Autoridades coniventes
Carlos Javier Palomino Munöz, um jovem madrileno de 16 anos, foi apunhalado e morto dentro de uma carruagem de metro, no dia 11, por um militante fascista, militar profissional e membro do batalhão honorário da guarda do rei, que se dirigia armado com uma faca de mato para uma manifestação xenófoba.
Nos últimos quatro anos registaram-se mais de seis mil agressões racistas em Espanha
Carlos deslocava-se com um grupo de jovens para protestar contra a manifestação anti-imigrantes no bairro operário de Usera, convocada naquele dia pela organização de extrema-direita Democracia Nacional com o beneplácito das autoridades.
Alejandro, outro jovem antifascista que seguia com Carlos, foi também vítima do agressor que lhe lançou a arma branca furando-lhe um pulmão. Só depois o grupo restante conseguiu imobilizar o atacante, entregando-o à polícia.
Porém, logo de seguida, o grupo voltou a ser alvo de violência, desta vez pelo corpo de intervenção que os aguardava à saída do metro. As cargas policiais provocaram ferimentos em vários activistas, ficando um deles em estado grave.
Os principais meios de comunicação tentaram apresentar o assassinato de Carlos como mais um «incidente», consequência de rixas «rotineiras» entre bandos de «antifas» e de fascistas.
Todavia, o aumento do número de agressões xenófobas em Espanha, bem como a sucessão de manifestações racistas e actos de homenagem ao ditador Franco e a outros fascistas do regime, devidamente autorizados pelos poderes públicos, apesar de constituírem flagrantes violações da lei, contrasta com a insistente interdição e injustificada repressão de manifestações e acções de condenação e rejeição de tais práticas.
A proibição voltou a impender sobre a manifestação de sábado, 24, convocada pela Coordenadora Antifascista de Madrid, que tinha precisamente como principal objectivo denunciar o ignóbil assassinato de Carlos Munöz e homenagear a sua memória com a colocação de uma lápide à entrada da estação de metro de Legazpi.
Aquela estrutura foi criada, em 1989, à margem dos partidos políticos, como «resposta popular organizada perante a penosa situação de cobertura institucional com que contam as organizações racistas e de extrema-direita», lê-se no site da Coordenadora ( nodo50.org/antifa).
Desde então, a Coordenadora organiza todos os anos uma manifestação antifascista em torno de 20 de Novembro, data da morte de Franco, a qual é intensamente comemorada em iniciativas públicas pelas organizações fascistas.
Desta vez, o tradicional desfile antifascista foi marcado para dia 24 e chegou a ser inicialmente autorizado pela delegação do governo. Contudo, já após o assassinato de Carlos, o mesmo órgão administrativo reviu a decisão e proibiu o acto.
A coberto da legalidade
Em contrapartida, como lembra o site sinpermiso (25.11), só em Novembro, a delegação do governo de Madrid autorizou duas manifestações fascistas no dia 11, uma no Bairro de Usera pela já referida Democracia Nacional e outra promovida por um grupelho fascista denominado Frente Nacional.
Em 17 do mesmo mês, teve lugar a marcha da Falange até ao Vale dos Caídos, em memória do fascista Primo de Rivera, e a manifestação da Aliança Nacional sob o lema «A imigração destrói o teu futuro» na Porta do Sol, que se realizou apesar não ter sido autorizada.
No dia seguinte, a Confederação Nacional dos Ex-Combatentes concentrou-se na Praça do Oriente. O Vale dos Caídos voltou a receber nova romagem no dia 20 pela Frente Nacional, enquanto, em simultâneo, a Falange realizava outro acto em memória de Rivera, no município de Alcalá de Henares, próximo da capital.
Finalmente, sábado último, a Associação das Vítimas do Terrorismo promoveu a sua oitava manifestação em quatro anos contra o inexistente processo de paz no País Basco, à qual aderiram publicamente um conjunto de organizações de extrema-direita e fascistas: Democracia Nacional, Aliança Nacional, Juventudes Falangistas, Espanha 2000, Falange, Associação Comandante Ynestrillas, Espanha e Liberdade, Frente Nacional, Peones Negros, Alternativa Espanhola e Juventudes das Falanges Espanholas.
