Os motores da miséria...
Há um traço comum impressionante que atravessa todo o processo da globalização, seja em Portugal, seja em qualquer outro país do mundo. A globalização parece representar uma vanguarda de capitalismo anarquista: destrói mas não substitui, limita-se a entregar a nova sociedade aos caprichos daquilo a que chama leis do mercado.
É claro que a realidade é esta e ...o seu oposto. A globalização avança, esmaga o sistema anterior sem nada inovar mas, a nível das suas forças dominantes, está perfeitamente organizada e sabe o que quer. Como os animais de rapina, mata e devora tudo o que vive ao seu alcance. Mas numa primeira fase, a globalização da economia dá aos trabalhadores uma sensação de melhoria de vida e de progresso. É quando os estados pobres aderem à esfera do comércio internacional e abrem as suas fronteiras à livre entrada dos investimentos estrangeiros. Surgem grandes empresas, há mais emprego e os salários melhoram. Por pouco tempo, porém. Depois, os grandes investidores estrangeiros concorrem ferozmente entre si e a utilização das novas tecnologias exige o recurso a elites de quadros altamente especializados e bem pagos. As outras camadas não de trabalhadores não especializados são dizimadas e passam ao desemprego e à pobreza ou à miséria. O aumento da corrida às taxas de lucro cada vez mais altas determina a fusão ou a extinção de grandes unidades empresariais, a sua reconversão, as deslocalizações e a flexissegurança.
Esvaziava-se o mito do sucesso. Escavara-se um enorme fosso entre ricos e pobres. A tese da globalização social falhara estrondosamente. Mas a experiência da globalização que criara uma multidão de pobres, promovera também a formação de grandes fortunas pessoais entre as clientelas financeiras, os especuladores ou as camadas políticas dirigentes. O país ficara a saque.
É este o resultado normal da história das globalizações.
As funções da caridade
A acompanhar esta viragem estratégica do grande capital verifica-se, paralelamente, o aumento exponencial do número de Obras de Caridade camufladas na área da Segurança Social que é uma obrigação do Estado. As razões principais porque isso acontece são fáceis de distinguir. É necessário impedir que a resignação dos pobres se transforme em indignação popular e depois em revolta. Uma sopa, um naco de pão ou uma telha podem ser a solução para essas situações de risco.
Este tema foi recentemente abordado pelo cardeal-patriarca de Lisboa, D. José Policarpo, em jeito de candidatura formal a uma acção social que, na realidade, a igreja católica já desenvolve. Disse: «Será um desperdício se o Estado não aproveitar a rede de apoio social da igreja católica». Lembrou que há em Portugal um número de IPSS, ONGS e Misericórdias, bem superior a dois milhares. Estão prontas a funcionar em pleno, ao serviço do bem público. É então que o padre Francisco Crespo, director da Pastoral Social do Patriarcado, reforça as afirmações de D. José e põe o dedo na ferida: «Falta saber quem paga. As famílias, já sobrecarregadas de impostos ? Os mais desfavorecidos ou os desempregados? As instituições ou os seus trabalhadores?... Pode haver um vácuo entre a desmobilização das estruturas da igreja e a resposta plena do Estado nestas áreas», ameaçou.
O poderoso padre Crespo anunciou, então, que a Pastoral Social vai criar uma base de dados que permita coordenar funções e equipamentos de todas as instituições caritativas católicas existentes no país. E enumerou a lista das áreas onde a igreja pode substituir-se ao Estado caso se chegue a um acordo: apoio à infância, tempos livres, promoção da mulher, terceira idade, deficientes, maternidade, imigração, combate à pobreza, assistência alimentar, tóxico dependentes e seropositivos, clínicas e centros de saúde. Mas, quem pagará tudo isto ?
Nesta altura, D. José achou por bem esclarecer uma confusão muito frequente na distinção entre público e privado. Assim, «As instituições da Igreja não existem com finalidade lucrativa. Não podem ser consideradas privadas, são de natureza pública. O Estado aceitou a Concordata, não para ser simpático com a Igreja, mas para potenciar o serviço da Igreja na sociedade. Essas instituições são de serviço público».
Compreende-se agora que a tão falada crise nas relações entre a Igreja e o Estado se resume a um simples problema de interesses e de dinheiro. Se a globalização precisar de um tampão social, ele aí está imediatamente disponível. Porém, «quem paga»? - eis a questão. Numa outra linha negocial que também decorre, a nível das ONGS, a Igreja exige igualmente ao Estado português, como condição para continuar a ser sua aliada, a abertura de um importante fundo cativo alimentado e garantido pelos fundos públicos.
