhão de mortos, sem incluir os das províncias de Karbala e Anbar, duas das regiões mais devastadas.
O império sabe de provocações e dispõe de um gigantesco coro de jornais, rádios e estações de televisão dispostos a apresentar as vítimas como os agressores. Estamos avisados.

[1] Edição de 12 de Março, em artigo da correspondente Maité Rico.


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