O rei e os presidentes

Correia da Fonseca
Cerca de um minuto apenas nos canais de televisão vassalos dos poderes censórios com liderança em Washington e seus arredores ideológicos, mais algum tempo nas estações libertas dessa ocupação, marcaram a passada semana televisiva: refiro-me, é claro, ao escândalo protagonizado por Juan Carlos, rei de Espanha, ao tentar calar Hugo Chávez, presidente da República da Venezuela. A generalidade dos telespectadores ocidentais, designadamente os portugueses, não pôde assistir ao episódio por inteiro, atentos controladores do que é saudável e adequado para os cidadãos das democracias ditas ocidentais eliminaram a intervenção de Chávez que tão mal-estar suscitou em Sua Majestade, bem como o discurso com que Daniel Ortega, presidente da Nicarágua, tentou esclarecer D. Juan. De qualquer modo, resultou do incidente, chamemos-lhe assim, que nos dias seguintes a imprensa portuguesa, e decerto não apenas ela, tomou o caso, depois de convenientemente aparado, como excelente ponto de partida para intensificar a sua permanente campanha anti-Chávez. Quanto à televisão, só vi a RTP 2 alargar o método de manipulação concentrada: a sua correspondente em Espanha andou a fazer entrevistas de rua para colher opiniões. Só encontrou quem aplaudisse a atitude do rei e lhe desse os parabéns. Quanto ao aplauso da atitude, compreender-se-á que tenho discordâncias, mas no que se refere aos parabéns, estou de acordo. Não pelo que Juan Carlos disse, que foi pouco e mal, deseducado e em abusivo uso da palavra, mas por um facto muito anterior: o de ter sido admitido à mesa daquela reunião.

À moda antiga

De facto, a Cimeira Ibero-Americana tem uma vocação preciosa: a de ser frequentada por chefes de Estado e de Governo eleitos pelos respectivos povos. Ora, como se sabe, D. Juan Carlos foi escolhido por um único homem, o generalíssimo Franco, aliás de currículo pouco recomendável. Este antecedente nada lisonjeiro para o rei devia aconselhá-lo à prudência e ao silêncio. Para mais, a sua indignação decorreu do facto de Hugo Chávez estar a qualificar o ex-presidente Aznar como aquilo que ele é, uma figura do actual fascismo espanhol na sua fachada democrática: recorde-se que do governo de Aznar fizeram parte figuras que integraram governos de Franco e também que o fascismo operacional dos tempos presentes prescinde do uso de fardas e da saudação romana em favor de uma possível eficácia. Mas um facto, pelo menos, teria aconselhado Sua Majestade a ter juízo: ao tentar aproveitar-se da tragédia do 11 de Março para imputar falsamente o atentado à ETA e assim ganhar um trunfo supostamente decisivo para as iminentes eleições legislativas, Aznar comportou-se pública e comprovadamente como um sujeito sem escrúpulos, imerecedor de respeito político e pessoal. Se D. Juan Carlos gosta dele apesar disso ou mesmo por isso, se anda irritadiço por ver que o seu filho casou mal e o futuro da monarquia espanhola pode estar em risco, são coisas do seu foro pessoal que não o autorizam a interromper um presidente repetidamente eleito por larga maioria democrática (dado fundamental que os media talvez preferidos por Sua Majestade se obstinam em ocultar) para invectivá-lo malcriadamente. Para mais, como Juan Carlos tem obrigação de não ignorar porque, enfim, sendo rei alguma coisa há-de saber, o referido Aznar apoiou muito activamente movimentações nada democráticas que visavam afastar Chávez do poder legítimo mediante golpes de força criminosos. Assim, se o rei tinha muita vontade de falar deveria fazê-lo na devida altura, usando a palavra concedida por quem dirigia a reunião, e para pedir desculpa a Hugo Chávez pela actuação de Aznar, primeiro-ministro por ele nomeado embora na sequência de um resultado eleitoral. Não o fez, preferiu uma intervenção desatempada e à moda antiga, a lembrar a arrogância de um rei absoluto, como já não há, dirigindo-se a um súbdito que lhe tivesse causado desagrado. Saiu algum tempo depois, assim prolongando a sua majestática postura de má-criação, não antes de ter ouvido Daniel Ortega a recordar-lhe algumas verdades. Ia realíssimamente agastado, o homem. Com razão. Não foi para ouvir coisas destas que Franco o mandou educar.


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