Assim vão os negócios entre D. José e o inefável Sócrates. Vende-se, compra-se, aluga-se ou regateia-se, o sofrimento e a pobreza do nosso povo.
É claro que a realidade é esta e ...o seu oposto. A globalização avança, esmaga o sistema anterior sem nada inovar mas, a nível das suas forças dominantes, está perfeitamente organizada e sabe o que quer. Como os animais de rapina, mata e devora tudo o que vive ao seu alcance. Mas numa primeira fase, a globalização da economia dá aos trabalhadores uma sensação de melhoria de vida e de progresso. É quando os estados pobres aderem à esfera do comércio internacional e abrem as suas fronteiras à livre entrada dos investimentos estrangeiros. Surgem grandes empresas, há mais emprego e os salários melhoram. Por pouco tempo, porém. Depois, os grandes investidores estrangeiros concorrem ferozmente entre si e a utilização das novas tecnologias exige o recurso a elites de quadros altamente especializados e bem pagos. As outras camadas não de trabalhadores não especializados são dizimadas e passam ao desemprego e à pobreza ou à miséria. O aumento da corrida às taxas de lucro cada vez mais altas determina a fusão ou a extinção de grandes unidades empresariais, a sua reconversão, as deslocalizações e a flexissegurança.
Esvaziava-se o mito do sucesso. Escavara-se um enorme fosso entre ricos e pobres. A tese da globalização social falhara estrondosamente. Mas a experiência da globalização que criara uma multidão de pobres, promovera também a formação de grandes fortunas pessoais entre as clientelas financeiras, os especuladores ou as camadas políticas dirigentes. O país ficara a saque.
É este o resultado normal da história das globalizações.
As funções da caridade
A acompanhar esta viragem estratégica do grande capital verifica-se, paralelamente, o aumento exponencial do número de Obras de Caridade camufladas na área da Segurança Social que é uma obrigação do Estado. As razões principais porque isso acontece são fáceis de distinguir. É necessário impedir que a resignação dos pobres se transforme em indignação popular e depois em revolta. Uma sopa, um naco de pão ou uma telha podem ser a solução para essas situações de risco.
Este tema foi recentemente abordado pelo cardeal-patriarca de Lisboa, D. José Policarpo, em jeito de candidatura formal a uma acção social que, na realidade, a igreja católica já desenvolve. Disse: «Será um desperdício se o Estado não aproveitar a rede de apoio social da igreja católica». Lembrou que há em Portugal um número de IPSS, ONGS e Misericórdias, bem superior a dois milhares. Estão prontas a funcionar em pleno, ao serviço do bem público. É então que o padre Francisco Crespo, director da Pastoral Social do Patriarcado, reforça as afirmações de D. José e põe o dedo na ferida: «Falta saber quem paga. As famílias, já sobrecarregadas de impostos ? Os mais desfavorecidos ou os desempregados? As instituições ou os seus trabalhadores?... Pode haver um vácuo entre a desmobilização das estruturas da igreja e a resposta plena do Estado nestas áreas», ameaçou.
O poderoso padre Crespo anunciou, então, que a Pastoral Social vai criar uma base de dados que permita coordenar funções e equipamentos de todas as instituições caritativas católicas existentes no país. E enumerou a lista das áreas onde a igreja pode substituir-se ao Estado caso se chegue a um acordo: apoio à infância, tempos livres, promoção da mulher, terceira idade, deficientes, maternidade, imigração, combate à pobreza, assistência alimentar, tóxico dependentes e seropositivos, clínicas e centros de saúde. Mas, quem pagará tudo isto ?
Nesta altura, D. José achou por bem esclarecer uma confusão muito frequente na distinção entre público e privado. Assim, «As instituições da Igreja não existem com finalidade lucrativa. Não podem ser consideradas privadas, são de natureza pública. O Estado aceitou a Concordata, não para ser simpático com a Igreja, mas para potenciar o serviço da Igreja na sociedade. Essas instituições são de serviço público».
Compreende-se agora que a tão falada crise nas relações entre a Igreja e o Estado se resume a um simples problema de interesses e de dinheiro. Se a globalização precisar de um tampão social, ele aí está imediatamente disponível. Porém, «quem paga»? - eis a questão. Numa outra linha negocial que também decorre, a nível das ONGS, a Igreja exige igualmente ao Estado português, como condição para continuar a ser sua aliada, a abertura de um importante fundo cativo alimentado e garantido pelos fundos públicos.
Assim vão os negócios entre D. José e o inefável Sócrates. Vende-se, compra-se, aluga-se ou regateia-se, o sofrimento e a pobreza do nosso povo.