Fantasmas do Concílio Vaticano II

Jorge Messias
Se, por vezes, recordar é um mal necessário, saber esquecer é bem pior. Ratzinger, o papa/cardeal, bem pode tentar surgir agora como fervoroso seguidor das teses do Concílio Vaticano II. Já lá vão 45 anos sobre o acontecimento e o Vaticano sente-se completamente à vontade para maquilhar o velho papa. A tarefa é simples: trata-se de traçar para Ratzinger uma imagem-tipo daquilo que ele nunca foi.
Pelo nosso lado, temos o dever de contribuir para repor a verdade. Sobreviveram ao Vaticano II muitas testemunhas convictas de que «branquear» Ratzinger favorece a Igreja. São pessoas bem informadas (como por exemplo Marcelo, o Sábio) sobre tudo o que efectivamente se passou no Concílio: as intrigas, as manobras de bastidor, as alianças secretas entre grupos de pressão, os actos intimidatórios, as perseguições. Alguns, como Frei Bento Domingues, em tempos defensores das filosofias «progressistas» das alas católicas mais avançadas, reivindicavam nessa altura uma pronta e profunda reforma da Igreja, nos quadros da Teologia da Libertação. Tentam, agora, executar uma difícil pirueta, dar o dito por não dito, abandonar o fundo da questão mas conservar as fórmulas que foram simpáticas a extensas massas populares.
O que aconteceu não pode ser esquecido. O passado justifica o presente. E o presente da Igreja, tal como foi o seu passado, continua fechado sobre si mesmo, ferozmente beato, tenebroso e autoritário. Ratzinger é a personificação disso tudo.

Um papa não nasce de novo

A convocação do Concílio Vaticano II partiu de uma decisão pessoal do Papa João XXIII, assumida contra a vontade de grande parte do Colégio dos Cardeais. O anúncio foi feito em Janeiro de 1959. A poderosa oposição virou-se contra o papa, acusando-o abertamente de fragilizar a Igreja e de tentar democratizá-la, acusando-o abertamente de revelar «debilidade mental». Seria loucura tentar «reconciliar a Igreja e o mundo, colocando-a ao serviço da Humanidade». Devia-se – isso sim – reforçar a prática eclesiástica seguida até então, quando o Vaticano se ergueu em apoio do nacional-catolicismo espanhol, excomungou os católicos comunistas (1949), suspendeu os padres-operários (1959), disciplinou os teólogos progressistas, sustentou os grupos religiosos mais reaccionários, como o Opus Dei e os Focolari, e proclamou que o remédio para todos os males é o voto de castidade, a catequese e o ascetismo. Bento Domingues dizia então, acertadamente, que a Igreja entrara em crise e que «de uma religião sem mundo resulta um mundo sem religião».
O movimento anti-reformista tinha o seu núcleo central na Congregação para a Doutrina da Fé (ex-Tribunal do Santo Ofício), presidida por Joseph Ratzinger a partir de 1981. O padre tinha desempenhado, anteriormente, funções de docência e de análise teológica, chegando ao alto cargo de Arcebispo de Munique. Gozava da reputação de cultivar um autoritarismo sem limites. Por muito pouco tempo, alguns citaram-no como um dos mentores da Teologia da Libertação. Depois, logo que tomou posse do Dicastério da Doutrina da Fé, perseguiu, demitiu e expulsou cruelmente todos aqueles que na Igreja Católica reclamavam reformas e abertura ao mundo.
É interessante notar-se como a arquitectura verbal sempre acompanhou Ratzinger/Bento XVI. Dizia ele, em 1985, numa entrevista publicada na imprensa italiana, a propósito do Vaticano II: «Aceito o Concílio. Considero que os danos encontrados nestes últimos anos não são atribuíveis ao Concílio verdadeiro mas, antes, ao desencadear no interior da Igreja de forças latentes e agressivas, centrífugas, talvez irresponsáveis ou simplesmente ingénuas, de um optimismo fácil, de uma ênfase quanto à modernidade que confundiu o moderno progresso técnico com um progresso autêntico, integral .»
É este baralhar contínuo do sentido das palavras e da lógica das ideias que caracteriza Bento XVI tal como se revelou na ética do cardeal Ratzinger. Quando ele fala em Concílio, é do seu concílio que está a falar. Quando refere as forças latentes e agressivas do interior da Igreja, o seu discurso é o do grande Inquisidor, que ele cultiva como uma segunda natureza. Quando o papa oculta o que tem sido a sua longa vida e as desgraças por que é responsável, avivemos-lhe a memória e lembremos-lhe Hans Kung, os irmãos Boff, os padres-operários, as mentiras oficiais e as intrigas tecidas no Vaticano e, sobretudo, o papel conspirativo que Joseph Ratzinger desempenhou nas chamadas revoluções de veludo que entregaram o poder aos capitalistas corruptos do Leste europeu, de África e da América Latina.
Em conclusão, poderia dizer-se a propósito de Bento XVI o mesmo que Hans Kung referia a propósito de João Paulo II (de quem Ratzinger foi uma espécie de «braço direito»): «Recebeu-me e deu-me todo o tempo de que precisei para me explicar. Mas João Paulo II não ouve os outros. Diz que se deve agir com caridade, mas com disciplina».


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