Sucessão de agressões
Apesar de proibida, a manifestação convocada pela Coordenadora Antifascista para a estação de metro de Legazpi, no sábado 24, acabou por se realizar, culminando com um pequeno acto evocativo do jovem Carlos.
Ao longo de mais de duas horas, os activistas foram perseguidos pelas forças de intervenção, formando pequenos grupos que se esgueiravam pelas ruas circundantes, para voltar mais à frente a concentrar-se, afrontando em breves encontros as cargas policiais.
No final, cerca de 500 jovens conseguiram reunir-se, formando um cordão humano em volta do local onde outros aparafusavam à pressa a lápide de homenagem a Carlos, sob a vigilância ameaçadora dos destacamentos de choque.
Infelizmente, o assassinato de Carlos Munöz não é um caso isolado em Espanha. Desde 1992, foram oficialmente registados oito assassinatos por motivos racistas, xenófobos ou protagonizados por indivíduos e grupos de inspiração fascista. Pelos mesmos motivos, só nos últimos quatro anos, verificaram-se seis mil agressões em 200 municípios.
À medida que se aproximam as eleições legislativas, o número de casos de violência fascista tem vindo a aumentar, perante a tolerância cúmplice das autoridades e a indiferença relativa de sindicatos, forças políticas, até mesmo de partidos de esquerda.
Segundo Angeles Maestro, dirigente da Corriente Roja, odiario.info de 23.11) a ligação das organizações fascistas a sectores do aparelho de Estado explica em grande parte a sua liberdade de acção. O facto de «o assassino de Carlos pertencer a um batalhão da guarda real coloca cruamente a existência de redes nazis e de extrema-direita na polícia, no exército, na guarda civil, na magistratura, nunca depuradas, por uma Transição vergonhosa que não teve nada de democrática».
A mesma autora anota ainda que «a brutal repressão em Barcelona de uma manifestação antifascista» - operação dirigida por Joan Saura, conselheiro do Interior da Generalitat da Catalunha, dirigente da Iniciativa pela Catalunha - «mostra inequivocamente a execrável actuação de uma “esquerda” que cumpre o vergonhoso papel, impagável, ou muito bem pago, de ser o aríete da repressão na defesa da ordem estabelecida».
Alejandro, outro jovem antifascista que seguia com Carlos, foi também vítima do agressor que lhe lançou a arma branca furando-lhe um pulmão. Só depois o grupo restante conseguiu imobilizar o atacante, entregando-o à polícia.
Porém, logo de seguida, o grupo voltou a ser alvo de violência, desta vez pelo corpo de intervenção que os aguardava à saída do metro. As cargas policiais provocaram ferimentos em vários activistas, ficando um deles em estado grave.
Os principais meios de comunicação tentaram apresentar o assassinato de Carlos como mais um «incidente», consequência de rixas «rotineiras» entre bandos de «antifas» e de fascistas.
Todavia, o aumento do número de agressões xenófobas em Espanha, bem como a sucessão de manifestações racistas e actos de homenagem ao ditador Franco e a outros fascistas do regime, devidamente autorizados pelos poderes públicos, apesar de constituírem flagrantes violações da lei, contrasta com a insistente interdição e injustificada repressão de manifestações e acções de condenação e rejeição de tais práticas.
A proibição voltou a impender sobre a manifestação de sábado, 24, convocada pela Coordenadora Antifascista de Madrid, que tinha precisamente como principal objectivo denunciar o ignóbil assassinato de Carlos Munöz e homenagear a sua memória com a colocação de uma lápide à entrada da estação de metro de Legazpi.
Aquela estrutura foi criada, em 1989, à margem dos partidos políticos, como «resposta popular organizada perante a penosa situação de cobertura institucional com que contam as organizações racistas e de extrema-direita», lê-se no site da Coordenadora ( nodo50.org/antifa).
