A Voz da Luta e da Fraternidade

Urbano Tavares Rodrigues

Suplemento do Avante! dedicado a Adriano Correia de Oliveira

Foi através de José Manuel Tengarrinha que conheci o Adriano Correia de Oliveira. Vinham às vezes passar o serão a minha casa e ambos cantavam. Eram memórias da resistência italiana, trovas heróicas e também burlescas dos milicianos do 5.º regimento na guerra civil de Espanha, e também canções do Zeca Afonso e do próprio Adriano.

Não me recordo já exactamente de quando lhe propus escrever duas canções de combate, as lutas populares no Alentejo tinham crescido após a campanha pseudo eleitoral de 1969 e apareciam grupos de acção directa, sobretudo a ARA (Acção Revolucionária Armada), e as Brigadas Revolucionárias.
A Margem Sul tinha lá tudo: o direito dos trabalhadores rurais e camponeses à posse da terra, a rejeição das guerras coloniais em África, a miséria, a evocação de Catarina Eufémia e finalmente a alusão à «foice dos teus ceifeiros como bandeira sonhada».
Mais lírica e cifrada, a Canção Patuleia ou Canção do Soldado, aponta no mesmo sentido de luta e conquista da igualdade.
Depois do 25 de Abril acompanhei algumas vezes o Adriano em especial ao Alentejo e até por vezes o solicitei (levei-o por exemplo à minha Faculdade de Letras, onde teve um êxito assombroso) e, embora ele colhesse o seu reportório fundamental na Praça da Canção e em O Canto e Armas, admiráveis textos poéticos de denúncia do fascismo e da guerra, uma vez ou outra lá vinha a Margem Sul, quase esquecida.
Era infinita a disponibilidade do Adriano para acudir ao chamamento de fábricas e empresas nacionalizadas ou de colectividades populares, de organizações do PCP.
Militante da liberdade e da esperança, com o seu sorriso cândido, a sua estatura imponente, levava a alegria aos lábios das moças e a força de ânimo a quantos recebiam a sua mensagem de combate, cheia de sol.
Parecia às vezes um herói grego, desses que enfrentavam monstros e prodígios.
Não o travou a recuperação capitalista, não se cansou de remar contra a corrente.
Já nessa fase víamo-nos menos. Eram grandes abraços e ia cada qual às suas tarefas.
Pouco conhecia a Matilde. Eram os Sucenas, o José e o Paulo seus amigos de sempre, que me davam notícias do Adriano e, mais tarde, do seu doloroso final.
O tempo apaga as memórias, mas hei de rever sempre a chama do Adriano, frente ao público que se lhe rendia, ouvir o cristal da sua voz, em cuja limpidez nascia a fraternidade.


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