Desde então, a Coordenadora organiza todos os anos uma manifestação antifascista em torno de 20 de Novembro, data da morte de Franco, a qual é intensamente comemorada em iniciativas públicas pelas organizações fascistas.
Desta vez, o tradicional desfile antifascista foi marcado para dia 24 e chegou a ser inicialmente autorizado pela delegação do governo. Contudo, já após o assassinato de Carlos, o mesmo órgão administrativo reviu a decisão e proibiu o acto.
A coberto da legalidade
Em contrapartida, como lembra o site sinpermiso (25.11), só em Novembro, a delegação do governo de Madrid autorizou duas manifestações fascistas no dia 11, uma no Bairro de Usera pela já referida Democracia Nacional e outra promovida por um grupelho fascista denominado Frente Nacional.
Em 17 do mesmo mês, teve lugar a marcha da Falange até ao Vale dos Caídos, em memória do fascista Primo de Rivera, e a manifestação da Aliança Nacional sob o lema «A imigração destrói o teu futuro» na Porta do Sol, que se realizou apesar não ter sido autorizada.
No dia seguinte, a Confederação Nacional dos Ex-Combatentes concentrou-se na Praça do Oriente. O Vale dos Caídos voltou a receber nova romagem no dia 20 pela Frente Nacional, enquanto, em simultâneo, a Falange realizava outro acto em memória de Rivera, no município de Alcalá de Henares, próximo da capital.
Finalmente, sábado último, a Associação das Vítimas do Terrorismo promoveu a sua oitava manifestação em quatro anos contra o inexistente processo de paz no País Basco, à qual aderiram publicamente um conjunto de organizações de extrema-direita e fascistas: Democracia Nacional, Aliança Nacional, Juventudes Falangistas, Espanha 2000, Falange, Associação Comandante Ynestrillas, Espanha e Liberdade, Frente Nacional, Peones Negros, Alternativa Espanhola e Juventudes das Falanges Espanholas.
Sucessão de agressões
Apesar de proibida, a manifestação convocada pela Coordenadora Antifascista para a estação de metro de Legazpi, no sábado 24, acabou por se realizar, culminando com um pequeno acto evocativo do jovem Carlos.
Ao longo de mais de duas horas, os activistas foram perseguidos pelas forças de intervenção, formando pequenos grupos que se esgueiravam pelas ruas circundantes, para voltar mais à frente a concentrar-se, afrontando em breves encontros as cargas policiais.
No final, cerca de 500 jovens conseguiram reunir-se, formando um cordão humano em volta do local onde outros aparafusavam à pressa a lápide de homenagem a Carlos, sob a vigilância ameaçadora dos destacamentos de choque.
Infelizmente, o assassinato de Carlos Munöz não é um caso isolado em Espanha. Desde 1992, foram oficialmente registados oito assassinatos por motivos racistas, xenófobos ou protagonizados por indivíduos e grupos de inspiração fascista. Pelos mesmos motivos, só nos últimos quatro anos, verificaram-se seis mil agressões em 200 municípios.
À medida que se aproximam as eleições legislativas, o número de casos de violência fascista tem vindo a aumentar, perante a tolerância cúmplice das autoridades e a indiferença relativa de sindicatos, forças políticas, até mesmo de partidos de esquerda.
Segundo Angeles Maestro, dirigente da Corriente Roja, odiario.info de 23.11) a ligação das organizações fascistas a sectores do aparelho de Estado explica em grande parte a sua liberdade de acção. O facto de «o assassino de Carlos pertencer a um batalhão da guarda real coloca cruamente a existência de redes nazis e de extrema-direita na polícia, no exército, na guarda civil, na magistratura, nunca depuradas, por uma Transição vergonhosa que não teve nada de democrática».
A mesma autora anota ainda que «a brutal repressão em Barcelona de uma manifestação antifascista» - operação dirigida por Joan Saura, conselheiro do Interior da Generalitat da Catalunha, dirigente da Iniciativa pela Catalunha - «mostra inequivocamente a execrável actuação de uma “esquerda” que cumpre o vergonhoso papel, impagável, ou muito bem pago, de ser o aríete da repressão na defesa da ordem estabelecida».